Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida como Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi um movimento armado no Brasil para derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas, de julho a outubro de 1932, com suas principais frentes ao redor do estado de São Paulo. O movimento é largamente creditado como tendo possibilitado a Assembleia Nacional Constituinte de 1934, e evitado a extensão indefinida do Estado de exceção de 1930.
O golpe de estado decorrente
da Revolução de 1930 derrubou o então presidente da república, Washington
Luís; impediu a posse do seu sucessor eleito nas eleições de março de 1930, Júlio
Prestes; depôs a maioria dos presidentes estaduais (atualmente se denominam governadores); fechou o Congresso Nacional, as Assembleias
Legislativas Estaduais, e as Câmaras Municipais; e, por fim, cassou a
Constituição de 1891, até então vigente.
Getúlio Vargas, candidato
derrotado nas eleições presidenciais de 1930, e um dos líderes do movimento revolucionário de 1930, assumiu a
presidência do governo provisório nacional em novembro daquele ano com amplos
poderes, colocando fim ao período denominado República Velha, e à política do
café com leite - quando São Paulo e Minas Gerais se alternavam na indicação do
presidente da República, impedindo que o principal cargo do Poder Executivo
fosse ocupado por representante de outros estados economicamente importantes na
época, como Rio Grande do Sul e Pernambuco.
Havia o compromisso de
convocação de novas eleições, e a formação de uma Assembleia Nacional
Constituinte para a promulgação de uma nova Constituição. Porém, nos anos
subsequentes essa expectativa deu lugar a um sentimento de frustração, dada a
indefinição quanto ao cumprimento dessas promessas, acumulada ao ressentimento
contra o governo provisório, principalmente no estado de São Paulo. Esse
sentimento era motivado pelo fato de Getúlio Vargas governar de forma
discricionária por meio de decretos, sem respaldo de uma Constituição. e de um
Poder Legislativo. Essa situação fez também diminuir a autonomia que os estados
brasileiros gozavam durante a vigência da Constituição de 1891, pois os
interventores indicados por Vargas, em sua maioria tenentes, não correspondiam
aos interesses dos grupos políticos locais. Para São Paulo foi designado o
tenente João Alberto Lins de Barros, a quem os oligarcas paulistas tratavam
pejorativamente como ‘forasteiro e plebeu’ ou ainda por ‘o pernambucano’. Outro
revés foi a grave crise econômica em consequência da Grande Depressão de 1929, que
derrubou os preços internacionais do café, arruinando a oligarquia paulista.
Foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas.
O levante armado começou de
fato em 9 de julho de 1932, precipitado pela revolta popular após a morte de
quatro jovens por tropas getulistas, em 23 de maio de 1932, durante um protesto contra o Governo Federal. Após a
morte desses jovens, foi organizado um movimento clandestino denominado MMDC (iniciais dos nomes dos quatro jovens mortos: Martins,
Miragaia, Dráusio e Camargo), que começou
a conspirar contra o governo provisório de Vargas, articulando, junto com
outros movimentos políticos, uma revolta substancial. Houve também uma quinta
vítima, Orlando de Oliveira Alvarenga, que também foi baleado naquele dia, no
mesmo local, mas morreu meses depois.
Nos meses precedentes ao
movimento, o ressentimento contra o presidente ganhava força, indicando uma
possível revolta armada, e o governo provisório passou a especular a hipótese
de o objetivo dos revoltosos ser a secessão de São Paulo do Brasil. O argumento
separatista jamais foi comprovado fidedigno, porém, ainda assim, foi utilizado
na propaganda do governo provisório ao longo do conflito para instigar a
opinião pública do restante do país contra os paulistas, obter voluntários na
ofensiva contra as tropas constitucionalistas, e ganhar aliados políticos nos
demais estados contra o movimento de São Paulo.
Quando o estado de São Paulo
precipitou a revolta contra o governo provisório de Vargas, seus líderes tinham
a expectativa da automática adesão de outros estados brasileiros, dada a
solidariedade manifestada por parte das elites políticas dos estados de Minas
Gerais, do Rio Grande do Sul, e do então Mato Grosso. Assim, os políticos de
São Paulo esperavam apenas um breve conflito militar, com uma rápida marcha
para o Rio de Janeiro, onde então se situava a capital do país, para depor
Getúlio. Logo, os revoltosos não organizaram um sistema defensivo em suas
fronteiras contra possíveis ofensivas militares dos estados vizinhos. No
entanto, a solidariedade daqueles estados não se traduziu em apoio efetivo, e,
com a espera por parte dos paulistas pelos apoios supostamente prometidos,
Getúlio Vargas teve tempo de articular uma reação militar de modo a sufocar a
revolução ainda nos seus estágios iniciais, obrigando o estado de São Paulo a
improvisar, em pouco tempo, um amplo sistema militar defensivo em suas
fronteiras contra a ofensiva de tropas de todos os estados brasileiros, com a
exceção do sul do Mato Grosso. Após quase três meses de intensos combates nos
quatro cantos do estado, o conflito foi encerrado em 2 de outubro de 1932 com a
rendição do Exército Constitucionalista.
Atualmente, o dia 9 de julho, que
marca o início da Revolução de 1932, é a data cívica mais importante do estado de São
Paulo, e feriado estadual. Os paulistas consideram a Revolução
Constitucionalista como sendo o maior movimento cívico de sua história. A lei 12.430, de 20 de junho de 2011, inscreveu
os nomes de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, heróis paulistas de 1932, no Livro
dos Heróis da Pátria.
No total, foram 87 dias de
combates (de 9 de julho a 4 de outubro de
1932 - sendo os últimos dois dias depois da rendição paulista), com um saldo oficial de 934 mortos,
embora estimativas, não oficiais, reportem até 2.200 mortos, sendo que numerosas
cidades do interior do estado de São Paulo sofreram danos devido aos combates.
Apesar da derrota militar do movimento, algumas de suas principais
reivindicações foram obtidas posteriormente, por exemplo, a nomeação de um interventor
civil e paulista, a convocação de uma Assembleia Constituinte, e a promulgação
de uma nova Constituição em 1934.
No entanto, essa Constituição
teve curta duração, pois, em 1937, Vargas fechou o Congresso Nacional, cassou a
Constituição vigente, e outorgou outra nova Constituição, justificando tais
medidas com um suposto extremismo de movimentos políticos da época. Assim, a
partir de então, foi estabelecido o regime ditatorial conhecido como Estado
Novo, que perdurou até 1945, ano em que Vargas foi deposto por um grupo militar
composto por generais, antigos aliados.
Revolta Paulista
Cartaz do movimento contra a ditadura getulista
Em 1932, a irritação dos paulistas com Getúlio Vargas não cedeu com a nomeação do paulista Pedro de Toledo como interventor do estado, pois tanto este, quanto Laudo Ferreira de Camargo (que havia renunciado por causa da interferência dos tenentes no governo) não conseguiam autonomia para governar. A primeira grande manifestação dos paulistas foi um grande comício na Praça da Sé, no dia do aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1932, com um público estimado em 200 mil pessoas. Em maio de 1932, ocorreram vários comícios constitucionalistas. As interferências da ditadura no governo de São Paulo eram constantes, não deixando os interventores formarem livremente seu secretariado, nem do Chefe de Polícia de São Paulo. Pedro de Toledo não governava de fato: as interferências de Miguel Costa, Osvaldo Aranha, João Alberto Lins de Barros, Manuel Rabelo, e Pedro Aurélio de Góis Monteiro, eram constantes. O político Paulo Nogueira Filho descreve João Alberto Lins de Barros e Miguel Costa como pessoas que ‘se arvoravam como donatários de São Paulo’.
Desde 1931, Júlio
Prestes acreditava que a situação da ditadura estava se tornando insustentável,
e declarou no exílio em Portugal:
- ‘O que não compreendo é que uma nação, como o Brasil,
após mais de um século de vida constitucional e liberalismo, retrograde para
uma ditadura sem freios e sem limites, como essa que nos degrada e enxovalha
perante o mundo civilizado!’
O Partido Democrático de São
Paulo, e alas do Partido Republicano Paulista, que antes eram rivais na
Revolução de 1930, uniram-se, em fevereiro de 1932, na Frente
Única, para exigir o fim da ditadura do Governo Provisório e uma nova
Constituição. Assim, São Paulo inteiro estava contra a ditadura. Os paulistas
consideravam que o seu estado estava sendo tratado pelo Governo Federal, que se
dizia um Governo Provisório, como uma terra conquistada, expressão de autoria
de Leven Vanpré, governada por tenentes de outros estados, e sentiam que a
Revolução de 1930 fora feita ‘contra’ São Paulo, pois Júlio Prestes
havia tido 90% dos votos dos paulistas em 1930.
Ainda em maio daquele ano,
contrariando a diretriz de Getúlio Vargas, e por pressão da população paulista,
a Frente Única Paulista articulou a formação de um novo secretariado junto ao
interventor, formado exclusivamente por nomes paulistas, defensores da bandeira
da reconstitucionalização e da autonomia estadual. Ainda no dia 22 de maio de 1932, Getúlio
Vargas enviou Oswaldo Aranha a São Paulo, com a missão de sustar essa reforma,
e impor ao interventor paulista um corpo de secretários conveniente aos
interesses do Governo Vargas. Sabendo disso, a população paulista se antecipou
e realizou um grande protesto entre os dias 22 e 23 de maio para a demonstrar repúdio à visita de Aranha,
e ao próprio Governo Federal.
A pressão popular tornou
malograda a missão de Oswaldo Aranha, resultando na manutenção da proposta da
Frente Única Paulista para o novo corpo de secretários de governo, que era
formado pelos seguintes nomes: Valdemar Ferreira, na Secretaria da Justiça e
Segurança Pública; Francisco da Cunha Junqueira, na Secretaria de Agricultura,
Indústria e Comércio; Francisco Emygdio da Fonseca Telles, na Secretaria de
Viação e Obras Públicas; Thyrso Queirolo Martins de Sousa, como Chefe da
Polícia do Estado de São Paulo; José Rodrigues Alves Sobrinho, na Secretaria de
Educação e Saúde Pública); Joaquim Sampaio Vidal, no Departamento de
Administração Municipal; e Paulo de Morais Barros, na Secretaria da Fazenda.
Contudo, ainda no dia 23 de maio de 1932, durante
uma manifestação no centro da cidade de São Paulo, cinco jovens foram
assassinados a tiros por membros do Partido Popular Paulista (poucos meses antes denominada ‘Legião Revolucionária’), uma organização política e militar criada por João
Alberto Lins de Barros, e por Miguel Costa, que servia como sustentáculo em São
Paulo do regime de Getúlio Vargas. Esse foi um dos estopins para a revolta
armada que seria deflagrada na noite de 9
de julho daquele ano.
Pedro de Toledo, com o apoio
do povo, conseguiu, neste dia 23 de maio de 1932, montar um secretariado de sua livre nomeação (que ficou conhecido como o Secretariado de 23 de
maio) e romper definitivamente com o
Governo Provisório.
O dia 23 de maio é
comemorado em São Paulo como o dia do soldado constitucionalista. A morte dos
jovens deu origem a um movimento de oposição que ficou conhecido como MMDC,
posteriormente denominado oficialmente de MMDCA: Martins (Martins); Euclides Bueno Miragaia (Miragaia);
Dráusio Marcondes de Sousa (Dráusio); Antônio Américo Camargo de Andrade (Camargo); e
Orlando de Oliveira Alvarenga (Alvarenga).
O M.M.D.C. foi organizado como sociedade secreta em 24 de maio de 1932, tendo sido
lançado durante um jantar no restaurante Posilipo, por Aureliano Leite, Joaquim
de Abreu Sampaio Vidal, Paulo Nogueira, e Prudente de Moraes Neto, entre
outros. Inicialmente, a sociedade foi chamada ‘Guarda Paulista’, mas, depois,
foi fixada em M.M.D.C., em homenagem
aos jovens mortos em 23 de maio.
Em 10 de agosto, o
Decreto nº. 5.627-A, do governo do estado, oficializou a entidade, cuja
direção foi entregue a um colegiado, presidido por Waldemar Martins Ferreira,
secretário da Justiça, e tendo como superintendente Luís Piza Sobrinho. O M.M.D.C. foi instalado na Faculdade de Direito, e depois
transferido para o antigo fórum, na rua do Tesouro, e posteriormente para o
prédio da Escola de Comércio Álvares Penteado.
Esse fato levou à união de
diversos setores da sociedade paulista em torno do movimento de
constitucionalização que se iniciara em janeiro de 1932. Neste
movimento, liderado pelo M.M.D.C., uniram-se o PRP e o Partido
Democrático, reconhecidos pelo governo federal como setores da oligarquia, que
pretendiam a volta da supremacia paulista, e do PRP ao poder, e queriam, também,
levar ao poder o candidato dos paulistas, Júlio Prestes, eleito à presidência,
mas que não pôde tomar posse, impedido pela Revolução de 1930.
Segundo a socióloga Aspásia
Camargo, em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, em texto comemorativo
dos sessenta anos da Revolução Constitucionalista de 1932, publicado
em 9
de julho de 1992, o constitucionalismo paulista resultou de um conflito
entre duas concepções de democracia: Democracia Social e Democracia Liberal.
Para Getúlio Vargas e os tenentes, a democracia liberal formal era um engodo,
tanto quanto o liberalismo brasileiro. Já, para os paulistas, segundo Aspásia,
principalmente para sua oligarquia, a democracia social era caso de polícia.
Essa acusação contra os paulistas de que, em São Paulo, ‘questão social é
questão de polícia’, deveu-se a uma distorção de uma frase do presidente
Washington Luís por parte de seus adversários. A frase que Washington Luís realmente
pronunciou foi a seguinte:
- ‘A agitação operária é uma questão que interessa mais
à ordem pública do que à ordem social, representa o estado de espírito de
alguns operários, mas não de toda a sociedade!’
Começou-se, então, a tramar
um movimento armado visando à derrubada da ditadura de Getúlio Vargas, sob a
bandeira da proclamação de uma nova Constituição para o Brasil. Desde seu
início, a revolução de 1932 contou com o apoio decisivo da maçonaria paulista,
através de suas lideranças e de seus membros como Pedro de Toledo, Júlio de
Mesquita Filho, Armando de Sales Oliveira, Ibrahim de Almeida Nobre, e outros.
Em 9 de julho,
Getúlio Vargas já havia estabelecido eleições para uma Assembleia Nacional
Constituinte (as eleições foram
convocadas em fevereiro de 1932), e já
havia nomeado um interventor paulista - as duas grandes exigências de São
Paulo. Porém, a interferência do governo federal e dos tenentes em São Paulo
continuava forte. Os tenentes do ‘Clube 3 de Outubro’ eram contra a instalação de uma
assembleia constituinte, tendo seus representantes entregado a Getúlio Vargas,
em 3
de março de 1932, em Petrópolis, um manifesto contrário a constituinte,
no qual davam seu total apoio à ditadura, e no qual se manifestavam contrários
a uma nova constituição.
Estes atos do Governo
Provisório, porém, não evitaram o conflito, já que o PRP, agora unido
ao seu rival Partido Democrático paulista, almejava voltar a dominar a política
nacional, como fazia anteriormente, dar uma constituição ao Brasil, e terminar
com as interferências da ditadura no governo de São Paulo.
Era especialmente humilhante
para São Paulo a nomeação do major Miguel Costa para comandante da Polícia
Militar de São Paulo, então chamada de Força Pública, pois Miguel Costa havia
sido expulso da Força Pública em 1924 por tentar derrubar o governo paulista na Revolução
de 1924.
O combatente-médico da
revolução de 1932, Ademar de Barros, que governaria São Paulo por três
vezes, assim explicou, em Santos, em 1934, as razões da revolução de 1932:
- ‘São Paulo se levantou em armas, em 9 de julho de 1932, para
livrar o Brasil de um governo que se apossaria de sua direção por efeito de uma
revolução… e que se perpetuava indefinidamente no poder, esmagando os direitos
de um povo livre... e que trazia o sempre glorioso São Paulo debaixo das botas
e do chicote do senhor!’
Conflito armado
O levante armado foi
deflagrado na cidade de São Paulo às oito horas e trinta minutos da noite de 9 de julho de 1932, com o
engajamento da Força Pública de São Paulo, unidades do Exército da 2ª Região
Militar, e grupos civis armados. O telegrama enviado pelo então comandante
geral da Força Pública, o coronel Júlio Marcondes Salgado ao general Bertoldo
Klinger, Comandante Supremo do Exército Constitucionalista, no dia seguinte ao
início da revolução, dá detalhes das circunstâncias em que ocorreu aquele
evento político e militar:
- ‘General Klinger - Campo Grande - Radiograma de São
Paulo (C. Elíseos) - N.29. - Págs. 100. Data: 10/VII/32. Horas: Onze e trinta.
Irrompeu
movimento ontem, vinte e trinta, tornando-se triunfante dentro poucas horas. Conquanto
ficasse combinado que a iniciativa movimento caberia à guarnição federal, ele teve
início mediante ação conjugada Exercito, Força Pública, e milicias civis,
dentro da melhor harmonia e vibração cívica. Não houve resistência alguma. Colaboraram
modo saliente General Izidoro e Coronéis Euclydes Figueiredo, e Palimercio
Rezende. Tropas Exército e Força Pública seguem em direção a Cruzeiro. Governo
paulista inteiramente integrado ao movimento constitucionalista. Peço avisar
hora provável sua chegada São Paulo, e dar informações sobre movimento tropas
guarnição Mato Grosso. Respeitosas saudações. (a) Júlio Salgado, comandante’.
O levante iniciado na capital
paulista envolveu a tomada das principais estações ferroviárias, quartéis,
prédios públicos - companhia telefônica, sede dos correios e telégrafos, principais
estações do telégrafo, Rádio Educadora Paulista, Rádio Record PRA-R e da Rádio
Cruzeiro do Sul, além da sede dos principais jornais paulistanos.
Ainda nas primeiras horas do
movimento armado, houve a tomada da guarnição do aeródromo Campo de Marte, do
quartel do 4º R.I. sediado em Quitaúna, e ainda da sede da 2ª Região
Militar, então situada na Chácara do Carvalho. Porém não houve resistência
dessas guarnições em virtude da adesão das tropas remanescentes daquele
Exército que, até então, não haviam participado das conspirações para o
levante. No mesmo dia, também houve repercussão em várias localidades pelo
interior do estado de São Paulo, com a tomada pelos revolucionários de posições
estratégicas para garantir o pleno controle do estado, como pontes, portos,
aeródromos, e estradas de acesso ao estado.
No dia seguinte, o levante
também ocorreu no então Estado do Mato Grosso, com a adesão de quase a
totalidade da Circunscrição Militar do Mato Grosso e da Força Pública
Mato-grossense. Nos dias seguintes, também houve mobilização rebelde no Rio
Grande do Sul.
Quando deflagraram o levante
revolucionário os paulistas acreditavam possuir o apoio de outros estados,
notadamente Minas Gerais, Rio Grande do Sul, e do então estado do Mato Grosso,
para a deposição de Getúlio Vargas, e formação de uma junta provisória para
governar o país até as eleições para a Assembleia Constituinte, agendada para 3 de maio de 1933.
Os revolucionários presumiram
em seu plano que apenas pela coerção, representada pela envergadura da coalizão
política e militar do movimento, Getúlio Vargas seria compelido a renunciar ao
cargo, pois compreenderia ser inútil qualquer resistência. Portanto, julgavam
que as forças revolucionárias apenas marchariam para o Rio de Janeiro, então
capital federal, sem enfrentarem significativa resistência.
Em São Paulo, Pedro de
Toledo, então interventor estadual, ganhou apoio popular, e foi aclamado pelo
povo como governador de São Paulo, e foi o comandante civil da revolução
constitucionalista. A junta Revolucionária conclamou os paulistas a lutarem
contra a ditadura. Formavam a Junta Revolucionária Francisco Morato, do Partido
Democrático; Antônio de Pádua Sales, do Partido Republicano Paulista; e os
generais Bertoldo Klinger e Isidoro Dias Lopes. O coronel Euclydes Figueiredo
assumiu interinamente a 2ª Região Militar.
Alistaram-se 200.000, sendo que
se estima que, destes, 60.000 efetivamente combateram nas fileiras do Exército
Constitucionalista.
No estado de São Paulo, a
Revolução de 1932 contou com um grande contingente de voluntários civis
e militares, e com o apoio de políticos de outros estados, antigos apoiadores
da Revolução de 1930, como, no Rio Grande do Sul, Raul Pilla, Borges de
Medeiros, João Batista Luzardo, Glicério Alves e João Neves da Fontoura, entre
outros, que formaram a Frente Única Rio-Grandense, e que tentaram fazer uma
revolta mas foram capturados (salvo
Batista Luzardo, que conseguiu fugir) e
exilados pelo interventor gaúcho.
No atual Mato Grosso do Sul
foi formado um estado independente que se chamou estado de Maracaju, que apoiou
São Paulo. Em Minas Gerais, a revolução de 1932 obteve o apoio do ex-presidente Artur Bernardes, que
terminou também exilado. São Paulo esperava a adesão do interventor do Rio
Grande do Sul, o estado mais bem armado, mas este, na última hora, decidiu
enviar tropas não para apoiar São Paulo, mas para combater os paulistas.
Quando se iniciou o levante,
uma multidão saiu às ruas em apoio. Tropas paulistas foram enviadas para os
fronts em todo o estado. Mas as tropas federais eram mais numerosas e bem
equipadas. Aviões foram usados para bombardear cidades do interior paulista.
Quarenta mil homens de São Paulo enfrentaram um contingente de cem mil
soldados. Os planos paulistas previam um rápido e fulminante movimento em
direção ao Rio de Janeiro pelo vale do Paraíba, com a retaguarda assegurada
pelo apoio que seria dado pelos outros estados.
Porém, com a não adesão dos
outros estados, o plano imaginado por São Paulo não se concretizou: Rio Grande
do Sul e Minas Gerais foram compelidos por Getúlio Vargas a se manterem ao seu
lado, e a publicidade de pretensão separatista do movimento levou São Paulo a
se ver sozinho, com o apoio de apenas algumas tropas mato-grossenses, contra o
restante do Brasil.
Comandadas por Pedro de
Toledo, aclamado governador revolucionário, e pelo general Bertoldo Klinger, as
tropas paulistas se viram lutando em três grandes frentes: o vale do Paraíba, o
sul paulista e o leste paulista.
O estado de São Paulo, apesar
de contar com mais de quarenta mil soldados, estava em desvantagem, pois,
encontrava-se num grande cerco militar. Como as suas fronteiras foram fechadas,
não havia como trazer mais armamento de fora do país para o conflito. Assim,
muitos voluntários levaram suas armas pessoais, e engenheiros da Escola
Politécnica do Estado (hoje EPUSP), e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), passaram
a desenvolver armamentos a serem produzidos pelo próprio estado para suprir as
tropas. Um navio que trazia armamento dos Estados Unidos para os paulistas foi
apreendido pela Marinha do Brasil.
Em 13 de julho de 1932, Ibrahim
Nobre proferiu o seguinte discurso nas rádios paulistanas, transcrito nos
jornais no mesmo dia, sob o título ‘Chegou a hora, a hora física da nossa fé
brasileira!’, conclamando a população paulista a se engajar na Revolução que
poucos dias antes havia sido deflagrada. Conforme sua íntegra:
- ‘Até que enfim, minha Terra! Chegou a nossa hora, a
hora física da nossa Fé brasileira! Lembram-se, meus Patrícios? Lembram-se
quando nós abrimos os braços e as portas, em outubro de 30, àquelas
fanfarras de uma linda mentira? Lembram-se daquele ‘estelionato cívico’?
Lembram-se das nossas ruas, das nossas coisas, da nossa vida, daquela grande
vergonha que nos trazia de cabeça baixa, e que nos punha na alma uma vontade
doida de morrer? Ah! Vocês não podem ter se esquecido, que a lembrança daí
ficou entre micoses e cicatrizes. Não há optar entre ontem e hoje, entre 30 e 32, entre o
ultrage e o pudor, entre a causa e a consequência. O que daí vai pelas ruas, ao
lar, na fronteira, no frêmito de todas as coisas, são apenas estilhaços da
nossa alma.
São Paulo hoje é um soldado só. De pé e em
armas. Sem desfalecimento. Sem discussão. Nós vamos para a frente, nós
marchamos para o Rio de Janeiro, custe o que custar. Por Deus do céu! Nós
defendemos uma causa. Não pleiteamos uma coisa. É a luta da luz contra a treva;
do bem contra o mal; do sol contra o miasma; de Jesus contra Lenine. Nós somos
o lar, a religião, a tradição, o passado, o futuro, o sangue! Brasileiramente –
Catolicamente.
Dizem que somos separatistas. Mas, como
separatismo, quando defendermos o Brasil, quando nós nos encaminhamos para o
Rio para sanear o Catete? Por que separatismo, si conclamamos o Sul, o Norte, o
Centro, o pobre e o rico, o operário e o patrão, o Exército e a Armada, para a
liberdade comum? Se lutamos contra a Ditadura, que não nos feriu somente a nós,
mas ludibriou a Nação inteira, e enxovalhou a nossa História, e aviltou a nossa
Civilização? Se nós queremos restituir a Pátria, a Constituição, e o Decoro? A
ditadura sim! Essa pretendeu, essa fez tudo e tudo faz para nos separar do
bloco, da unidade. Humilhou-nos, invadiu-nos, empobreceu-nos, retalhou o nosso
território, fez de nós uma excepção odiosa, transformando-nos ao leprosário das
suas próprias mazelas. Fez tudo! Nada conseguiu! Não se arranca de um organismo
o próprio coração. E você, São Paulo, é o coração do Brasil! E’ por isso que
estamos de pé! Arma na mão. Alma no peito.
Se mal nos fizeram, nós só poderíamos
perdoar. Se os irmãos nos abandonarem, seguiremos sozinhos e iremos até o fim.
De qualquer jeito. Tudo pode falhar, mas São Paulo nunca. Há sete milhões de criaturas
empenhadas na luta. Podem as nossas mãos estarem chagadas da crucificação; e a
nossa fronte pode estar ulcerada de espinhos; e a nossa túnica retalhada, e
alanceado o nosso flanco. Que importa mais é a gloria, quanto mais rude for o
Calvário! Deram-nos tudo isso, mas, em troca, daremos o nosso sangue, para a
redenção do pecado comum. São Paulo só pode dar ao Brasil, aquilo que nunca lhe
negou: as mãos, a fé, a alma, o ouro, o inteiro coração. Nós queremos tanto bem
a nossa Terra!
Uma oração minhas queridas Patrícias, pelo êxito das
nossas armas e pela vida dos nossos soldados. E você, meu rapaz, você que está me
escutando, aí, junto da sua gente, você já se alistou?
Em 23 de julho de 1932, durante
testes com um novo morteiro projetado pelos engenheiros da Escola Politécnica
de São Paulo, um acidente matou o então comandante da Força Pública, coronel
Júlio Marcondes Salgado e também o major da mesma corporação, José Marcelino da
Fonseca. O tenente-coronel Herculano de Carvalho e Silva veio posteriormente a
assumir o comando da instituição.
Uma das armas mais
sofisticadas feitas pela indústria paulista foram trens blindados, que foram
utilizados nos denominados setores leste, norte, e sul, de combate. São Paulo
criou uma moeda própria, que foi falsificada pelo Governo Vargas e distribuída
na capital paulista para desestabilizar a economia do estado. O dinheiro
paulista era lastreado pelo ouro arrecadado pela campanha ‘Ouro para o bem de
São Paulo’, também chamada de ‘Ouro para a vitória’. Devido à falta de munição,
os paulistas inventaram e passaram a usar um aparelho que imitava o som das
metralhadoras, chamado ‘matraca’.
A maçonaria paulista teve
participação ativa no movimento constitucionalista de 1932, através de
suas lojas e de seus membros como Pedro de Toledo, interventor, Júlio de
Mesquita Filho diretor do jornal ‘O Estado de S. Paulo’, e o poeta Ibrahim
Nobre, entre outros.
O movimento contou com a
contribuição de muitas mulheres voluntárias, que se dedicavam em diversos
serviços em benefício das tropas, como, por exemplo, serviços de enfermaria,
serviços administrativos, confecção de uniformes militares, produção de alimentos,
entre outros.
Uma das mais notórias
voluntárias nos serviços de saúde das tropas paulistas foi a médica Carlota de
Queiroz, responsável por organizar e liderar um grupo de setecentas mulheres
para garantir a assistência aos feridos. Contudo, houve casos de mulheres que
se voluntariaram para atuar nas trincheiras paulistas como soldados. Maria
Sguassábia, professora de escola rural primária em São João da Boa Vista, foi
uma dentre as mulheres que se voluntariaram para atuar nas trincheiras como
soldado, a exemplo de Nhá Chica e de Maria José Bezerra. Ao longo do conflito,
Sguassábia chegou a ser promovida a sargento devido aos seus feitos no campo de
batalha. Era integrante da Coluna Romão Gomes, tendo atuado no denominado setor
leste, na região de Campinas.
Ouve intensa mobilização
através do rádio, uma novidade na época, destacando-se César Ladeira da Rádio
Record. Usou-se muita propaganda e contrapropaganda ideológica por parte do
Governo Federal, que acusava São Paulo de estar nas mãos do fascismo italiano,
trazido pelos imigrantes. Brasileiros de outras regiões foram recrutados pela
ditadura para combater São Paulo, sob a justificativa de que o estado queria se
separar do Brasil. A ditadura colocava agentes infiltrados em reuniões e
comícios em São Paulo, que pregavam o derrotismo e o desânimo da população.
Um ato bárbaro, ocorrido
durante a Revolução de 1932, deu-se na cidade de Cunha, quando as tropas federais
torturaram e mataram o agricultor Paulo Virgínio por se recusar a dizer onde
estavam as tropas paulistas. Paulo Virgínio foi obrigado a cavar sua própria
sepultura, e morreu dizendo:
- ‘Morro, mas São Paulo
vence!’
Paulo Virgínio, junto com os
jovens do MMDC, está enterrado no ponto central do Mausoléu do
Ibirapuera, e é homenageado dando seu nome a rodovia SP-171, que
corta a região onde ele foi assassinado, o Vale do Paraíba. O movimento se estendeu
até 2
de outubro de 1932, quando foi derrotado militarmente.
Outro episódio, que ficou
marcado como exemplo de coragem, e determinação, pela causa durante o conflito,
foi o ocorrido com o capitão do Exército Constitucionalista do setor norte,
Manuel de Freitas Novaes Neto. Durante uma missão nos arredores de Queluz,
cidade já tomada pelas forças adversárias, foi rendido por um sargento do
Exército Federal que teria dito no ato: ‘Renda-se, paulista!’. Contudo, o
capitão paulista ao resistir à prisão teria dito:
- ‘Um Paulista morre, mas não
se rende!’.
Ao avançar em assalto sobre o sargento federal, foi fuzilado no ato. Resgatado ainda com vida por uma patrulha paulista das proximidades, morreu horas depois na Santa Casa de Misericórdia de Cruzeiro. A morte do ‘capitão Neco’, como era conhecido na sua cidade natal, gerou comoção, tanto entre os paulistas quanto no Exército Federal, onde também era muito estimado. Ele foi sepultado no cemitério particular de sua família na Fazenda Boa Vista, em Cruzeiro. Em 5 de julho de 1962, seus restos mortais foram transladados para o Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932, no Obelisco do Parque Ibirapuera.
Separatismo
Entre os grupos que formavam
a direção da Revolução Paulista, existiam os separatistas, que desejavam a
independência de São Paulo como uma república soberana, ou a formação de uma
federação onde os estados adquiririam a soberania (confederação).
Entre os principais defensores do separatismo destacavam-se o presidente do
Tribunal de Justiça, Costa Manso, os escritores José Alcântara Machado e
Monteiro Lobato, e o historiador Alfredo Ellis Junior.
Monteiro Lobato,
especificamente, foi o que mais deixou documentos e relatos sobre o desejo de
independência dos paulistas. Em 10 de agosto, um mês depois dos conflitos, o famoso
autor enviou uma carta emocionada a Waldemar Ferreira, um dos líderes da
revolução, na qual apresentava um balanço da crítica situação em que se
encontrava São Paulo, observando ao seu amigo que ‘há o que a boca diz, e há o
que o coração sente. Minha boca diz o que todos neste momento dizem - mas meu
coração, e talvez o de São Paulo inteiro, sente o que vai escrito nas tiras
anexas’.
E, o que o coração de Lobato
expressava, traduzia-se num texto intitulado ‘A defesa da vitória de São Paulo’,
em que deixava claro que, para os paulistas, só havia dois caminhos: hegemonia
ou separação.
- 'Após a vitória de São Paulo, na campanha ora empenhada, faz-se mister que seus dirigentes não se deixem embalar pelas ideias sentimentais de brasilidade, irmandade, e outras sonoridades. [...] Ou São Paulo desarma a União e arma a si próprio, de modo a dirigir doravante a política nacional, a seu talento e em seu proveito, ou se separa. [...] Trata-se de uma guerra de independência disfarçada em guerra constitucionalista...'.
Monteiro Lobato, admirador de
Washington Luís, apoiou a candidatura do Júlio Prestes, que, como presidente de
São Paulo, realizara explorações de petróleo em território paulista, tendo
escrito a ele, em 28 de agosto de 1929, uma carta de apoio em que dizia:
- ‘Sua política na presidência significará o que de mais
precisa o Brasil: continuidade administrativa!’.
A gigantesca campanha pela
adesão das massas às causas revolucionárias, por se pautar pelo enaltecimento
de valores regionais, trazia em seu bojo o fortalecimento dos argumentos
separatistas, ideário presente em São Paulo durante toda a sua história.
Retratando a síntese desse
paradoxo, Mário de Andrade registrava que o lema ‘Tudo por São Paulo’ - que se
fazia presente em faixas, veículos, e nos quepes dos soldados - era ‘a única
unanimidade’ naqueles agitados dias de 1932. Definitivamente, foi ‘por São Paulo’ - e não pelo
Brasil - que tantos homens e mulheres se sacrificaram. O autor ainda, após o
armistício, manifestava ao amigo mineiro Carlos Drummond de Andrade, o rancor
que lhe dominava a alma:
- ‘No momento, eu faria tudo, daria tudo, para São Paulo
se separar do Brasil’.
De fato, o governo provisório
especulava inicialmente se haveria um possível objetivo de secessão do estado
de São Paulo do restante do Brasil. No entanto, tal objetivo entre os líderes
revolucionários jamais foi comprovado como fidedigno. Porém, Getúlio Vargas se aproveitou
do argumento separatista, utilizando isso, de forma eficaz, na sua estratégia
de propaganda política para angariar aliados, voluntários, e a rejeição popular
no restante do país contra o movimento revolucionário articulado pelos
paulistas.
‘A questão do separatismo, em
1932,
é completamente diluída e secundária. Está no antigetulismo, mas não é um dos
motivos preponderantes’.
Forças opostas
De acordo com García de
Gabiola (o primeiro autor a escrever uma
obra em inglês e espanhol sobre o tema),
quando a revolução começou, os paulistas dominavam apenas uma das oito divisões
(5 de infantaria, 3 de cavalaria) do Exército Brasileiro (a 2ª Divisão, sediada em São Paulo), e metade da Brigada Mista, sediada no sul do Mato
Grosso. Essas forças foram reforçadas pela Força Pública Paulista (a polícia militar do estado de São Paulo) e pelas milícias da MMDC. Ao todo, havia cerca de 11.000 a 15.000 homens no
início do conflito, aos quais se juntaram posteriormente milhares de
voluntários. De fato, segundo autores como Hilton, São Paulo equipou cerca de 40 batalhões de
voluntários, mas García de Gabiola afirma ter identificado até 80 deles, com
cerca de 300 homens cada. No final, levando em conta que no
arsenal do estado de São Paulo havia apenas entre 15.000 e 29.000 rifles,
dependendo da fonte, os paulistas nunca conseguiram armar mais de 35.000 homens. Além
disso, os paulistas tinham apenas 6 milhões de cartuchos, falhando em suas tentativas de
adquirir cerca de 500 milhões adicionais, o que, para um exército de cerca
de 30.000 homens
lutando por 3 meses, representava apenas 4,4 cartuchos
por dia por soldado. O Brasil equipou aproximadamente 100.000 homens, mas
levando em conta que um terço dessa quantidade nunca foi para a frente (eles foram mantidos para proteger as retaguardas e
para fins de segurança nos outros estados),
sua superioridade numérica era de cerca de 2 para 1.
Fim do Conflito
Em meados de setembro de 1932, as
condições econômicas do estado de São Paulo eram precárias, dado o cerco
militar e o isolamento comercial. Além disso, as cidades do interior do estado
estavam sendo paulatinamente invadidas pelas tropas de Getúlio Vargas, e a
capital paulista cada vez mais ameaçada pela ocupação militar.
A asfixia comercial era em
grande parte causada pelo bloqueio ao Porto de Santos, impedindo a remessa de
suprimentos básicos à população do estado, e também inviabilizando o
reabastecimento de recursos militares para as tropas constitucionalistas, o que
tornava cada vez mais insustentável seu poder defensivo, que até então era
viabilizado pelas contribuições feitas por seus cidadãos, e pela mobilização de
voluntários na produção e distribuição de suprimentos. Soma-se ainda o fato de
que, praticamente, toda a indústria paulista ou estava paralisada, devido ao
conflito, ou estava se dedicando na produção de materiais e suprimentos para as
tropas constitucionalistas.
Os comandantes do Exército
Constitucionalista, durante os três meses de conflito, tinham a expectativa de
um ponto de inflexão no curso da guerra, de modo a saírem do cerco militar para
reassumirem a ofensiva e, enfim, cumprir o objetivo do movimento armado, que
previa a deposição do governo provisório então presidido por Getúlio Vargas.
Porém, com os sucessivos revezes no campo militar, político, diplomático,
econômico e logístico, os comandantes das Forças Constitucionalistas se
resignaram, e pediram o armistício ao governo provisório, para iniciar as
tratativas para a rendição.
Entre os fatores que
sustentaram essa decisão estava a dificuldade dos paulistas em fabricarem
recursos bélicos em tempo, e suficientes; a frustração com a aquisição de
recursos bélicos no estrangeiro após a atuação ostensiva da diplomacia do
governo provisório, que conseguiu sustar as compras iniciadas; a frustração com
o não reconhecimento internacional do estado de beligerância; o aliciamento
político, ou a prisão pelo governo federal de importantes aliados estaduais aos
rebeldes; a debelação dos revoltosos no Rio Grande do Sul; o cerco e a iminente
queda da praça militar de Campinas e Limeira, o que significaria praticamente a
tomada da capital paulista pelos governistas e, com isso, a inviabilidade das
demais frentes de combate; e, por fim, a asfixia comercial resultante do cerco
militar, que resultou na escassez generalizada de alimentos, combustíveis,
peças de reposição, materiais bélicos, entre outros recursos fundamentais para
os rebeldes sustentarem a guerra.
Cientes da iminente derrota
militar, o comandante supremo do Exército Constitucionalista, o general
Bertoldo Klinger, e o comandante geral da Força Pública de São Paulo, o coronel
Herculano de Carvalho e Silva, obtiveram um armistício, e se engajaram na
negociação para o fim definitivo do conflito com o general Pedro de Aurélio de
Góis Monteiro, comandante militar do destacamento leste, e representante do
governo provisório.
Após alguns dias de
negociação, no 2 de outubro de 1932, na cidade de Cruzeiro, foi enfim assinada a rendição,
e consequentemente dado por encerrado o conflito.
Entre os termos do acordo,
foi estabelecido que a Força Pública de São Paulo retornaria aos quartéis para
reassumir suas funções na segurança pública do estado, e o coronel Herculano de
Carvalho e Silva assumiria interinamente o governo do estado de São Paulo, até
a chegada do interventor designado por Getúlio Vargas.
Com a retirada geral das
tropas da Força Pública paulista, as demais tropas constitucionalistas,
compostas por combatentes do Exército e voluntários, vendo-se incapazes de
sustentar os combates devido a esse grande desfalque em suas linhas defensivas,
também abandonaram as trincheiras e seguiram em direção a capital, encerrando definitivamente
os combates.
No dia 6 de outubro, o
general Valdomiro Castilho de Lima, então comandante das forças militares do
Sul do Brasil, assumiu a intervenção do estado de São Paulo. Foi a segunda vez,
em menos de dois anos, que as tropas gaúchas ocuparam a capital paulista, sendo
a primeira vez durante a revolução de 1930. Com a derrota militar da Revolução
Constitucionalista, a maior parte de seus líderes foi exilada na cidade de
Lisboa, em Portugal.
Impacto cultural
Nos anos que se seguiram ao
fim da guerra, houve um significativo esforço por parte de muitos
ex-combatentes, e pessoas que atuaram diretamente na revolução, em publicar
obras com relatos de suas experiências, como foi o caso de Paulo Duarte,
Menotti Del Picchia, Alfredo Ellis Junior, Guilherme de Almeida, Arnon de
Mello, entre outros. Somente em 1933 foram publicados 67 livros e, seis anos depois, já havia um total
acumulado de 170 obras.
Trinta anos depois do
conflito, Aureliano Leite realizou um catálogo com cerca de 600 títulos
dedicados ao tema, os quais constituem um importante acervo histórico e
literário. A história da revolução foi também abordada em importantes obras da
literatura brasileira, como foi o caso do romance ‘Éramos Seis’, publicado em 1943 pela
escritora Maria José Dupré.
O conflito também foi
retratado em produções da televisão brasileira, como na novela ‘O Casarão’ (1976); na
novela ‘Os Imigrantes’ (1981); na novela ‘Éramos Seis’, nas suas cinco versões,
baseadas no romance de Dupré; e na novela ‘Esperança’ (2002), todas
elas com perspectiva favorável à causa dos revolucionários.
Em 2002, em comemoração aos 70 anos do movimento armado, foi produzido pela TV Cultura e a TV Assembleia o documentário ‘A Guerra dos Paulistas - A Revolução Constitucionalista de 1932’ A minissérie ‘Um Só Coração’ (2004), produzida e exibida pela Rede Globo, também retratou a história do conflito. A minissérie ‘JK’ (2006) retrata a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek, incluindo a sua participação naquela guerra.
Fonte: WP
(JA, Jul26)


