Ø Sintomas como lentidão, falhas de memória, e incontinência podem indicar quadro, e não doenças neurodegenerativas
Com diagnóstico correto e cirurgia, parte dos pacientes recupera mobilidade, equilíbrio e autonomia
Alterações na marcha, memória e controle urinário
podem ter causa tratável em idosos, com melhora após intervenção adequada
Nem todo idoso que começa a andar um pouco mais devagar, esquecer compromissos, e ter escapes urinários está, necessariamente, prestes a receber um diagnóstico de demência, doença de Alzheimer ou Parkinson sem tratamento.
Embora sintomas como lentidão
ao andar, falhas de memória, e incontinência urinária, sejam frequentemente
associados a doenças neurodegenerativas, há situações em que esses sintomas têm
outra origem. Estudos clínicos mostram que, em alguns casos, os mesmos sintomas
podem estar associados a outra alteração neurológica: a hidrocefalia de pressão normal (HPN).
Pesquisas indicam que em
cerca de 0,5% a 10% dos casos dos diagnósticos inicialmente atribuídos à
demência, por exemplo, os sintomas estão, na verdade, relacionados a essa
alteração neurológica.
Nessas situações,
diferentemente dos quadros motivados por causas degenerativas, considerados
irreversíveis, a presença da HPN, e a indicação da terapia adequada, sugerem que há
boas chances de recuperar funções como mobilidade e equilíbrio, com impacto
direto na qualidade de vida.
A hidrocefalia de pressão
normal afeta principalmente pessoas acima dos 60 anos. Ela se manifesta por
três sinais clássicos:
o
dificuldade para
andar,
o
alterações
cognitivas, e
o
problemas
urinários.
Mas, como disse, parte desses
sintomas pode ser reversível.
Muitos idosos com HPN passam anos
sendo tratados como se tivessem apenas ‘dificuldade para andar da idade’ ou um
quadro demencial irreversível. A ciência mostra que, em parte desses casos, há
um componente mecânico tratável.
Quando não é uma degeneração
Como neurocirurgião,
neurocientista, e pesquisador, sempre me impressiono com o modo como o cérebro
depende do funcionamento adequado de várias estruturas para se manter ativo e
saudável. É o que se vê nesta condição, em que pequenas alterações na
circulação do líquor, o líquido que banha e protege o sistema nervoso, podem
impactar redes neurais responsáveis por andar, manter o equilíbrio, planejar
movimentos, e até organizar pensamentos. Entender esses mecanismos é mais do
que uma curiosidade científica: é a chance de devolver autonomia a quem pode
estar perdendo a própria mobilidade.
Nos casos de HPN, o líquor
deixa de circular e de ser reabsorvido adequadamente. Os ventrículos cerebrais,
cavidades cheias de líquido, aumentam de tamanho e passam a comprimir
estruturas vizinhas. Essa pressão crônica interfere no funcionamento de
circuitos neurológicos profundos ligados à marcha, ao controle postural, e às
funções executivas - as habilidades mentais associadas ao lobo frontal,
responsáveis por planejar, manter a atenção, controlar impulsos, reter
informações temporariamente, e se adaptar a novas situações.
Mas será possível reverter
esses sintomas? A questão mobiliza pesquisadores. Nesse contexto, se o
diagnóstico for preciso, e a realização de uma intervenção cirúrgica específica
ocorrer no momento adequado, há boas chances de isso acontecer.
Um grande ensaio clínico,
publicado na renomada revista científica ‘The New England Journal of Medicine’,
avaliou o efeito da cirurgia de derivação liquórica, procedimento que consiste
no implante de uma válvula para drenar o excesso de líquor, em pacientes
cuidadosamente selecionados.
Os participantes foram
previamente submetidos a testes com drenagem temporária de líquor para avaliar
a probabilidade de resposta ao tratamento. Nesse contexto, a neurociência não é
apenas tecnologia - envolve, sobretudo, uma seleção clínica cuidadosa,
orientada pela fisiologia.
O principal resultado
descrito no estudo citado foi objetivo e mensurável: após três meses, os
pacientes que receberam uma válvula funcional para drenar o líquido cerebral
apresentaram maior velocidade ao caminhar, enquanto o grupo placebo (tratamento simulado, sem efeito terapêutico real) permaneceu praticamente inalterado. A diferença foi
considerada clinicamente relevante pelos pesquisadores.
À primeira vista, pode
parecer um aspecto mais técnico. No entanto, a velocidade da marcha é um dos
indicadores mais consistentes de saúde no envelhecimento porque sintetiza, em
uma única medida, o funcionamento integrado de múltiplos sistemas do organismo -
neurológico, muscular, cardiovascular, e de equilíbrio. Alterações nesse ritmo
costumam refletir precocemente perdas nessas funções. Por isso, mais do que ‘andar
melhor’, caminhar mais rápido está associado a menor risco de quedas, maior
autonomia, e melhor prognóstico funcional.
Do ponto de vista cerebral,
os resultados sugerem que a drenagem do líquor alivia a disfunção de circuitos
fronto-subcorticais - redes de conexão entre o córtex frontal (responsável pelo
planejamento e pela tomada de decisões) e estruturas mais profundas do cérebro,
como os gânglios da base, que ajudam a dar início aos movimentos e a
coordená-los de forma adequada.
O estudo também mostrou
melhora significativa em testes de equilíbrio e mobilidade global, enquanto os
ganhos cognitivos foram mais discretos no curto prazo. Esse descompasso é
esperado do ponto de vista neurobiológico: circuitos ligados ao movimento e ao
controle da postura tendem a responder mais rapidamente à redução da pressão
ventricular, enquanto funções cognitivas, que dependem de redes cerebrais mais
amplas, e da integração entre diferentes áreas, levam mais tempo para se
reorganizar.
Em alguns casos, essa
recuperação mais lenta pode indicar que parte das alterações no cérebro já não
é totalmente reversível, especialmente quando a doença está mais avançada. Em
outras palavras, o sistema motor tende a responder de forma mais imediata, como
se fosse aliviado de uma sobrecarga, enquanto o funcionamento cognitivo, mais
complexo, pode exigir um tempo maior para se recuperar.
O que muda no cérebro
No estudo referido, as
imagens cerebrais obtidas por exames como a ressonância magnética mostraram uma
redução do volume dos ventrículos após o início do funcionamento da válvula,
indicando que o tratamento não atua apenas sobre os sintomas, mas modifica a
mecânica interna do cérebro.
Menor distensão ventricular
significa menos estiramento de fibras nervosas profundas, especialmente na
substância branca periventricular. Essas fibras funcionam como verdadeiras ‘autoestradas’,
conectando regiões frontais a centros motores, e ao controle esfincteriano - a comunicação
entre essas áreas se torna menos eficiente quando elas são comprimidas.
Aliviar essa pressão é,
portanto, como desobstruir vias de tráfego neural. Trata-se de um benefício
real, mas que também envolve riscos. A neurocirurgia de derivação não é
trivial, e o estudo também registrou efeitos adversos, como dor de cabeça por
excesso de drenagem, e pequenos sangramentos subdurais em parte dos pacientes.
Quando a marcha melhora, o
impacto vai além do movimento. Voltar a andar com segurança resgata autonomia,
reduz o medo de quedas, amplia o convívio social, e diminui a dependência - fatores
que também protegem o cérebro emocional e cognitivo.
O estudo reforça uma ideia
central da neurociência moderna: o cérebro não é apenas um conjunto de
neurônios, mas um órgão cuja função depende também de fluxos, pressões, e do
equilíbrio físico interno.
Quando esse equilíbrio é
restaurado, redes neurais voltam a operar com mais eficiência. A melhora da
marcha pode ser o primeiro sinal visível de uma reorganização cerebral mais
profunda.
Compreender isso é ampliar o
olhar sobre o envelhecimento. Nem toda perda funcional é destino. Em alguns
casos, trata-se de fisiologia alterada - e fisiologia pode, sim, ser tratada.
Cooperação cientifica internacional
O avanço do conhecimento
nessa área abre caminho para diagnósticos mais precoces, intervenções mais
seguras e, sobretudo, para devolver movimento, dignidade, e autonomia a muitos
idosos que ainda têm um cérebro disposto a caminhar, desde que o caminho esteja
desobstruído.
Esse movimento se reflete no
crescente interesse internacional pelo tema. O Brasil foi escolhido para sediar
o próximo congresso mundial da ‘International Society for Hydrocephalus and
Cerebrospinal Fluid Disorders’, que ocorrerá entre 31 de julho e 3 de agosto de 2026.
Pela primeira vez no país, o encontro reunirá especialistas de diferentes regiões para discutir os avanços mais recentes em diagnóstico, tratamento cirúrgico, biomarcadores, e qualidade de vida - consolidando o país como um dos polos de produção e difusão de conhecimento sobre distúrbios do líquor e saúde cerebral no envelhecimento.
Fonte: Fernando Gomes,
Professor Livre Docente de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina, Universidade
de São Paulo (USP) | The Conversation
(JA, Mar26)
