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Maurice

Vou falar de um gato que tive e já não tenho, mas que, a salvo da mudança, que tudo aniquila, subsiste imutável naquelas perpétuas saudades já cantadas por um poeta nosso. Chamava-se Maurice, pois a cor de sua pelagem lembrava-me o cabelo do jovem ator que, pouco antes, protagonizara o filme de igual nome, baseado no romance de E.M. Foster; e apareceu-me, num fim de primavera, entre o mato que crescia em meu quintal. Arisco – e com excelentes razões para sê-lo, como vim a descobrir – esquivo a qualquer contato humano, da distância a que me achava pude ver-lhe a cabeça e o dorso rajado de um vívido amarelo-laranja, que brilhava entre as ervas escuras germinadas a esmo. Em lugar da cauda, um pequeno toco ensanguentado falava-me em silêncio de um acidente ainda recente. Levei-lhe comida, a mesma que comiam minhas três gatas, deixando-a a certa distância da touceira de onde me espreitava, e logo me afastei. Ele veio e comeu. Na tarde seguinte, mais ou menos à mesma hora, lá est...