Pesquisadores estão dando um novo passo ao analisar esses abalos sísmicos da maternidade
Poucos acontecimentos sacodem
com tamanha intensidade a vida de uma mulher quanto o exercício da maternidade,
uma trilha cheia de curvas e lombadas na qual é preciso aprender a caminhar, ao
mesmo tempo que desafios de variadas envergaduras se apresentam. Do choro que
não para ao bebê que não dorme - esse é só o início de uma jornada que ganha
complexidade conforme a criança vai fincando os pés no mundo. E não é só o
humor da mãe que muda, não. Também seu cérebro é vastamente transformado de
forma duradoura, ajustando-se para executar um rol inédito de tarefas que
envolvem, no conjunto, a delicada missão de decifrar as necessidades e os
sentimentos daquele miúdo ser, muito antes de ele saber expressá-los.
Há décadas dedicados a
dissecar a mente materna, os neurocientistas já sabem: circuitos neurais
situados na região do córtex pré-frontal, relacionados à capacidade de frear
impulsos e processar emoções, ficam em atividade plena e, justamente em meio a
essa ebulição, brotam altas doses de empatia e afeto.
Pois agora a ciência está
dando um novo passo ao analisar os abalos sísmicos provocados pela segunda
gravidez. E a conclusão é que, já mais calejadas, as mulheres que decidem
encarar outra gestação têm as estruturas modificadas em uma direção bem diferente.
A mais recente investigação
na área, conduzida pela Universidade de Amsterdã, e que acaba de ser publicada
na revista Nature, comparou mães de um filho às de dois à base de ressonâncias
realizadas durante a gestação e após o parto. Logo ficou claro que engravidar
de novo não é simplesmente repetir o primeiro round: o tecido no cérebro se
reorganiza de maneira distinta. Enquanto as que estreiam no universo de
fraldas, mamadeiras (e muito mais) têm a mente tomada por uma leitura essencialmente
emocional do rebento, voltada para a construção do vínculo, as de segunda
viagem afiam sobretudo as redes cerebrais ligadas à atenção e à administração
simultânea de afazeres, um pacote de viés mais prático. No dia a dia, a mulher
passa a responder com maior agilidade e precisão às inúmeras missões de
natureza física inerentes à maternidade. ‘Tudo indica que essas mudanças no
cérebro preparam a mulher para cuidar de mais de uma criança, cenário em que há
um turbilhão de estímulos externos, e crescentes exigências’, disse Milou
Straathof, uma das autoras do estudo.
Não que as emoções não
estejam sempre à flor da pele quando um novo bebê vem ao mundo, mas o segundo
filho (ou, para algumas, o terceiro, o
quarto) chega a um terreno no qual as
inseguranças mais elementares já foram equacionadas, e é possível se equilibrar
melhor na gangorra entre sentimentos e razão.
Como mãe de primeira viagem,
a advogada Marianna Rebello Pinto, de 42 anos, reconhece que a toda hora lhe batia algum medo. ‘Cada
decisão pesava’, conta ela, que, na segunda vez, morando em Dubai, longe da
família, viu aflorar um pendor para a praticidade que não imaginava existir. ‘Senti-me
muito mais confiante e preparada para tocar a rotina’, diz a advogada, ao lado
de Julia, de 6 anos, e Pedro, de 1. O que ela, e tantas outras, relatam foi verificado
na mente feminina pelos pesquisadores holandeses, que notaram alterações até no
volume cerebral, sutilmente mais denso nas mães de dois filhos. ‘A primeira
gravidez inaugura o modo mãe, enquanto a segunda parece aperfeiçoar todo o
sistema para lidar com uma realidade de maior demanda’, afirma a neurologista
Geovane Porto Viana.
Mesmo com as taxas de
natalidade em baixa na banda ocidental do planeta, a aventura de criar dois
filhos ainda é o mais comum no Brasil. Segundo o último Censo do IBGE, o país
contabiliza 41,5 milhões de mulheres nessa situação, multidão que
representa cerca de 70% das mães brasileiras. O batente para elas, que na
maioria dos casos se revezam entre maternidade e trabalho, não é nada fácil.
Visto de fora, muita gente pode pensar que ser mãe em dose dupla é trabalho
redobrado, e de certo modo funciona assim mesmo. Mas, o aprendizado adquirido
na primeira gestação se faz tão intenso que, na hora da segunda, a vida já flui
sem tantos sustos, como ocorreu com Laiana Carolina da Silva, de 32 anos, que
trabalha em um salão. ‘Com o João Pedro, eu ficava ansiosa com tudo. Aí veio a
Sophia, e entrei no modo automático, multitarefas, e a sensação é de que passou
até mais rápido’, diz Laiana, cujo primogênito tem hoje 14 e a caçula, 11.
Cada filho, evidentemente, é
de um jeito, e impõe desafios únicos. E, de um bebê a outro, também a mulher
passa por experiências nos vários escaninhos da existência que a transformam. ‘Nenhuma
gestação se repete, porque a mulher já não é a mesma. Ela acumulou experiências,
atravessou fases, e sabe o que é se tornar mãe’, enfatiza a psicóloga perinatal
Jessica Neves. A tendência que une as que expandem a prole é ganhar
objetividade e clareza ao encarar os espinhos cotidianos. A publicitária Maria
Clara Velloso, de 24 anos, é da turma que engatou uma gravidez na outra,
com uma diferença de meses entre a mais velha, Isabela, de quase 1 ano e meio, e
Julia, perto de apagar a primeira velinha. A mais velha custou a embalar uma
noite inteira de sono, fonte de estresse que, com a caçula, virou uma rotina
envolta em leveza. ‘Troquei a tensão de antes por um momento meu e dela, algo
bom’, avalia. A relativização das asperezas da maternidade é um traço entre as
que já acumularam bagagem. ‘Na segunda vez, elas sabem discernir melhor o que é
relevante do que pode ser deixado de lado, sem prejuízo à criança’, avalia a
obstetra Priscila Gapski Pereira.
Ao mesmo tempo que a mãe vai
ganhando estofo, o segundo filho cresce sob uma moldura diversa. O primeiro,
com atenção exclusiva e pais mais ansiosos, se desenvolve em um ambiente que
enseja a linguagem, e a permanente interação com os adultos. Já o que vem
depois, em uma casa cheia, com um irmão como referência, e pais mais confiantes
e atarefados, divide já na largada as atenções, o que favorece a autonomia e a
habilidade de se adaptar. O convívio entre irmãos é para lá de benéfico a
ambos, como mostra um estudo da Universidade Murdoch, na Austrália. O mais novo
acaba por aprender cedo na vida a olhar para o que o outro pensa, e como ele
pode encarar uma mesma situação sob um ângulo diferente, um estímulo e tanto à
empatia e à arte da negociação. Do ponto de vista do primogênito, a chegada de
alguém com quem repartir os paparicos é o primeiro grande exercício para
entender fundamentos básicos da vida em sociedade: saber compartilhar, esperar
sua vez, e levar em consideração a presença permanente de um semelhante repleto
de necessidades.
Os especialistas alertam,
porém, que nem tudo são flores nesse território tão permeado de sutilezas. Ao
se habituar a uma rotina puxada, cumprida não raro no piloto automático, mães
de segunda, terceira viagem, embora exauridas, não desaceleram o ritmo. Frequentemente
nem se dão conta de quão cansadas estão. Outras, mesmo cientes da batalha
diária demasiado pesada, preferem seguir em frente, sem pedir ajuda nem parar
para ajustar as engrenagens. ‘Vejo em muitos casos no consultório o que chamo
de silenciamento emocional, o que é bastante prejudicial à mulher’, diz a
psicóloga perinatal Jessica Neves.
Ao saber da vinda de um novo
bebê, uma fatia das mulheres antecipa a carga por vir e custa a estabelecer um
elo com a segunda gravidez. Com um filho já fazendo suas peripécias pelo mundo,
é comum não encontrarem tempo para a barriga que desponta, e tudo o que vem
embutido aí. O estudo da Universidade de Amsterdã chega a lançar um alerta: se
na primeira vez eventuais sintomas de depressão se apresentam após o parto, na
segunda não é incomum percebê-los ainda durante a gestação.
Fácil nunca é, mas a
recorrente opção por mais um filho reforça a quão rica e prazerosa é a
maratona. ‘A maternidade me transformou por inteira’, reconhece a publicitária
Maria Clara. E agora é a ciência que diz: ela e tantas outras que aprenderam na
marra, ora errando, ora acertando, a se pôr no papel de mãe jamais serão as
mesmas.
Fonte: Júlia Sofia | Veja
(JA, Mai26)
