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Avós

Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser. Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar sem pressa, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas mais simples.

Nunca consideram que quando se entretêm conosco estão perdendo tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor se dá bem com essa divisão gratuita.

Os avós são docemente silenciosos, mesmo se normalmente forem muito tagarelas. Os avós parecem distraídos, e isso é bom. Os avós caminham ao nosso lado, sem pressa.

Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas, e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas, e de detalhes para nos divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar.

Apresentam-nos a gostos e a sabores que adotamos e passamos a nos identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes a lugares onde nos levam pela primeira vez.

Chamam a atenção para coisas incalculáveis, como a forma de uma nuvem, ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado.

Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas, e colos onde cabem as grandes.

Eles não separam, como o resto das pessoas, aquilo que é útil do que é inútil. Fazem-nos sentir que é assim, que já passaram por isso, e que existe uma solução que nos vão revelar, só a nós, como um grande segredo.

Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degraus a degrau. Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão.

Quando não estão conosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo que sorrimos ou respiramos.

Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar, é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles,

 


Fonte: José Tolentino Mendonça | The Dancing Words

 

(JA, Jul26)

 

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