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Mostrando postagens com o rótulo SAUDADE

Imortalidade

Morremos, acabou. O que pensarem de nós, pouco importará. Humm... Será mesmo que somos tão indiferentes à impressão que deixaremos? Alguma curiosidade há de se ter sobre como nosso nome circulará nas rodas de conversa (numa projeção otimista, dando como certo que alguns ainda falarão a nosso respeito) . Quanto tempo de vida você imagina que terá depois de expirado seu prazo de validade? A boa notícia: enquanto alguém lembrar de você, sua morte será parcial. Minha avó Iby ainda vive (morreu aos 90) , meu colega Rooney ainda vive (morreu aos 34) , meus dois primos Flavio ainda vivem (um partiu aos 60, outro aos 56) . É como contribuo para a imortalidade que lhes coube, eles que nunca foram pilotos de Fórmula- 1 , jogadores de futebol, ídolos populares. Quem não é famoso precisa garantir a própria imortalidade através da autêntica e sincera saudade. Soube pelo obituário que um querido amigo perdeu o pai. Fazia anos que eu não tinha contato com ele, mas recordava que os dois eram muito...

Brasil, Final da 2ª Guerra Mundial

  De 1944 a 1945 , em pleno final da 2 ª Guerra Mundial, muitos alimentos ficaram faltando nos armazéns paulistanos. Havia falta de trigo, açúcar refinado etc. Houve então um racionamento de vários produtos, os quais antes se compravam normalmente nas famosas vendas e mercadinhos , mas que, nesse período, só eram vendidos para possuidores de ticket ou no câmbio negro. Na época eu era uma criança ainda, com sete aninhos, e ia sempre com minha mãe tentar comprar as coisas necessárias para a nossa alimentação. Foi nessa época tão difícil que eu perdi meu pai; lembro-me bem disso, era junho de 1945 . Para se comprar pão, além de dinheiro ou ter crédito para poder mandar marcar na caderneta o valor da compra, ainda era obrigatório possuir um ticket especial que limitava a quantidade a ser comprada. Não me lembro como era adquirido esse ticket, só sei que ele era necessário para se comprar pão, farinha de trigo e carne. Caso acabasse o nosso ticket antes do final do mês, ficávamos...

Maurice

Vou falar de um gato que tive e já não tenho, mas que, a salvo da mudança, que tudo aniquila, subsiste imutável naquelas perpétuas saudades já cantadas por um poeta nosso. Chamava-se Maurice, pois a cor de sua pelagem lembrava-me o cabelo do jovem ator que, pouco antes, protagonizara o filme de igual nome, baseado no romance de E.M. Foster; e apareceu-me, num fim de primavera, entre o mato que crescia em meu quintal. Arisco – e com excelentes razões para sê-lo, como vim a descobrir – esquivo a qualquer contato humano, da distância a que me achava pude ver-lhe a cabeça e o dorso rajado de um vívido amarelo-laranja, que brilhava entre as ervas escuras germinadas a esmo. Em lugar da cauda, um pequeno toco ensanguentado falava-me em silêncio de um acidente ainda recente. Levei-lhe comida, a mesma que comiam minhas três gatas, deixando-a a certa distância da touceira de onde me espreitava, e logo me afastei. Ele veio e comeu. Na tarde seguinte, mais ou menos à mesma hora, lá est...

Saudade Comum

Eles se conheceram durante um curso de especialização profissional. Naqueles poucos dias, se aproximaram, descobriram afinidades, começaram a se falar, a se encontrar fora do ambiente do curso, e se apaixonaram. O sentimento que cada um tinha pelo outro era algo muito diferente de tudo que já haviam sentido até então, em termos de qualidade e de intensidade. Ambos não eram mais tão jovens. Tinham em torno de 35 anos, haviam sido casados, tinham filhos, enfim cada um tinha uma história de vida quase completa. Inicialmente, a paixão deles era tão intensa que não conseguiam deixar de um pensar no outro, estivessem onde estivessem.  Imaginavam como seria se o outro estivesse ali ao seu lado, qual seria sua reação, o que diria, o seu olhar, o seu sorriso... Eles se completavam, supriam as carências e potencializavam as qualidades, talentos, um do outro. Seus programas eram quase iguais aos da maioria dos namorados. Por exemplo: “Eles ainda estavam bem no início do namor...

Eram dois botões que se amavam, mas

Eles se viam oportunamente, quando coincidia da senhora utilizar ao mesmo tempo a blusa e a camisa, nos quais cada um, respectivamente,  estava pregado.  Esses momentos eram especiais. Eles, então, embora separados, cada qual na sua casa, sentiam-se unidos pelo mesmo destino, e parecia que tudo era possível. Entretanto, findo o passeio ou o  dia de trabalho, cada qual ia para a sua prateleira ou gaveta e, às vezes,  ficavam dias sem se ver.  Nessas ocasiões, um ficava pensando no outro, curtindo a saudade, o seu amor,   na melancolia da lembrança de algo de bom que aconteceu.  Por que eles se sentiam tão atraídos? Difícil dizer, a não ser que isso estava confirmando a tese de que sentimentos não têm explicação, independem da razão.  Eles apenas existem. Os dois botões não sabiam como a sua história iria terminar, aliás ninguém poderia prever o fim dessa paixão tão impossível. Mas, um belo dia, a senhora contratou uma costureira para dar ...