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Nelson Piquet


Tricampeão do mundo, o segundo brasileiro a erguer o troféu mundial de Fórmula 1, o homem que dominou os anos 80, e que é o mesmo homem que roubou a namorada do piloto italiano Élio De Angelis, que depois morreu queimado num acidente em 1986. Ele riu da morte de Airton Sena numa revista pornô francesa, e foi condenado pela justiça pela palavra racista que disse para Lewis Hamilton. Hoje você vai saber a verdade sobre o que Piquet fez com Sena, e porque nunca foi perdoado.

Ainda mais obscura é a história da modelo holandesa que lhe deu três filhos depois de ter sido a namorada do piloto que morreu queimado. E o pior da sua vida, a palavra racista que lhe custou 5 milhões reais, e que a justiça brasileira bloqueou sua a mansão, seus carros, e suas contas bancárias.  Mas antes, tem que saber quem era Nelson Solto Maior, antes de ser o Piquet da Fórmula 1.

Agosto de 1952, Rio de Janeiro, Brasil. Uma clínica particular do bairro do Botafogo. Uma família pernambucana da elite brasileira recebe o primeiro filho varão. coloca um nome que muito poucos brasileiros conhecem hoje, Nelson Solto Maior. O sobrenome Piquet não estava na certidão de nascimento.

O sobrenome Piquet veio depois, e por uma razão que poucos espectadores de Fórmula 1 conhecem. O pai do recém-nascido chamava-se Estácio Gonçalves Solto Maior, médico pernambucano, político, ministro da saúde durante o governo de João Gulart, entre 1961 e 1962. Homem culto, conservador, profundamente católico, um brasileiro da elite do Nordeste, que tinha estudado medicina no Recife, feito o doutorado no Rio, e chegado a Brasília com a família quando o presidente Jucelino Kubitschek inaugurou a nova capital do país, em 1960.

A mãe chamava-se Clotilde Piquet, sobrenome francês herdado de antepassados da região de Pernambuco. Mulher elegante, fina, dedicada à casa e aos filhos. Três no total. Nelson, o do meio. O pai Estácio tinha um sonho claro para o filho Nelson. Ele o via seguindo a carreira médica, ou entrando na política, ou se dedicando ao tênis - desporto de homens sérios e de boa família no Brasil dos anos 60.

O Dr. Solto Maior chegou inclusive a conseguir para o filho uma bolsa numa escola de tênis em Atlanta, nos Estados Unidos. Nelson aceitou a bolsa. Viajou para Atlanta aos 14 anos, ganhou alguns torneios juvenis, e voltou para Brasília com pequenos troféus. Mas, o miúdo Nelson tinha um segredo. Guarde esse pormenor na tua cabeça, porque o segredo que o adolescente Nelson Solto Maior tinha, aos 14 anos, explica exatamente porque decidiu mudar de sobrenome.

E, durante 60 anos depois, essa mesma mudança do sobrenome ainda marca a família inteira. O segredo era um barracão pequeno da zona sul de Brasília, um local onde alguns filhos de famílias ricas brasileiras escondiam o que os pais não aprovavam. Karts, pequenos veículos de motor a gasolina, sem telhadinho, sem proteção, que podiam passar dos 120 km/h numa reta curta.

O desporto, que no Brasil dos anos 60 era considerado perigoso, vulgar, indigno de uma família rica.

Nelson tinha 14 anos quando subiu em um kart pela primeira vez. Era o ano de 1966. Ele levou um primo, escondeu-o do pai, e descobriu, naquele barracão de Brasília, o que iria definir o resto da sua vida. Velocidade!

Durante três anos, Nelson Solto Maior competiu em karts amadores do Distrito Federal com um nome falso, para que o pai Estácio não descobrisse. O miúdo usou o sobrenome materno nas inscrições e, no início, usou-o escrito errado. Piket, com K. Depois corrigiu a grafia para ‘Piquet’. O sobrenome francês da mãe, suficientemente distinto do Solto Maior do pai, para que as notícias desportivas não chegassem ao consultório do médico.

Cada vitória do jovem Piquet nos kartódromos brasileiros era uma vitória silenciosa contra o pai, uma vitória que se publicava com um nome que não era o da família dele. O pai, Estácio, lia os jornais desportivos sem saber que o miúdo destacado nos karts era seu próprio filho. Aos 18 anos, em 1970, Nelson venceu o Campeonato Brasileiro de Karts.

A notícia chegou finalmente ao consultório do Dr. Solto Maior. O pai descobriu. Houve uma briga brutal dentro da casa de família em Brasília. Gritos, ameaças de cortar a herança. A mãe Clotilde tentou mediar, as irmãs choraram. Nelson tomou uma decisão que o iria marcar para sempre; manteve o sobrenome falso, adotou legalmente o Piquet como nome artístico, e saiu da casa familiar. Aos 19 anos com uma mala e um sonho concreto, o de chegar à Fórmula 1.

E aqui é que a história fica interessante, porque este miúdo de 19 anos, que saiu da casa do pai com uma mala, e um nome falso, em 15 anos iria se tornar um dos três pilotos de Fórmula 1 mais respeitados do planeta. Mas, a ferida com o pai nunca fechou. E em 1994, esta ferida iria explicar exatamente porque Piquet não foi ao velório do único homem que o Brasil inteiro chorou mais do que no do próprio presidente.

1977, Inglaterra.

Nelson Piquet chegou a Londres com 25 anos, um contrato de Fórmula 3, e quase nenhum dinheiro. Passou a morar num apartamento mínimo de Birmingham, com mais dois pilotos brasileiros. Cada cêntimo ia para o kart. Cada fim de semana corria num circuito britânico diferente. Cada segunda-feira voltava ao apartamento para comer pão duro, e estudar mecânica.

O pai Estácio tinha bloqueado oficialmente qualquer ajuda econômica desde a briga de 71. A mãe, Clotilde, sem o médico saber, enviava envelopes de $, de dois em dois meses, por correio, para o endereço dele em Birmingham. Era a única remessa que o miúdo recebia, a cada 8 semanas, para comer, pagar, e manter o kart em condições de competir. 

Jack Stuart, Escócia, b. 1939

E, mesmo assim, o miúdo Piquet tinha algo que muito poucos pilotos da geração dele tinham. Uma velocidade natural nas curvas, que os engenheiros britânicos descreviam, já em 1978, como sobrenatural. Na Fórmula 3 britânicas, Piquet ganhou 13 das 16 corridas da época de 78; bateu o recorde histórico de Jack Stuart, o escocês tricampeão do mundo.

O palanque europeu começou a falar dele, e o homem que mais falou foi um dos personagens mais temidos do automobilismo mundial, Berny Eckston, proprietário da escuderia Brabham, homem de negócios britânico que controlava nos bastidores metade dos contratos da Fórmula 1. Eclestone chamou Piquet para o seu escritório em Londres no final de 1978.

Ofereceu-lhe uma vaga na Fórmula 1 para a época de 79, salário inicial, contrato de 3 anos, cláusulas duras. Se não rendesse em seis meses, ficava fora sem indenização. Nelson Piquet aceitou nessa mesma tarde, sem advogados nem segunda leitura, sem pedir aumento. Aos 26 anos, o miúdo, que tinha fugido da casa do pai com uma mala de cartão, corria na Fórmula 1.

Brabam, motor Ford Cosworth, capacete azul e branco, com a bandeira brasileira ao lado.

A primeira corrida da sua vida foi em março de 1979, no Grande Prêmio da Argentina. Terminou em 12º. O primeiro pódio chegou em agosto na Holanda. A primeira vitória chegou em 1980, no Grande Prêmio do Oeste dos Estados Unidos, em Long Beach, Califórnia.

Imagine por momentos que o seu filho, depois de discutir consigo, fosse viver em outro continente, com uma única mala, e regressasse, 7 anos depois, ganhando o prêmio mais importante do planeta na sua profissão. Foi o que Nelson Piquet fez com o Dr. Estácio em Brasília. Mas a vitória contra o pai não estava completa, faltava o Mundial.

E, desde essa primeira vitória em Long Beat, durante os 8 anos seguintes, Nelson Piquet iria viver a época mais gloriosa do automobilismo brasileiro, mas também iria semear, sem saber, os conflitos que, em 1994, custar-lhe-ia o respeito do país inteiro. 

Carlos Reuteman, Argentina, 1942-2021

1981, Brabham BT, 49, Motor Ford Cosworth, 15 corridas durante o ano, três vitórias.

E, num duelo final na última corrida no circuito de Las Vegas Caesar Palace contra o argentino Carlos Reuteman, Piquet venceu por um único ponto - 50 pontos contra 49. Primeiro título mundial brasileiro desde Emerson Fittipaldi em 1974. O primeiro brasileiro a levantar a taça do campeonato do mundo de Fórmula 1 tinha sido Fittipaldi por duas vezes - 72 e 74.

Piquet, em 1981, virou o segundo. A imprensa brasileira explodiu. O Presidente João Figueiredo o recebeu no Palácio do Planalto, em Brasília, na mesma cidade onde 10 anos antes Piquet tinha aprendido a conduzir kart escondido do pai. A Globo televisão fez um especial de 45 minutos sobre o campeão. O Brasil inteiro começou a ver a transmissão da Fórmula 1 aos domingos de manhã.

Este é já um dado que poucos brasileiros sabem. Antes de Piquet, a Fórmula 1 era um desporto minoritário no Brasil. Depois do Primeiro Mundial de 81, as casas brasileiras passaram a se reunir, aos domingos de manhã, em frente da televisão durante os 15 anos seguintes. Uma geração inteira do país cresceu vendo o capacete azul e branco do miúdo de Brasília.

Mas o miúdo, que tinha aprendido a correr de kart escondido, não se contentou com um título. Em 1983, Piquet venceu o segundo campeonato mundial em Brasília, com a Brabham, motor BMW turbo, 1500 cavalos de potência, uma besta mecânica que só dois pilotos do planeta conseguiam dominar. Piquet era um deles. O outro era o francês Alan Prost.

Nigel Mansell, Inglaterra, b. 1953

Nesse ano, 1983, os adeptos brasileiros descobriram, pela primeira vez, uma palavra que iria marcar a década inteira, tricampeão. Piquet já ia estava a caminho. E, em 1987, já na equipe Williams Honda, juntamente com o inglês Nigel Mansel, Nelson Piquet venceu o terceiro campeonato mundial. Tricampeão, 35 anos, brasileiro. 

      
                    Juan Manuel Fangio, Argentina, 1911-1995                             Alain Prost, França, b. 1955 

     

                      
          Niki Lauda, Áustria, 1949-2019                             Jack Brabham, Austrália, 1926-2014

Só Juan Manuel Fangio, Jack Stuart, Nick Lauda, Jack Brabham e Alain Prost, tinham ganho três, ou mais mundiais, na história da Fórmula 1 até àquele momento. O Brasil tinha um novo deus do desporto. Estava no mesmo nível de Pelé, de Garrincha. O pai Estácio Solto Maior, que estava doente, já velho, deu finalmente declarações para a imprensa brasileira reconhecendo o filho.

 A família se tinha reconciliado parcialmente. A mãe Clotilde Piquet aparecia nas fotos ao lado do campeão, com orgulho silencioso. E aqui começa a guerra mais longa do automobilismo brasileiro. A guerra que durante 10 anos dividiu o Brasil inteiro. A guerra que terminou no dia de maio de 1994, numa curva chamada Tamburelo, na pista de Ímula, Itália.

A guerra entre Nelson Piquet e Airton Sena, mas em plena glória desportiva, o tricampeão brasileiro já tinha construído em silêncio uma vida pessoal que iria destruir, durante os 30 anos seguintes, várias famílias inteiras. Uma vida que o público europeu conhecia, mas que a imprensa brasileira, durante anos, decidiu não contar.

 
                                                      Ayrton Senna, Brasil, 1960-1994

Em 1976, antes de subir para a Fórmula 1, Piquet tinha se casado em Brasília com uma brasileira chamada Maria Clara. O casamento durou um ano. Tiveram um filho, Geraldo Piquet, nascido em novembro de 1977. Quando Piquet se mudou para a Inglaterra, Maria Clara ficou em Brasília com o bebê. O casamento se dissolveu legalmente em 1978, e Piquet não voltou a ver Geraldo durante vários anos.

Já na Europa, convivendo com o pessoal da Fórmula 1, entre Mônaco, Londres, e os circuitos do continente, Piquet conheceu uma modelo holandesa - uma mulher loira, alta, que era fotografada pelas revistas de moda de Amsterdã e Paris. Sílvia Ena McKsman, filha de uma família holandesa tradicional, modelo profissional desde os 18 anos.

Mas, Sílvia McKsman não era uma mulher livre quando Piquet a conheceu, no início dos anos 80. Sílvia tinha namorado, e o namorado de Sílvia era um homem do circuito europeu, outro piloto de Fórmula 1. E guarda esse nome porque este piloto, de quem Piquet tirou a namorada, este italiano de Roma que iria marcar para sempre a história de Piquet, iria morrer 4 anos depois, num acidente de Fórmula 1 que o Brasil inteiro se lembra.

E o carro em que morreu era o mesmo carro que Piquet tinha abandonado. O piloto de quem Piquet tirou a namorada se chamava Elio de Angelis, italiano romano, nascido no dia 26 de março de 1958. Filho de Júlio de Angelis, cinco vezes campeão do mundo de lanchas a motor. Pianista antes de ser piloto, elegante, requintado, católico praticante. 

Elio De Angelis, Itália, 1958-1986

A imprensa europeia o chamava de último gentleman da Fórmula 1. De Angelis e Silvia McKsman tinham sido um casal entre 1979 e 1980. Apareciam juntos nas revistas italianas, jantavam nos restaurantes de Mônaco. A família Angeles, de Roma, esperava que o piloto se casasse com a modelo holandesa. Sílvia esteve presente em cada corrida de Elio durante estes dois anos.

Até que, em algum momento, entre o finais de 1980 e o início de 1981, Nelson Piquet apareceu na vida de Sílvia. O brasileiro tinha 28 anos. Recém campeão mundial, carismático, brincalhão, dono de um apartamento em Mônaco. Sílvia se apaixonou por ele, deixou De Angelis, mudou-se para o apartamento de Piquet em Mônaco. Existe uma fotografia dos arquivos da imprensa europeia, datada de 1982, onde aparecem Piquet e Sílvia, caminhando pelo porto do Mônaco, de mãos dadas.

O brasileiro com óculos escuros, a holandesa com um vestido branco, já casal oficial, já afastados de Elio De Angelis. O italiano que, nesse mesmo ano - 1982, venceu sua primeira corrida de Fórmula 1, na Áustria, sem Sílvia no box. Durante os 4 anos seguintes, Sílvia viveu com Piquet, entre o Mônaco e os circuitos europeus.

Em julho de 1985, em Heidelberg, na Alemanha, Sílvia deu à luz ao primeiro filho do casal. Nelsinho Piquet, Nelson Ângelo McKsman Piquet Solto Maior, o segundo filho do tricampeão mundial. E, 10 meses depois, em maio de 1986, aconteceu algo que o Brasil demorou décadas para juntar peça por peça. Mas, antes de chegar nesse ponto, vamos falar de um outro evento que, naquele mesmo ano, tinha explodido no circuito europeu.

Um evento que não tinha a ver com Silvia McKsman, nem com Elio De Angelis, nem com a família. Um evento que tinha a ver com outro brasileiro, um piloto novo, um miúdo paulistano que tinha chegado à Fórmula 1 dois anos antes, e que estava crescendo mais rápido do que qualquer piloto da história recente. Airton Sena da Silva. Sena tinha estreado na Fórmula 1 em 1984 com a equipe Toleman.

Toleman, um desconhecido, mas guarde esse dado porque este miúdo paulistano, da Toleman, iria ser, em 6 anos, o piloto mais amado Brasil. E o vilão da história, sem saber ainda, já estava escrevendo a própria condenação numa mansão de Mônaco, numa equipe modesta. Mas, já na primeira temporada, o miúdo paulistano tinha mostrado ao mundo que era diferente.

Sob a chuva do Mônaco, numa pista que parecia impossível de conduzir, Sena subiu da 10ª posição para a segunda, em 15 voltas. A corrida foi suspensa pela chuva antes de Sena passar o líder, mas o Padoque tinha compreendido. Tinha nascido um novo fenômeno. Em 1985, Sena assinou com a Lotos. Era a equipe de Colin Chapman, a equipe onde corria precisamente Elio De Angelis, o italiano de quem Piquet roubou a namorada 3 anos antes.

Nesse ano, 85, Sena e De Angelis foram companheiros de equipe dentro do mesmo box. E os dois viam Nelson Piquet do outro lado do padoque. O italiano calado com a ferida de Sílvia - já cicatrizada por fora, mas intacta por dentro. O paulistano já iria começar a ganhar corridas, já olhando para Piquet como o próximo obstáculo na sua carreira ao campeonato do mundo.

E enquanto os dois pilotos da Lotus observavam Piquet, o tricampeão brasileiro fazia piadas obscenas nas conferências de imprensa. Ria dos novos pilotos, ria dos novatos religiosos, como Sena, ria da Lotos de Chapman, ria de tudo. Até que, numa tarde, em Mônaco, em 1986, numa entrevista de 6 horas com um jornalista francês, Piquet lançou três frases sobre Sena que iriam marcar a carreira inteira dele.

A revista era a Playboy, edição francesa, de dezembro de 1986 - uma das publicações mais vendidas na Europa nessa década – a tiragem mensal era de 900.000 exemplares distribuídos entre França, Bélgica, Suíça, Mônaco, Itália e Portugal. tinha como capa uma modelo francesa de 22 anos. E, no interior, nas páginas centrais, uma entrevista de 14 páginas com o tricampeão mundial brasileiro Nelson Piquet.

A primeira frase de Piquet sobre Sena naquela entrevista da Playboy francesa, transcrita, palavra a palavra, pelo jornalista francês Jack Slafit, ex-piloto de Fórmula 1, e amigo pessoal de Piquet, publicada na edição de dezembro de 1986, traduzida pela revista brasileira Placar, em março de 1987, foi essa:

Ø ‘Sena é um taxista de São Paulo, só sabe correr em linha reta. Não tem cérebro para curvas. Um taxista paulistano’.

A primeira frase era já uma humilhação social. No Brasil dos anos 80, chamar alguém de ‘taxista de São Paulo’ era chamar de inculto, vulgar, classe baixa. Piquet, o carioca da elite, chamando o campeão paulista do que um paulista nunca queria ser chamado. O insulto social, o desprezo de classe, a distância que o miúdo rico de Brasília colocava contra o miúdo industrial de São Paulo.

Mas, a segunda frase foi pior, palavra a palavra:

Ø ‘Sena tem o cérebro morto. Não pensa, não analisa, apenas pisa no acelerador como um animal sem razão’.

O cérebro morto. A segunda humilhação, desta vez intelectual. O tricampeão mundial chamando o futuro tricampeão de um piloto sem inteligência, sem estratégia, sem capacidade de raciocínio dentro do carro. Um animal.

Essa foi a palavra que Piquet utilizou - um animal sem razão. E a terceira frase, a que o Brasil inteiro leu nessa mesma semana, e que durante 38 anos ninguém conseguiu lhe perdoar, foi essa: 

Ø ’Se Sena fosse honesto consigo próprio, teria que ser homossexual, porque só perde por disparate, só se distrai com pormenores parvos, só age como uma menina que não sabe o que quer’.

Sena teria de ser homossexual. Essa foi a frase. Uma humilhação de classe, uma humilhação intelectual. E agora, uma humilhação de gênero, sexual, pessoal. 

Três frases numa entrevista. Três frases que Piquet disse a um jornalista francês, com vinho e cigarro na mão, numa tarde em Mónaco, pensando que estava numa conversa privada.

A revista Playboy francesa saiu nas bancas europeias em dezembro de 86. A revista Placar do Brasil publicou a tradução em março de 87. O padoque inteiro ficou congelado. Os jornalistas brasileiros ligaram a Piquet para pedir esclarecimentos. Piquet primeiro tentou negar as frases, depois tentou dizer que eram uma brincadeira, depois tentou pedir desculpas, mas já era tarde.

Airton Sena leu a tradução da Placar num hotel do Rio, no dia 14 de março de 1987. A mulher Lilian de Vasconcelos Souza, primeira companheira oficial de Sena, contava, anos depois, que o paulistano ficou calado durante 20 minutos depois de ler as frases, sem reação, sem gritos, sem lágrimas, apenas silêncio. E, no final, Sena falou uma única frase, palavra por palavra, segundo o biógrafo Christopher Hilton: ‘Vou responder para o Pequena Pista, todos os domingos, até ao último’.

E aqui está o dado que dói, porque Sena cumpriu cada palavra desta promessa até ao dia 1 de maio de 1994, o último domingo da sua vida. E foi assim que o fez, desde 1987 até ao dia 1 de maio de 1994, durante 7 anos seguidos, Airton Sena venceu três campeonatos mundiais enquanto Piquet caía progressivamente nas classificações. Sena ganhou 41 corridas.

Piquet ganhou apenas mais quatro depois de 87. O paulista se tornou o piloto mais amado Brasil. Piquet passou a ser, no imaginário popular brasileiro, o vilão que tinha insultado o ídolo nacional. E, quando Airton Sena morreu na curva Tamburelo, em Ímola, no dia 1 de maio de 1994, o Brasil inteiro se lembrou, palavra por palavra, das três frases, e pediu satisfações a Piquet.

A notícia da morte de Sena chegou a Mônaco, onde Piquet vivia, nessa mesma tarde de domingo. As câmaras da Globo Internacional procuraram o tricampeão mundial para uma declaração. Piquet, que estava em casa com Silvia McKsman e os filhos pequenos, recusou-se a falar durante 6 horas. A imprensa brasileira esperou em frente da mansão, Globo, Sport TV, Bandeirantes, todos.

Quando finalmente Piquet saiu da casa, os jornalistas perguntaram se ia viajar para São Paulo, para o velório de Sena. O Brasil tinha decretado três dias de luto nacional. A Assembleia Legislativa de São Paulo tinha aberto os salões para que o povo brasileiro pudesse se despedir do ídolo. Mais de 1 milhão de pessoas iriam desfilar à frente do féretro de Sena durante estes três dias.

Pelé, Romário, Bebeto, Ronaldo, Cafu, o presidente Itamar Franco, jogadores, políticos, artistas, todos viajaram para São Paulo. 1 milhão de brasileiros chorando juntos nas ruas. A geração inteira que tinha visto crescer o paulistano na televisão nos domingos de manhã. E, entre todos estes milhares de rostos, com a bandeira do Brasil nas mãos, faltava um, o rosto do tricampeão mundial.

Piquet viajou. E, quando os jornalistas perguntaram por não ia ao velório do tricampeão mundial brasileiro, Piquet respondeu, palavra por palavra, com a câmara gravando na porta da sua mansão no Mônaco. A frase exata publicado pela Folha de São Paulo, e pelo O Globo no dia seguinte, foi esta: ‘Não, não tenho nada que fazer lá’.

Não tinha nada que lá fazer. O velório de Ayrton Sena, três dias de luto nacional brasileiro, 1 milhão de pessoas na rua, e o tricampeão mundial, Nelson Piquet, dizendo para as câmaras do mundo inteiro que não tinha nada que fazer no funeral do único brasileiro que tinha ganho mais mundiais do que ele. O Brasil nunca o perdoou.

As cartas começaram a chegar na casa dele em Mônaco naquela mesma semana. Cartas anônimas, cartas assinadas, cartas de adeptos brasileiros que tinham sido fãs dele durante os anos 80, e que agora pediam satisfações. A revista Veja publicou uma capa em maio do 94 com o título: ‘Piquet, o irmão que não foi’.

A revista Placar repetiu, numa página inteira, as três frases do 86, as mesmas frases, ponto por ponto: Sena taxista de São Paulo, cérebro morto, homossexual. E, do lado das frases, a revista Placar colocou uma única pergunta em letras grandes a negrito. Arrepende-se agora, Piquet? Mas, a ferida do velório era apenas metade da história.

Porque, enquanto o Brasil inteiro chorava por Sena, em maio de 1994, dentro da mansão do Mônaco de Piquet, já tinha outra morte oculta, outro piloto, outro acidente, outro nome que o Brasil iria demorar décadas para esquecer, ligado com a família do tricampeão. Piquet não respondeu à capa da Placar, e também não respondeu quando, em outubro de 1994, a família Sena tornou público um comunicado em que pedia a Piquet que se retratasse publicamente das frases de 86.

O comunicado, publicado no mesmo veículo onde Piquet havia publicado as frases, dizia, palavra por palavra, que a família de Airton não queria desculpas privadas, queria desculpas públicas. Numa entrevista de revista de circulação europeia, Piquet ignorou o comunicado e, durante os 30 anos seguintes até hoje, o tricampeão mundial nunca pediu desculpa formalmente, nunca deu uma entrevista em que se retratasse das três frases da Playboy.

Nunca apareceu numa cerimônia, numa homenagem, nem num ato público dedicado a Airton Sena. As únicas vezes que mencionou Sena em público, depois da morte do paulista, foram em entrevistas técnicas sobre a época de 1994. Frases neutras, comentários sobre a mecânica do Williams FW16. Nunca uma palavra sobre a pessoa, nem sobre a perda, nem sobre a família Sena.

A memória brasileira ficou com um único fato: Nelson Piquet, o carioca criado em Brasília, que tinha ganho três mundiais, foi o único piloto brasileiro, relevante dos anos 80 e 90, que não apareceu no velório de Airton Sena. Mas, enquanto o Brasil se interrogava onde estava Piquet nesse mês de maio de 1994, tinha outra história familiar oculta que o tricampeão já trazia dentro de si.

Uma história de 8 anos antes, do piloto italiano Elio De Angelis com Silvia McKsman, uma história que tinha terminado num Brabham incendiado no circuito Paul Richard, no sul de França, no dia 15 de maio de 1986. Para perceber o que aconteceu em Paul Richard nesse mês de maio de 1986, vamos voltar 6 anos antes. 1980. 

Mônaco, em um cocktail da família De Angelis, num apartamento do bairro Larvoto. Elio De Angelis tinha 22 anos, tinha acabado de assinar com a Lotos depois da época de estreia com a Sombra. Era o piloto italiano mais promissor da geração. Pianista de conserto, filho de uma família rica de Roma.

Educado nas melhores escolas privadas de Itália, falava quatro línguas. Era católico praticante. E, ao lado de Hélio, nessa noite em Mônaco, estava Silvia McKsman, a modelo holandesa de 22 anos, cabelo loiro comprido, vestido preto. Trabalhava para uma agência de Amsterdã, cobria as semanas de moda de Milão e Paris.

O Elio e a Sílvia estavam juntos há um ano, apareciam juntos nas revistas italianas. A família de Angelis de Roma esperava que o piloto se casasse com a modelo. A mãe do Elio, Ana De Angelis, já falava publicamente do casamento como um evento confirmado para 1982. Mas, naquela noite do cocktail em Mônaco estava também presente outro piloto, brasileiro, 28 anos.

Recém terminada a época de 80, onde tinha chegado em segundo no campeonato do mundo, atrás de Alan Jones, capacete azul e branco, sorriso brincalhão, falava inglês com sotaque brasileiro, e olhava fixamente para Silvia McKsman do outro canto do salão. Era Nelson Piquet.

E aqui é onde a história fica escura, porque o que aconteceu nessa noite em Mônaco, o que veio mais tarde, nos meses seguintes, foi o início de uma traição silenciosa entre dois pilotos de Fórmula 1, que iria terminar 6 anos depois num Brabham incendiado, no circuito Paul Richard.

O que aconteceu depois daquele cocktail em Mônaco de acordo com três testemunhas diferentes do padoque europeu daqueles anos: Kekosberg, finlandês, amigo próximo de Angelis; Ricardo Patrez, italiano, futuro companheiro de Elio na Brabham; e Jaqulafit, francês, jornalista e amigo pessoal de Piquet. Segundo os três, Piquet começou a procurar Silvia McKsman nos eventos sociais do padoque, durante os meses finais de 1980.

Jantares no Casino do Mônaco, reuniões nos hotéis dos circuitos, encontros casuais no aeroporto de Nice. Cada vez que De Angelis estava numa sessão de testes, ou numa reunião de engenheiros, Piquet aparecia onde estava Sílvia.

Em fevereiro de 1981, durante os treinos de inverno de Fórmula 1, no circuito de Kyalami, na África do Sul, Sílvia voou de Amsterdã para visitar os Angelis.

Mas, nessa mesma semana, Piquet também esteve em Kyalami com a equipe Brabham. As três testemunhas concordam que Sílvia e Piquet passaram várias noites juntos no hotel do Padoque - De Angelis não soube na ocasião dessa visita. Sílvia voltou para Amsterdã. De Angelis regressou a Roma. Mas a relação entre a modelo e o italiano já estava partida.

Sílvia escreveu uma carta ao piloto italiano em março de 1981, uma carta de seis páginas explicando que iria ficar com outro homem. A carta não nomeava Piquet, mas o padoque sabia. E, De Angelis, que tinha amigos no padoque, também sabia. Em abril de 1981, durante o Grande Prémio de São Marino, em Ímola, Itália, De Angelis cruzou com Piquet num pequeno corredor do hotel.

Ricardo Patriz, que estava presente, contou, anos mais tarde, que o italiano não falou com o brasileiro, ficou o olhando em silêncio durante 15 segundos, e foi embora. 15 segundos de silêncio. Para alguns homens do padoque, estes 15 segundos foram mais escuros do que qualquer insulto. Porque o Elio De Angelis era um homem educado, católico, filho de um pianista de reparação, não um piloto dos que gritam nos boxes.

E, quando um homem assim se cala, é porque não tem mais nada a dizer. Este silêncio de Angelis durou 5 anos, até ao dia 15 de maio de 1986, quando já não podia dizer nada porque já estava morto. Durante os três anos seguintes, entre 1981 e 1983, Silvia McKsman viveu oficialmente com Piquet no apartamento do bairro de Monte Carlo, em Mónaco.

Corrida de Fórmula 1 após corrida de Fórmula 1

Enquanto Piquet ganhava os dois primeiros campeonatos do mundo, Sílvia estava ali, em cada pódio, em cada festa, em cada foto oficial do campeão brasileiro. E, do outro lado do padoque, Elio De Angelis continuava a correr com a Lotos, e ganhava corridas. Em agosto de 1982, venceu o primeiro Grande Prêmio da Áustria, o encerramento mais apertado da história da Fórmula 1 até aquele momento.

5% de segundo de vantagem sobre Keke Rosberg. Mas, na família de Angelis em Roma, a mãe Ana, já tinha abaixado a cabeça. A modelo holandesa não iria voltar. Existe uma fotografia do arquivo da revista Auto, datada do Grande Prêmio de Mônaco de 1982. Na foto aparece Piquet e Sílvia, caminhando pelo porto de Mônaco, de mãos dadas.

O brasileiro com óculos escuros, a holandesa com um vestido branco sorrindo. A 300 m, na outra calçada do cais, Elio de Angelis está parado de costas, olhando os iates, sozinho. Essa foto, segundo a revista italiana Autosprint, que a publicou anos depois, foi tirada por acaso, por um fotógrafo desportivo que estava fazendo retratos do padoque, e resume, numa única imagem, o que aconteceu entre os três pilotos. 300 m de distância.

Mas, entre as duas imagens há um oceano de tragédia que nenhum jornalista desportivo daquela época entendeu. 4 anos depois, o homem que olhava para os iates iria morrer no carro que o outro homem acabava de abandonar.

Em julho de 1985, Sílvia deu à luz o primeiro filho do casal com Piquet, em Heidelberg, Alemanha - Nelson Ângelo McKsman Piquet Solto Maior. Colocaram no recém-nascido o sobrenome McKsman no meio, como segundo nome legal, em homenagem ao sobrenome da mãe holandesa, de Nelsinho Piquet, o segundo filho do tricampeão mundial brasileiro.

Nessa mesma época de 1985, na equipe Lotos, Elio de Angelis estava tendo o ano mais difícil dele. Sena tinha chegado à equipe, e Colin Chapman, o proprietário da Lotus, tinha decidido priorizar o brasileiro novo, em vez do italiano veterano. Sena recebia os motores Renault mais recentes. Sena tinha as sessões de testes mais longas.

Sena era o piloto preferido da equipe. De Angelis se cansou da situação e, no final da época de 85, anunciou que deixava a Lotos. Precisava de uma equipe nova para 1986. E a equipe que lhe ofereceu um contrato foi precisamente a que Piquet tinha abandonado no final desse mesmo ano. Brabham.

Nelson Piquet tinha assinado, em setembro de 1985, um contrato com a equipe Williams Honda - salário milionário, carro competitivo, companheiro do inglês Nigel Mansel. Piquet deixava Brabham ao fim de 7 anos, dois campeonatos do mundo, e 21 vitórias com a equipe de Bernie Eclestone. E, a vaga que Piquet deixou livre na Brabham, foi oferecida a Elio De Angelis.

O italiano aceitou o companheiro de equipe que iria ser Ricardo Patrezi. E o engenheiro chefe, o sul-africano Gordon Murray, tinha desenhado um carro novo para temporada. Um carro radical, baixo, alongado, com o motor BMW turbo, montado quase em posição horizontal. O Brabam BT5. De Angelis começou a testar o BT 55 em março de 1986.

O carro era difícil, instável em alta velocidade - a asa traseira gerava muito pouca carga aerodinâmica. Nas primeiras quatro provas do campeonato, De Angelis e Patrezi somaram apenas um ponto entre os dois. A equipe estava em crise, mas De Angelis seguiu empurrando. Empurrou nos treinos, empurrou nas sessões de testes.

Queria demonstrar que o carro que Piquet tinha abandonado podia ser competitivo. Queria demonstrar para Silvia McKsman, indiretamente, que ele também podia ganhar corridas com a equipe que Piquet tinha deixado para trás. Queria demonstrar para a Sílvia.

5 anos depois da separação, o piloto italiano continuava a correr, continuava empurrando, continuava procurando demonstrar algo a uma mulher que já não era dele.

Para muitos homens do padoque, esta motivação silenciosa foi exatamente o que levou De Angelis para Paul Richard naquela manhã de maio de 86. No início de maio de 1986, depois do Grande Prêmio de Mônaco, onde Angelis tinha sido classificado em último lugar na grade, o engenheiro chefe Gordon Murray tomou uma decisão arriscada, fazer uma sessão privada de testes no circuito Paul Richard, no sul de França.

Richard era o campo de testes oficial da equipa Brabham desde os anos 70. Uma pista longa, plana, com curvas rápidas, onde os carros podiam circular a velocidades até 300 km/h nas retas mais longas. Gordon Murray tinha desenhado pessoalmente o BT 55 durante o Inverno de 85. Era um carro experimental, carroçaria ultra baixa, centro de gravidade quase colado no chão.

O motor BMW turbo, montado em posição horizontal em vez de vertical, o que reduzia a resistência à aerodinâmica, mas gerava problemas graves de refrigeração. A equipe Brabham tinha gasto milhões de dólares no desenvolvimento, e os primeiros quatro grandes prêmios do campeonato haviam demonstrado que o carro era mais lento que o Brabham anterior.

Era um fracasso, e todos da equipe sabiam. Mas Murray não queria abandonar o design. Precisava resolver os problemas da asa traseira. Precisava de aumentar a carga aerodinâmica nas curvas rápidas, precisava demonstrar para Berny Easton, dono da equipe, que o dinheiro investido não havia sido em vão.

E, para esta sessão privada de Paul Richard, Murray convocou apenas um piloto. Não queria os dois pilotos da equipe na pista simultaneamente. Queria um único automóvel, um único piloto, várias horas de pilotagem contínua, sem distrações. E o piloto que escolheu foi Elio De Angelis. Ricardo Patrezi, o outro piloto da Brabham nessa temporada, ficou na Itália.

De Angelis viajou sozinho de Roma para o sul de França, no dia 13 de maio de 1986. Chegou ao hotel do circuito naquela mesma noite. Jantou sozinho com dois engenheiros da Brabham, e foi dormir cedo. No dia 14 de maio de 1986, às 11:23 da manhã, Elio De Angelis saiu dos boxes do circuito Paul Ricard, no Brabham BT 55 dele.

Estava numa sessão privada de testes, sem público, nem imprensa, sem oficiais da FIA. Só a equipe Brabham trabalhando em silêncio para resolver o problema do carro. Sem público, nem emergência médica preparada, sem helicóptero à espera, nem comissários de pista bem posicionados. Quatro voltas depois, na curva Sign, a 300 km/h, a asa traseira do BT 55 se desprendeu completamente do carro. A peça voou 50 m no ar.

O Brabham, sem carga aerodinâmica no eixo traseiro, deu uma cambalhota lateral sobre a barreira do circuito, voou 200 m mais além, e caiu do outro lado da pista, de cabeça para baixo. Imediatamente se incendiou. A asa do BT 55 se desprendeu no ar, voou 50 m, e aterrou na britada do lado oposto do circuito.

Só dois mecânicos de Beneton, que estavam guardando equipamento nos boxes do lado contrário do circuito, viram o acidente de longe. Os pilotos Alan Prost, Alan Jones, e Nigel Mansel, que estavam na pista em outras voltas, chegaram no local 15 segundos depois. Encontraram o Brabham de cabeça para baixo, em chamas, com De Angelis preso lá dentro.

Os três pilotos tentaram tirar o italiano. As chamas eram muito altas. Os bombeiros do circuito demoraram 30 minutos a chegar com equipamento de extinção. O jornalista francês Cristian Tortoura, presente nessa tarde em Paul Richard, escreveu, anos mais tarde, que em algum momento soprou pelo tubo de ar do capacete de Angelis, e que sentiu o italiano se mexer.

O médico do circuito gritou para ele continuar a soprar. Assim, reanimaram Elio, mas o helicóptero médico demorou mais 30 minutos para chegar. De Angelis foi transportado para o hospital CU de Latimone, em Marselha. Chegou com queimaduras de segundo grau nas costas, uma clavícula partida, e os pulmões cheios de fumaça do incêndio.

Esteve 29 horas na unidade de cuidados intensivos do hospital. No dia 15 de maio de 1986, às 16:22, Elio De Angelis morreu em Marselha, por asfixia cerebral devido à inalação de fumo. 28 anos. Filho único de Júlio de Angelis, o último italiano que tinha estado a ponto de casar com Sílvia McKsman. E, enquanto Elio De Angelis morria em Marselha, numa mansão de Mônaco, Nelson Piquet, Silvia McKsman, e o bebê Nelsinho - de 10 meses - estavam em almoço família.

Sílvia ficou sabendo da morte do piloto italiano pelas notícias da televisão francesa, na sobremesa. As câmeras da Antene 2 mostravam imagens do Brabham incendiado em Paul Richard. A voz do jornalista pronunciou o nome Elio De Angelis morto. Existe uma única declaração pública de Silvia McKsman sobre a morte Elio de Angelis.

Foi numa entrevista para revista holandesa Cot, em 1997. 11 anos depois do acidente. A frase exata traduzida do neerlandês foi: ‘Quando o Elio morreu, eu já era outra pessoa, mas algo dentro de mim também queimou nesse dia. Algo dentro de mim também ardeu nesse dia’.

11 anos precisou Silvia McKsman para dizer isso em voz alta. 11 anos de silêncio enquanto vivia com um homem que tinha tirado o primeiro namorado dela. 11 anos criando o Nelsinho, a Kelly e a Júlia, numa mansão onde o nome de Elio De Angelis nunca era pronunciado. Nelson Piquet, segundo a mesma entrevista de Sílvia, não comentou nada no dia do acidente. Não falou do piloto italiano, nem pediu um minuto de silêncio no almoço familiar, nem ligou para a família De Angelis de Roma.

Continuou a comer, pediu café, e foi para a próxima corrida do campeonato, na Bélgica, no dia 25 de maio, onde conquistou a sua primeira vitória com a Williams Honda. Silvia McKsman continuou a viver com Piquet. Durante os 11 anos seguintes, em dezembro de 1988, Sílvia deu à luz a segunda filha do casal, em Hamburgo, Alemanha - Kelly McKsman Piquet Solto Maior.

A filha que, 32 anos depois, viria a ser parceira do piloto holandês Max Verstapen, atual tetracampeão do mundo de Fórmula 1.

E em maio de 1992, Sílvia deu à luz à terceira filha, Júlia Piquet, a mais nova - três filhos em 7 anos. E, mesmo assim, durante esses mesmos anos, enquanto Sílvia criava o Nelsinho, Kelly e Júlia, na mansão de Mônaco, Piquet levava uma vida paralela que a modelo holandesa só descobriu no final dos anos 90.

Max Verstappen, Bélgica, b. 1997

Uma vida paralela.

Esta é a frase que a imprensa brasileira utilizou depois, nos anos 2000, quando a história veio a público. Mas, dentro da mansão, essa vida paralela tinha um nome, um corpo e um filho. Um quarto filho varão, que ninguém em Mônaco conhecia. Uma mulher brasileira chamada Catherine Valentin, uma filha de Brasília, modelo, vivia em São Paulo, e Piquet, durante vários anos do casamento com Sílvia, manteve uma relação oculta com Catherine.

O produto desta relação oculta foi outro filho, Las Piquet, o quarto filho, homem do tricampeão mundial. Nascido fora do casamento com Sílvia, reconhecido legalmente por Piquet, mas criado por Catherine em Brasília, Las Piquet, o filho que nem Mônaco nem Brasília queriam reconhecer publicamente, o quarto filho homem do tricampeão do mundo.

E quando Sílvia descobriu o nome do bebê, num papel, em casa, numa tarde qualquer de 1998, foi o final da família que o miúdo de Brasília tinha construído durante 17 anos. Assim, quando a Sílvia descobriu a existência do Las Piquet, no final dos anos 90, a relação com Piquet quebrou. Sílvia e os três filhos se separaram do tricampeão.

Sílvia voltou pra Holanda com os filhos pequenos. Depois, mudou-se para o sul da França, depois para Brasília, depois para Inglaterra. Os três filhos cresceram em casas diferentes, línguas diferentes, escolas diferentes. Em 1999, Piquet se casou pela terceira vez, desta vez com uma brasileira, Viviane de Souza Leão. Ele tinha 47 anos. Viviane, 22 anos.

Tiveram dois filhos nos 14 meses seguintes. Pedro Estácio Piquet, em 1999. Marco Piquet, em 2000. Sete filhos, quatro mulheres diferentes, três diferentes países, um piloto italiano morto num Brabham, e uma verdade familiar que durante 30 anos o Brasil não quis ver. Sete filhos com quatro mulheres.

E ainda não falamos do pior capítulo, porque a palavra que em 2021 iria custar tudo para ele, não era uma palavra dita num cocktail privado do Mônaco. Era uma palavra dita em câmara, com microfone aberto, sobre o mais famoso piloto inglês do planeta. Nelson Piquet saiu da Fórmula 1 em 1991. Tinha corrido durante 12 temporadas, 204 corridas, 23 vitórias, 60 pódios, 24 pole-position, e os três campeonatos do mundo que lhe tinham feito o segundo brasileiro, depois de Emerson Fittipaldi, a ganhar o troféu máximo do automobilismo.

O último grande momento da sua carreira foi no Grande Prêmio do Canadá de 1991. Última volta, Nigel Mansel, o inglês, líder da corrida com 5 segundos de vantagem. Mas o Williams do Mansel parou na última curva por uma falha elétrica, e Piquet, que seguia em segundo, passou para o lado do carro do rival, e ganhou a corrida.

A frase que Piquet deu a imprensa francesa, minutos depois, no pódio, ficou gravada na história do automobilismo, palavra por palavra, segundo o jornal Lequipe. ‘Quando vi o Williams de Mansel parado, quase tive um orgasmo’. Quase tive um orgasmo. Essa foi a última grande frase do Piquet piloto. Depois do Canadá, o brasileiro cumpriu o período de 91 com dignidade, e se aposentou.

Tinha 39 anos e se mudou definitivamente para Brasília. Para uma gigantesca mansão do condomínio Parck Way, da capital brasileira. Uma mansão com piscina, sala de jogo de baralho, oficina mecânica, e 24.000 m² de terreno. E, daquela mansão, durante os 30 anos seguintes, Nelson Piquet construiu uma nova identidade pública - empresário do automobilismo, proprietário da Piquet Sports, equipe de Fórmula 3, e GP2, onde correu o filho Nelsinho, comentarista desportivo ocasional.

E, a partir de 2015, uma voz política ativa no Brasil era Bolsonaro. E aqui começa a fase final da história do tricampeão mundial. Porque a voz política de Piquet no Brasil dos últimos 10 anos foi também racista, não apenas política, e custou um preço que o próprio Piquet nunca se imaginou a pagar.

Nelson Piquet conheceu pessoalmente Jair Bolsonaro em agosto de 2017. Foi durante um evento privado do Partido Social Liberal em Brasília. Piquet havia sido convidado pelo seu amigo, o ex-jogador Rivaldo, também simpatizante de Bolsonaro. Os dois homens se deram bem desde o primeiro encontro. Piquet ofereceu a sua mansão de Park Way para reuniões políticas do candidato. Bolsonaro convidou Piquet para vários atos de campanha, durante 1998 e 2018.

Quando Bolsonaro ganhou as eleições presidenciais de outubro de 2018, foi um dos primeiros nomes que apareceu no palanque oficial do novo presidente. O tricampeão mundial, então com 66 anos, estava ao lado do novo presidente do Brasil. Mas, aquela foto do Planalto, de primeiro de janeiro de 2019, aquela foto que parecia consagrar Piquet como figura política respeitada, ia conter em si mesma o germe da condenação judicial, que 4 anos depois lhe iria custar tudo.

Existe uma fotografia de primeiro de janeiro de 2019, dia da posse, onde aparece Piquet, Viviane e Souza Leão, os filhos pequenos Pedro e Marco, e Jair Bolsonaro, abraçando-se no Palácio do Planalto. Esta foto foi publicada no dia seguinte por todos os jornais brasileiros.

Durante os 4 anos seguintes, enquanto Bolsonaro governava o Brasil, Piquet foi uma voz visível do bolsonarismo nas redes sociais e nos podcasts brasileiros. Atacou a esquerda, atacou Lula da Silva, atacou Dilma Roussef, atacou os movimentos sociais do Nordeste, atacou as quotas raciais nas universidades, e atacou, em várias ocasiões, os jornalistas brasileiros que criticavam o governo.

Mas houve um evento, em junho de 2022, que mudou completamente a vida pública de Nelson Piquet. Um podcast brasileiro chamado Motor Media - uma entrevista de 90 minutos e uma pergunta sobre o Grande Prêmio da Inglaterra do ano anterior - a edição de 2021, onde tinha colidido em Silverstone o inglês Lewis Hamilton com o holandês Max Verstappen. A pergunta do podcast era técnica sobre o incidente do Grande Prêmio da Grã-Bretanha 2021, sobre de quem havia sido a culpa do choque entre Hamilton e Verstappen na curva Cops, sobre se a punição de 10 segundos contra Hamilton tinha sido justa ou não. Piquet respondeu com uma frase que lhe iria lhe custar tudo, uma frase de 15 palavras, uma frase que a câmara gravou completamente, sem cortes, e que a equipe do podcast levou ao YouTube nessa mesma semana. Uma frase com uma única palavra problemática - e guarde essa palavra na sua cabeça. Porque esta palavra, esse único termo dito numa entrevista de podcast brasileiro, iria iniciar o processo judicial mais dispendioso que um piloto brasileiro reformado já havia enfrentado em toda a história do automobilismo do país. A frase exata de Nelson Piquê sobre Lewis Hamilton, transcrita palavra a palavra do podcast brasileiro Motor Medvídia, gravada em junho de 2021, e publicada no YouTube em novembro do mesmo ano, traduzida e verificada pelo jornal Folha de São Paulo, pelo O Globo, pela BBC e pela própria Mercedes-Benz, foi essa. ‘O neguinho colocou lá o carro para ele bater, não é?’ Não é assim, não. Neguinho, a palavra portuguesa com que Piquê se referiu a Lewis Hamilton. No português brasileiro, neguinho é um diminutivo depreciativo de negro.


                                       Lewis Hamilton, Inglaterra, b. 1985

Também não é uma palavra técnica nem científica. Era a palavra que no Brasil era usada para se referir depreciativamente a uma pessoa negra. E Lewis Hamilton, o sete vezes campeão do mundo inglês, o primeiro piloto negro a ganhar um campeonato mundial de Fórmula 1 na história do desporto, era uma figura mundial, o rosto do antirracismo na Fórmula 1, o piloto que se ajoelhava antes de cada corrida durante a época de 2020 em homenagem a George Floyd, o atleta que tinha criado uma fundação chamada Mission 44 para promover a diversidade no desporto automotor. E, Nelson Piquet o chamou de neguinho.

O podcast saiu em novembro de 2021, mas o vídeo demorou 7 meses para se tornar viral nas redes sociais. Foi em junho de 2022 quando um jornalista desportivo brasileiro chamado Lucas Pereira encontrou o clipe no YouTube, subiu ao Twitter, adicionou legendas em inglês, e marcou a conta oficial de Lewis Hamilton.

Numa questão de horas, o vídeo tinha 40 milhões de visualizações no Twitter. A conta oficial da Mercedes-Benz publicou um comunicado, às 11 da noite do dia 28 de junho de 2022, condenando as palavras de Piquet. Palavra por palavra. ‘Estamos profundamente chocados com as declarações racistas atribuídas ao Sr. Nelson Piquet sobre Lewis Hamilton. O racismo não tem lugar no nosso desporto, nem na nossa sociedade’.

12 horas depois, a FIA, Federação Internacional do Automóvel, publicou o próprio comunicado oficial condenando Piquet. Palavra a palavra, a FIA condena qualquer forma de comentário racista. Estas declarações não têm lugar no desporto, nem na sociedade em geral. E, 24 horas depois do primeiro comunicado, Lewis Hamilton respondeu na conta pessoal dele do Twitter.

‘Palavra por palavra, é mais do que linguagem. Essas mentalidades arcaicas precisam de mudar. Não tem lugar no nosso desporto. Eu fui rodeado por estas atitudes, e sou o alvo delas durante toda a minha vida. Já houve tempo suficiente para aprender. O tempo de agir é agora’. Mas a resposta não terminou nas redes sociais.

No dia 29 de junho de 2022, uma advogada brasileira, de nome Silvia Maria de Oliveira, interpôs uma ação civil contra Nelson Piquet no Tribunal de Justiça do Distrito Federal de Brasília - dano moral por discriminação racial, uma ação de R$ 5 milhões de Reais. O processo passou por duas instâncias judiciais. Piquet recorreu.

Os advogados argumentaram que a palavra neguinho era um brasileirismo, que não havia qualquer intenção racista, que se tratava de um contexto coloquial. A justiça brasileira rejeitou todos os argumentos e, em maio de 2023, o juiz Pedro Cunha Ramos sentenciou Nelson Piquet a pagar os R$ 5 milhões como indenização moral por racismo contra Lewis Hamilton. R$ 5 milhões!

Piquet não pagou, recorreu de novo. A instância confirmou a condenação em março de 2024 e, a partir desse mês, a justiça brasileira iniciou o processo de cobrança forçada. A mansão do Park Way em Brasília foi bloqueada por ordem judicial. Seus carros no condomínio Park Way foram bloqueados. As contas bancárias do tricampeão mundial foram bloqueadas até ao pagamento completo dos 5 milhões de reais, mais os juros acumulados durante os dois anos do processo.

Em outubro de 2025, segundo a última atualização do processo público do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, o saldo total devido por Nelson Piquet, a causa Hamilton, era de R$ 6.420.000. Os bens dele continuavam bloqueados. R$ 6.420.0000. A cifra crescia a cada mês pelos juros vencidos.

E, enquanto isso, em Mônaco, nas pistas de Fórmula 1, havia uma filha do tricampeão mundial, que tinha de se sentar cada domingo no box do marido para ver correr o filho piloto a quem o pai dela havia insultado.

Mas, a pior parte da condenação surgiu depois do dinheiro, as consequências dentro da própria família, porque a filha de Nelson Piquet, Kelly McKsman Piquet Solto Maior, a filha que tinha nascido em Hamburgo, na Alemanha, em 1988, a filha que a modelo holandesa Silvia McKsman tinha criado entre o Mônaco, sul da França, Brasil e Inglaterra.

A filha, que durante toda a infância tinha vivido a separação entre o pai e a mãe, havia decidido, seis anos antes, a começar uma relação com o piloto holandês Max Verstappen. Max Verstappen, holandês, filho do ex-piloto de Fórmula 1, Jos Verstapen, vizinho de Kelly em Mônaco durante vários anos.

Falavam inglês e holandês entre eles. Conheciam-se desde que Kelly tinha 28 anos e Max 18. Começaram a sair em outubro de 2020. Tornaram oficial a relação em janeiro de 2021. Em dezembro de 2024, anunciaram no Instagram que estavam à espera de um filho. Mini Verstappen Piquet a caminho. Escreveu Max na sua conta pessoal. E Max Verstappen, em fevereiro de 2021, havia ganho o primeiro campeonato mundial de Fórmula 1.

Em dezembro de 2022 ganhou o segundo. Em novembro de 2023 ganhou o terceiro. E, em novembro de 2024, ganhou o quarto. Campeão mundial por quatro  vezes. Mais mundiais que o sogro brasileiro, mais mundiais do que Nelson Piquet. E, no final de cada corrida, o Max Verstappen subia ao pódio no retângulo central.

A esquerda dele, em muitas das corridas, ao volante de outro carro, Lewis Hamilton, o piloto a quem o sogro de Max tinha chamado neguinho. O piloto contra o qual a justiça brasileira tinha sentenciado o sogro de Max a pagar R$ 5 milhões de reais. Lewis Hamilton e Max Verstappen estiveram competindo na Fórmula 1 juntos, durante todos estes anos, apertando-se as mãos, partilhando conferências de imprensa, cumprimentando-se no paddock e, em cada aperto de mão entre Verstappen e Hamilton, Kelly Piquet estava olhando para a filha do tricampeão mundial brasileiro, vivendo no centro do padoque mais caro do planeta, com a ferida silenciosa de saber que o pai dela tinha insultado o rival eterno do seu companheiro. E, numa ocasião, no Grande Prêmio do Brasil de 2023, no pódio de São Paulo, Hamilton se aproximou de Verstappen e lhe disse, palavra a palavra, segundo o microfone aberto que captou a conversa, uma única frase: ‘Hope the family is okay’ (Espero que a família esteja bem). Cinco palavras de Lewis Hamilton para o holandês que era companheiro da filha do homem que lhe tinha dito neguinho. Cinco palavras que, em qualquer outro contexto, seriam cortesia. Mas, neste contexto, no pódio de São Paulo, estas cinco palavras eram um golpe diplomático silencioso.

Imagine por momentos que o seu próprio sogro tivesse sido condenado pela justiça por uma palavra racista contra o companheiro de padoque do seu marido. Imagine por um momento que o melhor amigo do seu parceiro, o rival do coração do seu parceiro em cada corrida, fosse a pessoa a quem o seu pai havia chamado de neguinho.

Kelly Piquet não comentou publicamente a condenação do pai, não publicou um único tweet sobre o racismo de Nelson Piquet. Não falou em entrevistas com a Vogue, nem com a Marie Claire, nem com a revista Hola, sobre as palavras do pai contra Hamilton. Manteve o silêncio. Trabalhou com Verstappen. Cuidou da filha Penélope, nascida em 2019 da anterior relação dela com o piloto russo Danil Kiviat, e continuou vivendo no apartamento de Mônaco com Max.

Mas o silêncio de Kelly Piquet foi também outra coisa. Foi uma resposta à filha do tricampeão mundial brasileiro, a filha de Silvia McKsman, a modelo holandesa que tinha sido namorada de Elio De Angelis, a filha que tinha crescido entre três países e duas línguas, tinha escolhido o silêncio público sobre a questão mais importante da vida do pai dela.

E Sílvia McKsman, já com 62 anos, vivendo numa pequena casa do sul de França, afastada dos filhos pela geografia, e pelos anos, também guardou silêncio. Sílvia não fala com Piquet desde 1998 - 28 anos, sem uma única ligação telefônica, nem uma mensagem, sem um encontro casual. 28 anos sem se falarem. O tempo suficiente para que três filhos se tornassem adultos sem ver os pais conversarem.

O tempo suficiente para que uma modelo holandesa de 22 anos virasse uma mulher de 62. E, no entanto, nenhum telefonema, nenhuma mensagem, apenas o silêncio do Atlântico entre os dois. E, do outro lado do mundo, em Roma, no cemitério de Verano da capital italiana, uma placa de mármore com o nome Elio de Angelis continua a receber flores, a cada 15 de maio.

A família De Angelis continua a se lembrar do piloto que faleceu em Paul Richard. Ana De Angelis, a mãe, faleceu em 1999, sem voltar a ver a modelo holandesa que tinha sido namorada do filho. Ana De Angelis morreu à espera de uma resposta que nunca chegou, igual ao Brasil, que esperou por 30 anos um pedido de desculpas do Piquet para a família Sena, que também não chegou.

E aqui é onde a história se transforma num padrão, um padrão silencioso que o tricampeão do mundo nunca quis romper. No dia 7 de dezembro de 2026, Nelson Piquet completou 74 anos. Vive na mansão bloqueada de Park Way em Brasília, sem acesso às contas, sem carros em nome dele, com a propriedade confiscada por ordem judicial até ao pagamento da condenação Hamilton.

Os filhos dele estão dispersos pelo mundo. Geraldo Piquet, o primeiro filho, vive em Brasília, e não tem contato público com o pai. Nelsinho Piquet vive entre Brasília e São Paulo, corre na Stock Car Pro Series e mantém uma relação cordial, mas distante, com o pai. Kelly Piquet vive em Mônaco, com Max Verstappen e a filha Penélope.

Júlia Piquet, a mais nova de Silvia, vive em Brasília, casada com um empresário. Las Piquet, o filho paralelo de Catherine Valentin, vive em Brasília, e aparece poucas vezes nas redes sociais do pai. Pedro Piquet e Marco Piquet, os filhos de Viviane Souza Leão, vivem com a mãe, em Brasília, e correm em categorias menores do automobilismo brasileiro.

Sete filhos, quatro mulheres, três países, uma mansão bloqueada, milhões de reais de dívida judicial, e um país, o Brasil, que continua a recordar 39 anos depois da entrevista de Playboy, onde chamou de ‘taxista paulistano’ a Airton Sena; 50 anos entre o miúdo que subia escondido num kart, num barracão de Brasília para não enfurecer o pai médico; e o velho de 74 anos, que vive numa mansão confiscada pela justiça brasileira por uma única palavra dita num podcast.

50 anos entre o primeiro filho, Geraldo, nascido em 1977, quando Piquet tinha 25 anos, e o último filho, Marco, nascido em 2000, quando Piquet tinha 48. 23 anos de diferença entre o primeiro e o último. Quatro mães diferentes, três países diferentes. 50 anos entre as primeiras vitórias na Fórmula 3 britânicas, onde Piquet quebrou o recorde de Jack Stuart, e a condenação judicial brasileira de 2023 que lhe bloqueou todos os bens em Brasília.

50 anos entre o primeiro cocktail em Mônaco, de 1980, onde olhou fixamente uma modelo holandesa que era namorada de outro piloto, e a mansão vazia de Park Way, onde vive hoje - um idoso de 74 anos, cuja filha mais famosa convive com o rival do piloto, a quem insultou. 50 anos entre a briga com o pai Estácio, em 1971, por subir em um kart escondido em Brasília, e a luta com todo o país, em 2022 por uma única palavra dita contra um piloto inglês.

50 anos entre o miúdo que ganhava campeonatos brasileiros de Karts com um apelido falso para que o pai, médico, não descobrisse, e o velho que perdeu a mansão, os carros, as contas bancárias, e o respeito da família Sena, da família De Angelis, da família McKsman, e da família Hamilton. Quatro famílias, quatro silêncios, quatro feridas que o tricampeão mundial deixou abertas em diferentes países, línguas diferentes, cemitérios diferentes.

E ainda hoje, aos 74 anos, Nelson Piquet continua sem pedir perdão a qualquer uma delas - 74 anos. E nenhum perdão, nem um telefone, nem uma viagem a Roma para visitar o túmulo de Elio De Angelis, nem um ato público de reconciliação com a família Sena, nem uma mensagem para Sílvia McKsman no sul de França. Só o silêncio do orgulho que Piquet escolheu há 50 anos, quando rompeu com o pai em Brasília, e foi para a Europa com uma única mala.

E no meio, entre o início e o final, uma entrevista de revista francesa de 1986, onde chamou de ‘taxista paulistano’ o piloto que 8 anos depois iria morrer em Ímola; um cocktail em Mônaco de 1980, quando tirou a namorada de um piloto italiano que, 6 anos depois, iria morrer num Brabham incendiado no circuito Paul Richard; três mundiais de Fórmula 1; sete Filhos com quatro mulheres; um podcast de junho de 2021, quando chamou Lewis Hamilton de neguinho.

E, no final do tudo, uma mansão vazia do bairro Park Way de Brasília, um idoso de 74 anos que vive com a última mulher Viviane e os dois filhos menores, Pedro e Marco, sem acesso às contas, sem carros em seu nome, com a propriedade confiscada por ordem judicial até ao pagamento dos R$ 6.422.000 que deve à causa Hamilton, e com três túmulos na sua memória.

O túmulo de Airton Sena, no cemitério do Morumbi de São Paulo, que nunca visitou. O túmulo de Elio de Angelis no cemitério do Verano de Roma, que nunca visitou. E o jazigo da mãe Clotilde Piquet, falecida em agosto de 2007, aos 84 anos, que visita em silêncio uma vez por ano.

A história de Nelson Piquet, no fundo, é uma história sobre um pai, sobre a distância que um homem adulto pode colocar entre ele próprio e os filhos que teve. Sobre as palavras que um campeão mundial consegue dizer quando acha que está falando em confiança, e que, 38 anos depois, continuam a persegui-lo. Sobre o silêncio de uma filha que vive com o rival desportivo do piloto a quem o pai insultou. Sobre o silêncio de uma modelo holandesa que já não quer falar. Sobre o silêncio de uma família inteira que se rompeu em pedaços durante 50 anos, e que ninguém conseguiu voltar a juntar.

E sobre algo ainda mais profundo - o que significa ser pai, filho, marido, irmão, amigo, compatriota, quando alguém teve tudo o que o mundo pode dar e, mesmo assim, prefere a raiva ao perdão. Nelson Piquet foi um dos grandes pilotos da história. Isso ninguém pode lhe tirar. Três mundiais, 23 vitórias, a glória absoluta dos anos 80.

O nome que durante uma década inteira o Brasil pronunciava com orgulho nos domingos de manhã, em frente da televisão ligada na sala de casa. Mas, a grandeza desportiva não salva o homem que diz palavras que não podem ser retiradas. A grandeza desportiva também não devolve os amigos que morreram, nem preenche o lugar vazio do pai na mesa familiar de um domingo.

A grandeza desportiva não substitui o homem que abraça os filhos quando ainda tem tempo de os abraçar. E a grandeza desportiva, quando alguém a utiliza para insultar, ferir e humilhar, ficar a boiar como uma sombra. Uma sombra que, no final do caminho vem se sentar ao lado de alguém, na mansão vazia de Brasília.

Uma sombra ao lado do idoso de 74 anos. Essa é a imagem final, a imagem que o Brasil vai lembrar quando algum dia for publicada a última notícia sobre Nelson Piquet, a imagem do homem que ganhou três campeonatos do mundo, e perdeu quatro famílias.

Você, que está lendo isto da sua sala, depois de um dia de trabalho, com a televisão ligada, ou com o telemóvel na mão, pense por momentos em alguém da sua própria família - um pai, uma mãe, um filho, um irmão, alguém a quem disse algo inconveniente há muitos anos. Alguém a quem nunca pediu desculpa, alguém que seu orgulho o impediu de voltar a abraçar e que deveria ser abraçado. Se esta história te fez pensar em alguém da sua própria família, envia uma mensagem hoje, não amanhã, hoje, corrigindo.

 

Fonte: Laços de Afeto

 

(JA, Jul26)

 


 

 

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Cenário de inúmeras novelas e inspiração de muitos compositores, o local tem centenas de moradores famosos Quando se pensa no bairro do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, vem na mente o cenário de inúmeras novelas de Manoel Carlos e, claro, a fonte de inspiração de muitos compositores e poetas. Como defini-lo? Calmo e elegante. Ele - localizado entre Vidigal, Gávea e Ipanema - é conhecido por seus ótimos restaurantes, comércio forte, vida noturna agitada, e pelos famosos que circulam por lá, e pelo seu cartão-postal: o mar e o Morro Dois Irmãos. A beleza natural juntamente com outros atributos fazem da localidade uma das mais cobiçadas da cidade e um dos bairros mais caros do país. No último dia 26 de julho, o Leblon completou 100 anos de histórias. Francisca Ornellas Teles e Charles Le Blond Charles Le Blond, 1804-1880, chegou ao Rio de Janeiro em 1830, proveniente de Marselha fundando a empresa ‘Navegação Aliança’ com a finalidade de explor...

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Residência família Jafet, 730 A Família Jafet é uma família de origem libanesa radicada na cidade de São Paulo ao final do século XIX . Pioneiros da industrialização paulistana, seus membros criaram um dos maiores grupos empresariais familiares do Brasil, com empreendimentos no ramo têxtil, mineração, metalurgia, siderurgia, serviços financeiros e navegação. Dedicaram-se ativamente à filantropia, tendo liderado a fundação de instituições como o Hospital Sírio-Libanês, o Clube Atlético Monte Líbano, o Clube Atlético Ypiranga e o Esporte Clube Sírio. Contribuíram com doações significativas para o Hospital Leão XIII (hoje São Camilo) , o Museu de Arte de São Paulo, e a Universidade de São Paulo. Os Jafet foram responsáveis pela urbanização do histórico bairro do Ipiranga, onde instalaram suas primeiras unidades fabris, realizaram obras de infraestrutura e construíram palacetes de grande valor arquitetônico, diversos deles hoje tombados. ‘Os Jafets todos são bons, t...

Quarador

Lugar onde se coloca a roupa para branquear, limpar, expondo-a ao sol Nada mais que uma prática quase em desuso  (ainda resiste principalmente nas pequenas cidades do interior)  que era muito comum até os anos  60.  No tempo das casas com quintal grande e das roupas lavadas ‘no muque’ em tanques  (e, até, em rios) , sem o conforto das máquinas de lavar  (e secar)   de hoje. Um tempo de ‘labuta’ que vai ficando apenas na memória das ‘mais vividas’. ‘Coarar’ ou ‘Quarar’ é o ato de deixar as roupas de cor branca ou clara  (também toalhas, lençóis, etc.)  já lavadas e ensaboadas  (com ‘sabão de pedra’?)  expostas ao sol para ficarem com um branco ‘imaculado’  (sem manchas) . Essa exposição é para branquear ou alvejar  (e não para secar) . As de cores fortes também eram ‘quaradas’, mas em menor escala por causar ‘desbotamento’ com o passar do tempo. O processo de lavagem era trabalhoso: depois de ‘batida’, a roupa era ‘ensaboad...