Pular para o conteúdo principal

Liberalismo e Teocracia




Governo tenta censurar os costumes, as vidas e as artes de muitos



The Arrival Of The Pilgrim Fathers   art print by Antonio Gisbert

No começo do século 17, os puritanos ingleses achavam que a igreja da Inglaterra não se afastava o suficiente da igreja católica romana.

Alguns decidiram emigrar para as colônias americanas (Massachusetts).

Suposição lógica: quem atravessa o Atlântico para garantir a sua própria liberdade saberia respeitar a liberdade dos outros.

Não foi assim. Um dia, chegaram a Massachusetts Mary Fisher e Ann Austin; elas eram quakers e começaram a divulgar sua forma de cristianismo. Foram presas, e seus livros, queimados. Os puritanos, de qualquer forma, desconfiavam de mulheres em geral, como mostraram mais tarde, em Salem, enforcando 14 bruxas (e só cinco bruxos).

Enfim, os quakers, nas colônias americanas, comportaram-se de maneira mais lógica. Quando conseguiram o governo da Pensilvânia, eles a povoaram anunciando, Europa afora, o seguinte: quem fosse para lá teria aquela liberdade de culto e de vida que eles, os quakers, não tiveram quando chegaram às Américas.



Fieis puritanos indo para uma igreja


A atitude dos quakers prevaleceu. A liberdade de culto, crenças, opiniões e costumes se tornou valor fundamental na Constituição dos Estados Unidos. Zelar pela liberdade de todos (inclusive dos que pensam muito diferente de você) é o melhor jeito de você preservar a sua própria liberdade de opinião, culto e vida.

Esse liberalismo nas crenças e nos costumes talvez seja, aliás, uma condição do sucesso do liberalismo econômico americano. Uma economia baseada na iniciativa dos indivíduos supõe que cada indivíduo seja livre de viver do seu jeito.

Justamente, o maior representante do liberalismo clássico, Ludwig von Mises, em ‘Ação Humana’, declarava-se neutro em relação às crenças religiosas, contanto que não se metessem na condução dos assuntos sociais, políticos e econômicos, mas ele era ‘radicalmente oposto a qualquer sistema de teocracia’ —ou seja, a qualquer sociedade em que a autoridade fosse exercida em nome de um deus.

Ora, o governo brasileiro atual se declara liberal em economia, mas exala um bafo teocrático: em nome do deus de uma parte de sua base (população supostamente representada pela bancada evangélica), tenta censurar os costumes, as vidas e as artes de muitos.

Os teocratas são bizarros: eles não defendem sua própria liberdade (que ninguém contesta), o que lhes importa é limitar a dos outros.




Exemplos: o prefeito Crivella quer impedir as crianças cariocas de verem um beijo gay. Um governante liberal deixaria soltos os beijos gays, mas não proibiria aos cariocas assistir à pregação do bispo Crivella e tampouco obrigaria Crivella a beijar homens, visto que ele não quer.

A ministra Damares, que se reuniu em Budapeste com representantes de governos que flertam com o autoritarismo, sonha com um Brasil de famílias todas heterossexuais, numerosas e cristãs do cristianismo dela, um Brasil em que homossexuais não poderiam se casar nem adotar crianças, um Brasil sem feminismo, sem intersexuais nem transexuais.

Num governo liberal, tudo o que ela sonha em proibir seria permitido, mas não por isso ela seria obrigada a frequentar clubes de suingue e se entregar a sexo selvagem; ao contrário, permaneceria livre para se dedicar aos estudos bíblicos.

Nossa maneira de viver (feita de crenças, regras e costumes) é sempre um sintoma, ou seja, um compromisso duplo: entre vários desejos conflitantes e entre esses desejos e as exigências repressivas, internas e externas.

Agora, o que faz com que muitos indivíduos sejam seduzidos por um projeto totalitário, ou seja, pelo projeto de impor seu sintoma a todos os outros, como uma moral universal obrigatória?

Hannah Arendt dizia que a sedução exercida pelos totalitarismos estava em suas ideologias, por elas fornecerem respostas reconfortantes aos mistérios da vida. Para o nazismo, toda a história é conflito de raças; para o comunismo, é luta de classes; e eu acrescentaria, para as teocracias, é expressão da vontade divina.

Continuando nessa direção, a sanha missionária serve aos teocratas para situar nos outros (nos ‘infiéis’) todos os ‘pecados’ aos quais eles mal conseguem resistir. Tenho tentações inconfessáveis e irresistíveis? Policiando os outros cultivo a ilusão de conseguir policiar a mim mesmo.

Também, na sanha missionária, esqueço meus desejos e me confundo com meu grupo de assanhados.

Descanso assim de ser um indivíduo pensante e de fazer minhas próprias escolhas morais.







Fonte: Contardo Calligaris, Psicanalista, autor de ‘Hello, Brasil!’ e criador da série PSI (HBO)   |   FSP



(JA, Set19)


Postagens mais visitadas deste blog

Grabovoi - O Poder dos Números

O Método Grabovoi  foi criado pelo cientista russo Grigori Grabovoi, após anos de estudos e pesquisas, sobre números e sua influência no nosso cérebro. Grigori descobriu que os números criam frequências que podem atuar em diversas áreas, desde sobrepeso até falta de concentração, tratamento para doenças, dedicação, e situações como perda de dinheiro. Os números atuam como uma ‘Código de desbloqueio’ dentro do nosso inconsciente, criando frequências vibratórias que atuam diretamente na área afetada e permitindo que o fluxo de informações flua livremente no nosso cérebro. Como funciona? As sequências são formadas por números que reúnem significados. As sequências podem ter  1, 7, 16, ou até 25 algarismos, e quanto mais números, mais específica é a ação da sequência. Os números devem ser lidos separadamente, por exemplo: 345682 Três, quatro, cinco, seis (sempre o número seis, não ‘meia’), oito, dois. Como praticar Você deve escolher uma das sequencias num

Thoth

Deus da lua, juiz dos mortos e deus do conhecimento e da escrita, Thoth (também Toth, ou Tot, cujo nome em egípcio é Djehuty) é um deus egípcio, representado com cabeça de íbis. É o deus do conhecimento, da sabedoria, da escrita, da música e da magia. Filho mais velho do deus do sol Rá, ou em alguns mitos nascido da cabeça de Set, era representado como um homem com a cabeça da ave íbis ou de um babuíno, seus animais sagrados.   Sendo o deus associado com o conhecimento secreto, Thoth ajudou no sepultamento de Osíris criando a primeira múmia. Era também o deus das palavras, da língua e posteriormente os gregos viam este deus egípcio como a fonte de toda a ciência, humana e divina, do Egito. O culto de Thoth situava-se na cidade de Khemenou, também referida pelos gregos como Hermópolis Magna, e agora conhecida pelo nome árabe Al Ashmunin. Inventor da escrita Segundo a tradição, transmitida também por Platão no diálogo Fedro, Thoth inventou a escrita egípc

Por que Jesus dobrou o lenço?

‘E que o lenço, que estivera sobre a cabeça de Jesus, não estava com os panos, mas enrolado num lugar à parte’.(João 20:7) Por que Jesus dobrou o lenço que cobria sua cabeça no sepulcro depois de sua ressurreição? Você já deteve sua atenção a esse detalhe? João 20:7 nos conta que aquele lenço que foi colocado sobre a face de Jesus não foi apenas deixado de lado como os lençóis no túmulo. A Bíblia reserva um versículo inteiro para nos contar que o lenço fora dobrado cuidadosamente e colocado na cabeceira do túmulo de pedra. Bem cedo pela manhã de domingo, Maria Madalena veio à tumba e descobriu que a pedra havia sido removida da entrada. Ela correu e encontrou Simão Pedro e outro discípulo, aquele que Jesus tanto amara. Disse ela: ‘Eles tiraram o corpo do Senhor e eu não sei para onde eles o levaram’. Pedro e o outro discípulo correram ao túmulo para ver. O outro discípulo passou à frente de Pedro e lá primeiro chegou. Ele parou e observou os lençóis lá,