O rei do rock, Elvis Presley. Quem nunca ouviu ‘Love Me Tender’ a tocar numa vitrola antiga? Quem nunca viu o filme dele a dançar ‘Jail House Rock’ em cima daquela escada de cadeia? E o espetáculo de ‘Las Vegas, Jump Suite’, branco brilhando no palco, terminando com ‘Can Help Falling in love’.
Marcou no mundo inteiro,
marcou no Brasil também. Roberto Carlos passou a ser Roberto Carlos porque
assistiu ao Elvis. Erasmo Carlos também. A Jovem guarda inteira nasceu dessa
influência. O gajo mexeu com a música brasileira sem nunca ter pisado aqui. Só
que há uma parte dessa história que quase ninguém conta bem por aqui no Brasil.
O que aconteceu com tudo o
que ele deixou para trás? O homem vendeu meio bilhão de discos, tinha avião
particular, dava Cadillac de presente a desconhecido na rua. E, quando faleceu,
em agosto de 77, sobrou muito menos do que se imagina. Tem coisa que virou
museu, há coisa que desapareceu em leilão e há coisa que ficou apodrecendo sem
ninguém para olhar durante décadas.
Hoje vamos dar um passeio pela vida deste ícone, recordar quem foi o homem por detrás do mito. Ver de perto os luxos absurdos que ele acumulou e perceber o que restava de tudo isto depois de o rei se ir embora, pega um café, senta-se confortável, fica comigo aqui. Para começar, precisamos regressar a uma pequena cidade no sul dos Estados Unidos. Janeiro de 1935.
Dois bebés iam nascer na
mesma cama naquela madrugada, só que só um ia sobreviver. 8 de janeiro de 1935.
Tupelo, uma pequena cidade do estado do Mississipi, no sul dos Estados Unidos,
numa casa de madeira de duas divisões, uma mulher chamada Gledis está em
trabalho de parto. Casa simples, casa muito simples para dizer a verdade.
O marido dela, o Vernon,
tinha construído aquela casa com as suas próprias mãos, com US$ 180
emprestados. Era tudo o que tinham. Nessa madrugada, Gledis deu à luz dois
bebés gêmeos. O primeiro nasceu morto. Puseram o nome dele de Jess Garon, e o enterraram
numa caixa de sapatos, numa sepultura sem nome, no cemitério da cidade.
O segundo bebé sobreviveu. Nesse
eles puseram o nome de Elvis Aaron Presley. Elvis cresceu sozinho, mas a mãe a
vida inteira falava do irmão que não sobreviveu. Dizia que o Elvis tinha de
viver pelos dois. Imagina a pressão. A infância foi dura. Quando Elvis tinha 2
anos de idade, o pai foi detido. O Vernon tinha falsificado um cheque de US$ 4
foi preso e esteve 3 anos longe de casa.
A mãe segurou a barra
sozinha, trabalhando em uma fábrica de costura. Em casa, o que havia era a
Bíblia e o rádio. Aos domingos, a família ia para igreja Assembleia de Deus.
Elvis começou a cantar ali no coro ainda criança. Aprendeu a ouvir gospel, a
sentir aquela música mexer com as pessoas. Aos 10 anos, recebeu o primeiro
violão do pai.
Ele queria uma bicicleta, mas
a família não tinha dinheiro para uma bicicleta, veio o violão. Em 1948, a
família se mudou para Memphis, no estado do Tennesse, cidade grande. Foram
morar num bairro pobre, num conjunto habitação do governo. E foi ali, em
Memphis, que o Elvis começou a ouvir um outro tipo de música, a música dos
negros americanos, os Blues, os Rythm and Blues, o gospel negro.
Ele andava pela Bill Street,
a rua onde tocava esta música, e ficava a ouvir. Tinha uma curiosidade dessa
época que vale a pena contar. Elvis era naturalmente loiro, loiro escuro, mas
ele achava que ficava mais bonito com o cabelo preto. Como não tinha dinheiro
para comprar tinta de cabelo, passava gordura de sapato no cabelo, graxa preta
de engraxar sapato.
Ele fez isto durante anos,
até começar a ganhar dinheiro. Depois do ensino secundário, foi trabalhar para
ajudar em casa. Arrumou emprego numa empresa chamada Crown Electric. Era caminhoneiro,
dirigia camião de entrega pelas ruas de Memphis, ganhando um salário de pobre.
E aí, chegou o dia que mudou tudo. Julho de 1953. Elvis tinha 18 anos.
Ele entrou num estúdio de
gravação em Memphis chamado Sun Records. Pagou US$ 4 para gravar duas canções
num disquinho. Falou que era presente atrasado para o aniversário da mãe.
Cantou, gravou, e foi embora. Só que a rapariga da recepção, uma tal de Marion
Keekker, achou aquela voz interessante e anotou o nome do menino numa ficha.
Um ano depois, em julho de
1954, o dono da Sun Records, um homem chamado St. Philips, chamou o Elvis para
fazer um teste, pôs o menino a cantar com dois músicos profissionais. No início
não saiu nada. Os músicos estavam cansados, o Elvis estava nervoso. Aí, numa
pausa, o Elvis começou a brincar com uma música antiga de blues chamada ‘That's
All Right’.
Cantou de uma maneira
diferente, mais rápido, mais elétrico. Sam Philips ouviu pela porta entreaberta,
e mandou gravar aquilo outra vez. Aquela gravação é considerada hoje o primeiro
disco de rock and roll do mundo. Em 1955, apareceu na vida do Elvis um homem
chamado Tom Parker, empresário. Todo mundo o chamava de coronel, embora ele
nunca tivesse servido o exército.
O coronel apanhou a carreira
do Elvis nas mãos, e assinou um contrato com a grande gravadora, a RC Victor,
por US$ 35.000, valor recorde para a época. E aí o mundo virou. Em 1956, Elvis
lança ‘Heartbreak Hotel’. Primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos.
Apareceu pela primeira vez no programa de televisão mais visto do país, o Ed
Sullivan Show.
A apresentação dele foi um
escândalo. O gajo dançava de um jeito que ninguém tinha visto antes, mexendo a
anca. Pastor evangélico foi para a televisão dizer que aquilo era coisa do
diabo. As mães proibiram as filhas de assistir. Na terceira aparição, a emissora
filmou o Elvis só da cintura para cima. Não podia mostrar o resto.
Resultado, o disco vendeu
mais. O filme dele, ‘Love Me Tender’, encheu o cinema. O cara se tornou febre
nos Estados Unidos inteiro em questão de meses. Em março de 1957, com 22 anos,
Elvis comprou uma mansão em Memphis, US$ 102.500, hoje em valor corrigido, mais
de 1 milhão de dólares. Comprou para os pais, para a família viver com
dignidade, pôs o nome de Graceland.
Mas comprar a mansão foi só o
aquecimento. O que veio depois foi de outro nível. Mas antes de chegar nos
luxos absurdos, tem uma história que o Elvis nunca superou na vida. Março de
1958, Elvis estava no auge, vendia discos, enchia o cinema, era o homem mais
famoso dos Estados Unidos. E depois veio uma carta do governo.
O gajo foi convocado para
servir o exército. Naquela época não tinha conversa. Famoso ou não, tinha de
ir. Cortaram-lhe aquele famoso topete, mandaram para o exército. Depois de uns
meses de treino, foi enviado para Alemanha, para uma base militar americana,
num lugar chamado Friedberg. Foi lá na Alemanha que conheceu uma menina de nome
Priscila Bolie, filha de oficial da Força Aérea Americana.
Pô, tinha 14 anos de idade.
14.º Ele tinha 24. Hoje isso seria escândalo gigantesco. Mas nessa altura, nos
anos 50, a coisa era diferente. Eles começaram a namorar com a autorização dos
pais dela. Mas em agosto desse mesmo ano, 1958, veio o pior golpe da vida do
Elvis. Sua mãe, Gledis, morreu aos 46 anos. Problema do coração, complicação do
alcoolismo.
Elvis veio correndo para os
EU, para o funeral. Dizem que se atirou para cima do caixão, chorando, gritando
o nome dela. Não comeu, não dormiu durante dias. A Gledis era tudo para ele.
Era o porto seguro. Quando ela se foi, alguma coisa dentro de Elvis se partiu
para sempre. Ele nunca mais foi o mesmo. Voltou aos Estados Unidos em 1960,
saiu do exército com a patente de sargento, retomou a sua carreira.
Só que aí o coronel Tom
Parker, o empresário, tomou uma decisão que muita gente pensa que destruiu a
carreira artística do Elvis. Empurrou-o para Hollywood. De 1960 a 1968, em 8
anos, Elvis fez 27 filmes. Filme atrás de filme. Os críticos detonavam, falavam
que era um lixo, mas o público enchia o cinema. Para o coronel, era dinheiro
fácil.
Em maio de 1967, O Elvis se casou
com a Priscila. Ela já tinha 22 anos. O casamento foi em Las Vegas, festa
rapidinha. Meses depois, em fevereiro de 1968, nasceu a única filha do casal, a
Lisa Marie Presley. Em dezembro de 1968, Elvis fez aquele especial televisivo
lendário, vestido todo em pele preta. O ‘Comeback Special’ foi o seu
renascimento como artista.
Mostrou ao mundo que o rei
estava de volta. E em 1969 começou a fase mais louca, a fase de Las Vegas.
Elvis assinou contrato para fazer época de espetáculos num hotel chamado
Internacional. Foi aí que apareceu o jump suite branco, famoso, com aquela
capa, os bordados, as pedrarias. Agora, atenção aos números. Em 23 anos de
carreira, Elvis vendeu mais de meio bilhão de discos pelo mundo.
Algumas as estimativas falam
em 1 bilhão. Teve 18 músicas em primeiro lugar nas tabelas americanas. Ganhou
três prémios Grammy, realizou 31 filmes. E depois vem o capítulo dos luxos
absurdos. Em abril de 1975, Elvis pagou 250.000 dólares por um avião comercial
usado, um Convair 880 que a companhia Delta tinha aposentado.
Comprou o avião, mas o maluco
o levou a reforma. Gastou mais 800.000 só para renovar aquele avião por dentro.
E o que estava lá dentro? Pode acreditar. As torneiras da casa de banho eram
banhadas a ouro 24 quilates, tinha uma cama queen size dentro do avião, e até o
cinto de segurança da cama era dourado. Tinha 52 autofalantes espalhados pela
cabine.
Tinha uma sala de reunião
revestida a madeira teca importada. Elvis batizou o avião com o nome da filha
Lisa Marie. Chamava o avião de Graceland Voadora. E olhe, este era apenas um
dos aviões dele. Ele tinha dois. Os Cadillacs eram outra mania. Elvis comprou
mais de 100 Cadillacs na vida.
Dava de presente à família,
para amigos, para empregados. Mas houve um dia que ficou para a história. 27 de
julho de 1975. Elvis entra num concessionário de carros em Memphis, compra 14 Cadillacs,
novinhos de uma só vez. Então, ele viu uma mulher negra do lado de fora, transeunte,
parada a admirar os carros pela vitrine. Mulher pobre se chamava Many Person.
Elvis a chamou para entrar e
disse: ‘Escolhe um Cadillac’. Ela ganhou um dourado azul de presente de um
homem que nunca tinha visto na vida.
Tinha um sanduíche que Elvis
era apaixonado denominado ‘Fulls Gold’. Era um pão recheado com manteiga de
amendoim, banana, e bacon que só era vendido num restaurante específico em
Denver, no estado do Colorado.
Em fevereiro de 1976, Elvis sentiu
vontade de comer o sanduíche. Apanhou o avião privado em Memphis, voou até
Denver, comeu o sanduíche dentro do avião, na pista do aeroporto, e voltou.
Levou também 22 unidades para família. Custo do voo: US$ 16.000 000 para um
sanduíche. Mas tem um pormenor sobre toda essa fortuna que vale a pena observar.
Em 1975, quando Elvis comprou
aquele avião com torneira de ouro, era o homem mais famoso do planeta. Só que
por detrás das cortinas o cara já estava sendo roubado. Roubado por uma pessoa
que confiava cegamente. E a coisa iria se agravar muito nos próximos dois anos.
A pessoa que estava roubando o Elvis por era o seu próprio empresário, o
coronel Tom Parker.
E aqui vale a pena contar
quem era este homem de verdade. O coronel Tom Parker não era nem coronel, nem
americano. O seu verdadeiro nome era Andreas Cornélius Vanquick. Era holandês.
Entrou nos Estados Unidos de forma irregular, sem documento, na década de 1920.
Mudou o nome, inventou um passado americano, e ninguém nunca descobriu quem ele
era de verdade.
Aliás, descobriram, mas só
muito tempo depois. Este era o homem que tomava todas as decisões na carreira
de Elvis. E aí vem a parte mais chocante. Em toda a indústria da música
americana, nessa época, o padrão era o empresário ficar com 10%, no máximo 25%
do que o artista ganhava. O coronel Parker ficava com 50% de tudo, metade.
Em alguns contratos, chegou a
ficar com mais. Há uma coisa que ele fez em março de 1973, que, por si só,
custou ao Elvis uma fortuna pelo resto da vida. O coronel convenceu o Elvis a
vender à editora RC todos os direitos das gravações antigas, tudo que tinha
gravado até àquele dia, ‘Heartbreak’, ‘Love Me Tender’, ‘Hound Dog’, ‘Jail
House’ e ‘Rock’, tudo.
A venda saiu por US$ 5.400.000,
sendo que o coronel embolsou metade desse dinheiro. Parece muito, não é?
Aqueles direitos nas décadas seguintes, renderam para RCA mais de 30 milhões de
dólares. Tudo o dinheiro que deveria ter ido para a família do Elvis, e foi
parar ao bolso da gravadora. Em outubro de 1973, veio outro golpe.
Priscila pediu o divórcio, e
o motivo foi humilhante. Ela tinha começado a se envolver com um outro homem,
um instrutor de karaté chamado Mike Stony. E vejam o pormenor que magoa. Foi o
próprio Elvis que havia apresentado o Mike à Priscila. Foi ele que recomendou o
tipo como professor. Quando soube da traição, Elvis ficou possesso.
Chegou a chamar amigos para
falar do assunto, dizer coisas terríveis, mas, no fim, deixou - assinou o
divórcio. A partir daí, Elvis começou a se desmoronar, isolou-se em Graceland,
quase não saía da mansão, e começou a depender de um homem chamado George
Choppulos. Todos o chamavam de Dr. Nick. Era o médico particular do Elvis.
Acompanhava-o para todo o lado, em toda a turnê.
O Dr. Nick receitava
medicamentos para tudo. Remédio para dormir, remédio para acordar, medicamento
para ter energia no espetáculo, remédio para a digestão, remédio para o humor,
medicamento para a dor, calmante, anfetamina, opiácido. Olha este número. Em 20
meses antes da morte do Elvis, o Dr. Nick receitou-lhe mais de 12.000 doses de
medicamentos diferentes.
12.000. Só em 1977, no ano em
que morreu, foram mais de 10.000 doses para uma só pessoa. Hoje, isto seria
considerado tráfico de medicamento. Mas, nessa altura, o Dr. Nick conseguia
justificar tudo no papel. Em paralelo, o Elvis comia compulsivamente manteiga
de amendoim, banana frita, bacon, gelado, hambúrguer.
Chegou a pesar 110 kg. Para a
altura dele era obesidade severa. A pressão estava nas alturas, o fígado, o
coração, o intestino, tudo comprometido. E ele continuava a fazer show. subia
ao palco, gordo, suado, esquecer letra, sentar no banquinho a meio da apresentação.
Mas a plateia continuava a aplaudir. Era o rei. Mesmo doente, era o rei.
O último concerto foi em 26
de junho de 1977, numa cidade chamada Indianápolis, no estado de Indiana.
18.000 pessoas no ginásio. Elvis cantou, terminou com ‘Khelping in love’,
agradeceu à plateia e saiu do palco. Foi a última vez que o mundo viu o rei do
rock cantando ao vivo. Regressou a Graceland em julho. Quase não saía mais do
quarto.
Tinha uma nova noiva, uma
menina chamada Ginger Alden, de 20 anos, e estava a planejando se casar de
novo. Entretanto, chegou o dia 16 de agosto de 1977. Na madrugada, Elvis tinha
ficado acordado, tocando piano, jogando raquetebol com seus primos, e tomou
três doses da medicação receitadas pelo Dr. Nick.
De manhã, subiu para a casa
de banho da suíte do segundo andar de Graceland, levando um livro para ler. Por
volta das 2hs da tarde, Ginger Alden estranhou que não tivesse descido. Subiu,
bateu à porta da casa de banho, nada. Abriu a porta. Elvis estava caído no
chão, virado de barriga para baixo, não respondia. Chamaram ambulância, levaram-no
para o Hospital Batista de Memphis, mas já era tarde. Foi declarado morto às
15h30, 42 anos de idade. A morte do Elvis é polêmica até hoje. A causa oficial
divulgada na altura foi ataque cardíaco, após arritmia. Mas quando saiu o exame
toxicológico, encontraram no sangue do Elvis pelo menos 10 medicamentos
diferentes ao mesmo tempo.
Tinha codeína em quantidade
10 vezes superior ao normal. Tinha calmante, tinha morfina, tinha barbitúrico.
Para muitos patologistas que analisaram o caso, a causa real da morte não foi o
coração, foi a mistura de tantos medicamentos que o corpo não aguentou. Os
documentos completos da autópsia foram selados pela família. Só vão ser
libertados em 2027, 50 anos depois da morte.
O funeral foi a 18 de agosto
de 1977 em Graceland. 80.000 pessoas se aglomeraram na rua da mansão. A polícia
teve de fechar a avenida toda. Vinha gente de todo o país. Vinha gente de todo
o lado do mundo. Quem não conseguiu entrar, ficou chorando na ruar. O rei do
rock tinha morrido, e o mundo parou. Mas a história não terminou no caixão.
Porque quando os advogados
abriram os papéis para ver o que este homem tinha deixado para a família,
apareceu uma coisa que ninguém esperava. O homem que vendeu meio bilhão de
discos pelo mundo, que tinha um avião com uma torneira de ouro, que dava Cadillac
de presente a estranho na rua, deixou para a única filha dele uma fortuna de
cerca de 5 milhões de dólares.
Só isso? 5 milhões? Para uma
pessoa que faturou centenas de milhões na vida, como é que pode? A explicação é
triste. Mais de 70% de tudo o que o Elvis ganhou foi comido por imposto, por
dívida, por manutenção dos luxos absurdos e, principalmente pelo coronel Tom
Parker. E vejam o que o coronel fez. Seis dias depois da morte do Elvis.
Seis dias. Conseguiu que o
pai do Elvis, o Vernon, assinasse um papel novo. Esse papel dava ao coronel 50%
de tudo o que o espólio fosse render daquele dia em diante. A justificação foi para
proteger a família do Elvis. Resultado, durante anos depois da morte, o coronel
continuou a faturar em cima do morto. Tudo legalizado no papel.
A Graceland, mansão que era símbolo do Elvis,
estava sangrando dinheiro. O custo de manutenção anual era de quase US$ 500.000.
A Lisa Marie, herdeira, tinha 9 anos quando o pai morreu. Não tinha como pagar.
Em 1981, quando Lisa Marie ainda era criança, a Priscila Presley, a ex-mulher, assumiu
a administração do património.
E foi ela que tomou a decisão
que mudou tudo. Decidiu abrir a Graceland ao público, transformar a mansão num
museu. Os advogados disseram que era uma loucura, que ninguém ia pagar para
visitar casa de cantor morto. Priscila insistiu: No dia 7 de junho de 1982, Graceland
abriu as portas ao público.
No primeiro mês, pagou todo o
investimento que tinham feito para adaptar a casa à visitação. Hoje, mais de 40
anos depois, Graceland recebe mais de 500 mil pessoas por ano. É a segunda casa
mais visitada dos Estados Unidos. Só perde para a Casa Branca, a casa do
presidente americano. Priscila salvou o império do Elvis sozinha.
O que aconteceu aos luxos
absurdos? Separando em três grupos:
Ø Primeiro grupo, o que foi preservado.
A mansão Graceland está lá intacta. No
quarto que era do Elvis, no segundo andar, ninguém, pode entrar até hoje.
Decisão da família. A sala famosa chamada Jungle Room, com aquela cascata de
água dentro de casa, e a decoração tropical bizarra está igualzinha.
O Cadillac rosa que deu à mãe, Gledis, em exposição; os dois aviões dele, o Lisa Marie com torneira dourada e o Hound Dog 2, em exposição também, junto da mansão. E no jardim, num lugar chamado Meditation Garden, estão os túmulos, o Elvis, da mãe Gledis, do pai Vernon, da avó Minnie Mayi e agora também da filha Lisa Marie.
Ø Segundo grupo, o que foi vendido em leilão.
Esse é o capítulo da diáspora dos pertences do
Elvis, coisa que desapareceu na mão de um colecionador particular pelo mundo
fora. Alguns valores chocam. O jump suite branco que usou num concerto no
Madison Square Garden, em 1972, foi vendido em 2021 por 1 milhão de dólares. O
seu relógio, marca Tiffany, foi vendido num leilão em Genebra, na Suíça, em
2018. Saiu por 1.800.000, recorde mundial para relógio de celebridade. E olhem
que esta, um pote, com um pedaço do cabelo do Elvis cortado pelo barbeiro
pessoal dele, foi leiloado por 72.500 72.000 por uma tira de cabelo é muito
bizarro. O contrato original que o Elvis assinou com o coronel Tom Parker,
aquele contrato que arruinou financeiramente a sua carreira, foi leiloado por
96.000.
Ø Terceiro grupo. E aqui sim, o capítulo dos luxos verdadeiramente abandonados.
Lembram-se do segundo avião do Elvis, o Lockhe Jet Star, que comprou em 1976, aquele com sofá de veludo rosa, e pintura vermelha? Pois é, este avião ficou esquecido. Após a morte do Elvis, foi parar num deserto, no estado do Novo México, nos Estados Unidos.
Décadas ali largado, sol, chuva, vento, apanhar ferrugem no meio do nada. Em janeiro de 2023, quase 50 anos depois, um youtuber americano comprou o avião por 234.000, transformou em autocaravana, fez vídeo. Mas o caso mais triste é outro, é o Círculo G Ranch. A quinta fica numa pequena cidade chamada Horn Lake, no estado do Mississipi. 163 ha.
Elvis a comprou em fevereiro de 1967, dois meses antes de casar com a Priscila. Foi ali, naquela quinta que passaram parte da lua de mel. Tinha uma casinha branca chamada Honeymoon Corage, onde o casal ficava. Elvis vendeu a quinta em 1969, e ela passou de mão em mão, e hoje, em 2025, a Honeymoon Cotta está literalmente caindo aos pedaços.
Telhado furado, parede bolorenta, mato tomando conta. O lugar onde o rei do rock passou a noite de núpcias com a mulher mais famosa da sua vida, apodrecendo num pedaço de terra esquecido, do Mississipi. Há gente que está a tentando salvar a propriedade desde 2023, mas o tempo já levou quase tudo. Agora, voltando à herança principal, a Lisa Marie Presley assumiu a herança em 1993, no dia em que completou 25 anos.
O dinheiro, depois do
trabalho da Priscila, tinha multiplicado de 5 milhões, em 1977, para 100
milhões, em 1993. Mas a Lisa Marie tomou uma decisão em 2005 que custou caro à
família. Ela vendeu 85% da empresa Elvis Presley Enterprises para um empresário
americano, por 100 milhões de dólares.
Parecia bom negócio, não era?
Em 2015, 10 anos depois dessa venda, a Lisa Marie tinha apenas 14.000 na conta
e 16 milhões de dólares em dívidas. A herdeira do rei do rock estava quebrada.
Em 12 de janeiro de 2023, Alisa Marie morreu aos 54 anos devido à complicação
de uma cirurgia bariátrica que ela tinha feito anos antes. Quem assumiu a
guarda do legado foi a neta do Elvis, Riley Kug, atriz, filha da Lisa Maria.
Aos 33 anos, tornou-se a guardiã da Graceland.
E, depois, em maio de 2024, aconteceu uma coisa que parece um guião de filme.
Apareceu uma empresa do nada chamada Nelson Investments tentando leiloar a
Graceland nas escadarias do Tribunal de Memphis. A empresa alegou que a Lisa
Marie tinha pedido emprestado 3.800.000.000 em 2018, utilizando a Graceland
como garantia e nunca pagou.
A Riley Ky entrou em tribunal rapidamente. Disse
que era mentira, que a mãe nunca tinha pego esse empréstimo. O FBI entrou no
caso, descobriu que se tratava de fraude. Os documentos eram todos falsos. A
assinatura da Lisa Marie tinha sido falsificada. A 16 de agosto de 2024,
precisamente no 47º aniversário da morte de Elvis, o FBI prendeu o rufião - uma
mulher do estado do Missouri, chamada Lisa Jenine Findley, de 53 anos, que tinha
pelo menos seis nomes falsos.
Em setembro de 2025, a juíza
federal condenou Lisa Findley a quase 5 anos de cadeia. Quase tinha conseguido
roubar a Graceland, mas o legado do rei continua de pé. Em 2025, o nome do
Elvis ainda fatura. Só neste ano rendeu 17 milhões de dólares para família,
quase 50 anos depois da morte. O império continua a funcionar sob a guarda da
neta.
É assim que termina a história de Elvis Presley. O menino que nasceu numa casa de duas divisões em Tupelo, ao lado de um irmão gêmeo que foi enterrado numa caixa de sapatos, que se tornou o homem mais famoso do planeta. Que comprou um avião com torneira de ouro, que deu um Cadillac de presente para um estranho na rua.
Ele vivia numa mansão que
recebe meio milhão de visitantes por ano, mas morreu sozinho, aos 42 anos, numa
casa de banho do segundo andar dessa mesma mansão, cheio de remédio no sangue, tendo
sido roubado pelo próprio empresário, com a herança mais enxuta do que qualquer
pessoa podia imaginar. E, quase 50 anos depois, o que sobrou? A mansão se transformou
num museu, alguns luxos se tornaram peças de leilão.
O rei já se foi, mas todos os
dias, no pô do sol, no jardim onde ele está sepultado em Memphis, ‘Can't Help
Falling In Love’ continua a tocar, e a fila para entrar em Graceland não
diminui.
Fonte: Varient
(JA, Mai26)


