Métodos de organização, sono de qualidade e novos aprendizados ajudam a treinar o cérebro.
Você caminha até a cozinha e, ao abrir a porta da geladeira, pensa: ‘o que vim buscar mesmo?’. Se for normal para você sofrer com esquecimentos no dia a dia, assim como perder as chaves, ou não se lembrar de uma reunião, esta matéria vai ajudá-lo a entender melhor esses episódios (e evitá-los).
Muita
gente, ao se deparar com essas situações, pensa estar com problemas de memória.
Porém, grande parte das queixas de esquecimento levadas aos consultórios
médicos é, na verdade, uma dificuldade de atenção.
Entenda:
o processamento das lembranças pelo cérebro é dividido em três fases, de acordo
com Marcelo Valadares, neurocirurgião e pesquisador da Unicamp:
1. Atenção (foco inicial),
2. Consolidação (armazenamento),
3. Resgate (capacidade de acessar a informação).
↳ É como tirar uma foto: primeiro você precisa focar no objeto para fotografá-lo (atenção), depois a foto será salva numa pasta no seu computador ou celular (consolidação) e, para vê-la de novo, você precisa encontrar o arquivo correto (resgate).
Esses
três processos formam a memória no cérebro. Isso significa que a atenção é o
primeiro passo para se lembrar das coisas.
v Se estiver desatento no momento em que deixou as
chaves em cima da bancada, você, na verdade, não se esqueceu de onde as deixou
- aquela memória jamais foi consolidada.
E
adivinha? A falta de atenção é muito comum no dia a dia. Somos bombardeados por
estímulos e informações e, em geral, estamos sobrecarregados de tarefas e
compromissos.
Esse
cenário é mais intenso para a população dos 30 aos 50 anos, que enfrenta o
ápice das responsabilidades profissionais e familiares, segundo Valadares. A
exaustão e o estresse geram uma falsa percepção de falha de memória, quando o
que ocorre é um cérebro saturado, com dificuldade para focar.
E
o que fazer? Ações do dia a dia podem ajudar a recuperar a atenção e, em longo
prazo, garantir uma memória melhor. Veja dicas dos especialistas:
Evite fazer várias tarefas ao mesmo tempo
Ser
multitarefas (‘multitasking’, em inglês) pode atrapalhar sua atenção. O cérebro humano não
processa tarefas complexas simultaneamente; ele apenas alterna o foco entre
elas com rapidez, explica a neurologista Claudia Cristina Ramos, professora de
medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).
Remova distrações
Uma
das principais formas de melhorar a memória é treinar o foco, afirma Valadares.
Para fazer isso, você deve afastar tudo o que pode te distrair da atividade que
está fazendo.
Vai
trabalhar? Deixe o celular longe ou remova as notificações do WhatsApp. Precisa
escrever algo? Desligue a TV ou a música.
Insira novos aprendizados na rotina
Muitos
acham que é preciso fazer palavras-cruzadas e jogar Sudoku para ter uma boa
memória na velhice. Se você gosta, fique à vontade para seguir jogando, mas o
segredo não está neles.
O
que realmente importa é estimular o cérebro com atividades variadas, de acordo
com Claudia. Aprender um instrumento musical, um novo idioma, ou um trabalho
manual, força o cérebro a criar conexões neurais.
O
segredo reside no desconforto do novo: o importante não é o resultado ou a
perfeição, mas o esforço do aprendizado.
Crie seus próprios métodos de organização
Anotar,
fazer listas, tentar ser mais organizado no ambiente de trabalho ou em casa.
‘Tudo isso sistematiza, tira um pouquinho do caos, e é bom para a memória
também. Seu cérebro trabalha melhor com resgate de informações se você for uma
pessoa mais organizada’, diz Valadares.
Faça um check-up de saúde
O cérebro depende do equilíbrio metabólico para funcionar bem. É importante estar com as vitaminas em dia, como a B12, e monitorar a glicemia, e a pressão arterial, indica Claudia.
Coma bem, durma bem, e se exercite
Nada
de novo por aqui. O sono de qualidade ajuda o cérebro a consolidar o que foi
aprendido no dia e ‘limpar’ o que atrapalha. O exercício é essencial para a
oxigenação cerebral, e melhora do metabolismo. Uma alimentação saudável é mais
eficiente para obter vitaminas e minerais do que suplementos milagrosos que
prometem foco.
Diferenciar
o esquecimento inofensivo de uma doença neurológica, como uma demência, é
importante. Veja sinais de alerta para procurar um médico:
o
Esquecer como
fazer uma atividade. Não se lembrar de onde deixou a chave é um lapso comum.
Agora, esquecer como dirigir um carro, ou como trocar uma lâmpada, é uma perda
de função preocupante.
o
Repetições
excessivas. Fazer a mesma pergunta várias vezes em um intervalo curto de tempo,
sem perceber que já obteve a resposta.
o
Prejuízo social
ou profissional. Quando os esquecimentos começam a impedir que você execute seu
trabalho, ou mantenha sua vida social.
Uma
piora acentuada do esquecimento também deve ser motivo para consultar um
especialista.
‘Pode ser uma lentificação do raciocínio, uma dificuldade de fala. Toda vez que a pessoa percebe ou alguém próximo aponta, é interessante ser avaliado. Porque essa diferença pode ser até subjetiva, algo que a gente nem consegue quantificar, mas talvez seja interessante acompanhar’, afirma Claudia.
Fonte:
Gabriela Bonin | FSP
(JA,
Fev26)

