Tentativa de elite de 'civilizar' festa foi subvertida por negros e classes populares.
Mudanças da folia no país se intensificaram a partir do século 19, segundo pesquisadores.
O
que faz o Carnaval do Brasil ser o Carnaval do Brasil? A festa que se alastra
por todas as regiões do país tem raízes europeias. No entanto, a mistura de
diferentes tradições culturais, e a subversão promovida por setores populares,
são fundamentais para entender a folia de hoje, e as diferenças na forma como
ela é vivida no país em comparação com outros lugares.
A
origem do Carnaval tem uma forte ligação com a tradição europeia e, por isso,
acredita-se que a festa foi trazida à América Latina em meio à colonização da
região. Na Europa, a festa marca o período pré-quaresma. Na Idade Média, por
exemplo, esse era um momento de maior permissividade e suspensão de regras
sociais punitivistas impostas pela Igreja Católica, afirma Samuel Araújo,
professor da Escola de Música da UFRJ
(Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Segundo
Araújo, embora as regras do dia a dia não sejam completamente suspensas durante
a folia, essa característica da festa se mantém até hoje, inclusive no Brasil. ‘Ocorre
o relaxamento das normas sociais que organizam as relações sociais cotidianas’,
resume.
A
conexão histórica do Carnaval brasileiro com a tradição europeia é vista não
somente no período da festa, mas também na forma como ela ocorria. Até o século
19,
a folia no Brasil era uma derivação do entrudo, brincadeira comum em Portugal
que consistia em jogar água - e às vezes outros líquidos - em participantes nas
ruas.
Mas
esse modelo do Carnaval brasileiro começou a mudar no século 19. Martha
Abreu, professora de história da UFF
(Universidade Federal Fluminense) e da FFP/UERJ (Faculdade de Formação de Professores da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro),
afirma que o entrudo foi perseguido por ser visto como uma festa bárbara. Por
isso, para as elites brasileiras, era necessário civilizar a tradição.
‘Para as elites, um dos problemas foi quando pessoas escravizadas começaram a gostar de fazer entrudo em cima dos senhores’, afirma Abreu.
Festividades carnavalescas
reconhecidas pela UNESCO - patrimônio da humanidade
‘Essas
outras festas já tinham certo ar de Carnaval moderno. As pessoas dançavam, iam
para as ruas, cantavam, usavam máscaras, tinham barracas’, conta Abreu.
Para
impor as mudanças desejadas ao Carnaval, as elites brasileiras olharam para o
que acontecia na Europa, onde festas populares de rua também eram alvo de
controle. A década de 1870 foi a mais importante na empreitada. No Rio de
Janeiro, elites fundaram as grandes sociedades carnavalescas, associações que
desfilavam em pontos estratégicos da cidade, como na Rua do Ouvidor e na
avenida Rio Branco. Esses desfiles, compostos de carros alegóricos, iriam supostamente
ensinar a população brasileira como organizar uma folia civilizada.
Mas
a ideia fracassou já que diferentes segmentos da população também começaram a
organizar desfiles. Embora perseguidas, essas iniciativas populares passaram a
ganhar cada vez mais espaço. Agremiações foram criadas e, posteriormente, transformaram-se
em importantes escolas de samba.
‘Os
setores populares e negros subverteram esse Carnaval das elites, e trouxeram
para rua uma festa incontrolável’, diz Abreu.
Para
a professora da UFF, a folia como espaço de disputa política, onde grupos
populares buscavam fugir do controle das elites, é um importante elemento para
entender as peculiaridades do Carnaval moderno no país. ‘O sentido político do
Carnaval é muito brasileiro. Os setores negros e populares encontraram na festa
uma forma de expressão e de identidade’, continua Abreu.
Araújo,
da UFRJ, também elenca a ação de outras populações não europeias como
importante para entender a evolução da festa popular no Brasil. Isso também é
visto em Carnavais em outros países, como em Trinidad e Tobago, onde a festa
apresenta uma forte influência afro-caribenha.
‘Com o reconhecimento do Carnaval como um instante de relaxamento da ordem dominante, práticas de diferentes lugares aproveitaram esse momento e trouxeram novas contribuições ao Carnaval brasileiro’, afirma.
Fonte: Samuel Fernandes | FSP
(JA, Fev26)



