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América

 

A apresentação do porto-riquenho Bad Bunny no Super Bowl reacendeu um debate antigo que nunca perdeu a atualidade. Ao usar o termo ‘América’ para se referir ao continente, e não como sinônimo exclusivo para o país de nome Estados Unidos da América [que se trata de uma banalização incorreta], o artista tocou num nervo histórico que vai muito além da cultura pop.

O termo ‘América’ vem do nome do explorador italiano Amerigo Vespucci (1454-1512). Contratado tanto pelos governos da Espanha como de Portugal, consequentemente, seu nome foi por ambos ‘traduzido’ para Américo Vespúcio. Nomear o chamado novo continente com esse nome foi uma homenagem às suas descobertas na região, em duas viagens diferentes.

Sobre sua história, vale ler ‘Amerigo: The Man Who Gave His Name to America’. Nele, estão descritas paisagens, nativos, a natureza da América pela primeira vez aos europeus, cativando muitos leitores.

Recomendamos ainda mais dois livros que tratam desse tema.

Um deles é mais atual: ‘The End of the Myth’ (2019), de Greg Grandin, ganhador do Pulitzer. O historiador também é autor de ‘Fordlândia - Ascensão e Queda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva’, que narra a tentativa fracassada do industrial Henry Ford de construir, nos anos 1920, uma cidade-modelo no coração da Amazônia brasileira para produzir borracha.

Em ‘The End of the Myth’ (2019), Grandin reconstrói a ideia de ‘América’ como a trajetória de uma expansão. Para ele, o termo nunca foi apenas descritivo de um local. Ele esteve atrelado ao mito da fronteira para os norte-americanos, à noção de que os Estados Unidos seriam uma nação destinada a avançar continuamente rumo ao Oeste, incorporando territórios, e redefinindo seus próprios limites.

Quando a expansão continental se esgota, argumenta Grandin, a ideia de América precisaria se reinventar. Mas foi então que o termo se fixou como a ideia de um país líder global nascente.

Esse processo ajuda a explicar como o nome do continente funcionou como sinônimo de um único Estado. Não se trata apenas de hábito linguístico. É a consolidação de um projeto histórico, em que a nação se apresenta como expressão natural de todo um país em expansão. O excepcionalismo americano, tão presente no discurso político do nascimento dos EU, está enraizado nessa apropriação simbólica.

Mais América

Se Grandin mostra como o termo foi capturado por um projeto nacional, o mexicano Edmundo O’Gorman, em ‘A Invenção da América’, publicado originalmente em 1958, desmonta a própria ideia de ‘descoberta’. Trata-se de um clássico para qualquer um interessado em entender a região. Para ele, a América não foi descoberta, mas inventada como conceito.

O Novo Mundo não existia como categoria, até que a Europa o pensasse, e o nomeasse. O gesto de batizar o continente em homenagem a Vespúcio foi menos um ato cartográfico, e mais um ato intencional e político.

O’Gorman desmonta a própria ideia de ‘descoberta’. Para ele, a América foi inventada como conceito. O Novo Mundo não existia como categoria, até que a Europa o nomeasse.

O’Gorman lembra que antes do nome já existiam civilizações, línguas, impérios, e cosmologias complexas na região. A palavra ‘América’ nasceu na Europa renascentista, mas o continente não começa ali. Ele já estava povoado, organizado, e historicamente situado, muito antes de receber um rótulo europeu.


Imagem em Destaque: Veleiro Amerigo Vespucci, que carrega o nome do explorador, é usado como navio escola pela Marinha italiana e passou pelo Brasil em 2023.

Fonte: Sylvia Colombo, Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires. | FSP

 

(JA, Fev26)


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