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Agatha Christie

Ø  Livros de mistério da autora encantam há mais de um século

Ø  Cinquenta anos depois, morte da escritora segue um enigma

 

Agatha Christie (Agatha Mary Clarissa Miller), Inglaterra, 1890-1970 

Agatha Christie sabia como poucos se esconder à vista de todos.

Ela se apresentava como uma senhora mais velha e afável, com casaco de pele, amante da jardinagem, da boa comida, da família, e dos cães. Por trás dessa aparência gentil, divertia-se tramando histórias de envenenamentos, traições e sangue —sucessos de venda.

E oferecia poucas pistas sobre o funcionamento interno de sua mente engenhosa. Christie era cronicamente tímida, mas, em 1955, foi convencida a conceder uma entrevista incomum em seu apartamento em Londres para uma reportagem de rádio da BBC.

Nela, a autora revelou como uma infância pouco convencional despertou sua imaginação, por que escrever peças de teatro era mais fácil do que escrever romances, e como conseguia terminar um livro em três meses.

Nascida em 1890, em uma família próspera, Agatha Miller teve sobretudo educação domiciliar. Quando perguntada sobre por que se dedicou à escrita, Christie respondeu: ‘Atribuo isso ao fato de nunca ter tido uma educação formal’.

‘Talvez seja melhor esclarecer admitindo que acabei indo à escola em Paris quando tinha cerca de 16 anos. Mas, até então, fora o fato de terem me ensinado um pouco de aritmética, eu não havia recebido nenhuma aula digna de nota’.

Christie descreveu a infância como ‘gloriosamente ociosa’, mas acrescentou que tinha um apetite voraz pela leitura. ‘Comecei a inventar histórias e a interpretar diferentes papéis. Não há nada como o tédio para escrever. Assim, quando eu tinha 16 ou 17 anos, já havia escrito muitos contos, e um romance longo e deprimente’.

Ela contou que concluiu sua primeira novela publicada aos 21 anos. Após várias rejeições, ‘O Misterioso Caso de Styles’ foi publicado em 1920, apresentando sua criação mais famosa, o detetive belga Hercule Poirot.

O método de envenenamento escolhido para essa história surgiu diretamente de sua experiência pessoal durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Enquanto o seu primeiro marido, Archie Christie, estava destacado na França, ela trabalhou no front interno, como enfermeira voluntária, em um hospital para soldados feridos.

Depois, tornou-se auxiliar de farmácia do hospital, o que lhe permitiu compreender melhor medicamentos e toxinas. Em suas histórias, o veneno é usado em 41 casos, entre assassinatos, tentativas de assassinato, e suicídios.

O mistério de Christie

A fórmula típica de Christie começa com um círculo fechado de suspeitos pertencentes ao mesmo meio social, e um assassinato que gera pistas até culminar em um confronto decisivo.

No centro da trama está um detetive particular, como Hercule Poirot, ou Miss Marple - Jane Marple, uma detetive amadora e idosa -, que desvenda o enigma, e revela a verdade ao grupo, em uma cena final dramática.

Essa estrutura, familiar, e ao mesmo tempo infinitamente adaptável, é parte do que torna a obra de Christie tão duradoura. Em 1926, ela publicou ‘O Assassinato de Roger Ackroyd’, livro que consolidou sua reputação profissional; naquele mesmo ano, sua vida pessoal desmoronou.

Sua querida mãe morreu, e seu marido Archie confessou estar apaixonado por outra mulher, e pediu o divórcio. Enfrentando o luto e um bloqueio criativo, Christie se tornou protagonista de um mistério.

Numa noite fria de dezembro, seu carro acidentado foi encontrado em um local isolado de Surrey (sudeste da Inglaterra), mal equilibrado à beira de uma pedreira. A polícia encontrou no veículo seu casaco de pele, e sua carteira de motorista, mas não havia nenhum sinal dela.

Iniciou-se uma das maiores buscas por pessoas desaparecidas da história do Reino Unido.

A história reunia todos os elementos de um sucesso sensacionalista: a célebre romancista policial havia desaparecido, deixando um rastro de pistas tentadoras, a filha de 7 anos abandonada, e o marido atraente envolvido com uma amante mais jovem.

Até o autor de ‘Sherlock Holmes’, Arthur Conan Doyle, interveio, contratando uma vidente para tentar se conectar com Agatha Christie por meio de uma de suas luvas.

Viagem pelo Oriente Médio

Dez dias depois, ela foi encontrada a 370 quilômetros do local do acidente, em um hotel de Harrogate, em North Yorkshire, no norte da Inglaterra.

Proliferavam as teorias: o desaparecimento teria sido causado por perda de memória, por uma tentativa calculada de constranger o marido, ou até por uma manobra publicitária.

Christie decidiu não esclarecer o mistério em sua autobiografia e se limitou a escrever: ‘Assim, após a doença, vieram a tristeza, o desespero e o desamor. Não há necessidade de ficar voltando ao assunto’.

Ela era igualmente prática ao falar dos segredos de seu método de trabalho. Em 1955, disse à BBC: ‘A verdade decepcionante é que não tenho muito método’.

‘Escrevo os meus próprios rascunhos em uma máquina antiga e fiel que tenho há anos, e considero útil um gravador de voz para contos, ou para reformular um ato de uma peça de teatro, mas não para a tarefa mais complexa de escrever um romance’.

Em 1930, Christie se casou com Max Mallowan, um arqueólogo 14 anos mais jovem, seis meses depois de conhecê-lo durante uma viagem ao Iraque.

Unidos pela paixão por culturas antigas, as viagens do casal pelo Oriente Médio inspiraram histórias como ‘Morte no Nilo’, publicada pela primeira vez em 1937.

A felicidade recém-descoberta pareceu ter um impacto profundo em sua obra: nos nove anos seguintes, ela escreveria 17 romances.

Para Christie, o maior prazer da escrita estava em conceber tramas engenhosas. ‘Acho que o verdadeiro trabalho consiste em planejar o desenvolvimento da história, e se preocupar até que tudo esteja bem polido. Isso pode levar muito tempo’.

‘Depois, quando se tem todo o material, por assim dizer, resta apenas tentar encontrar tempo para escrevê-lo’, acrescenta. ‘Três meses me parecem um prazo bastante razoável para concluir um livro, se a pessoa puder se dedicar a isso’.

Em um programa de rádio, em 1955, o empresário teatral Peter Saunders, produtor da bem-sucedida peça ‘A Ratoeira’, disse que Christie tinha um dom extraordinário para criar cenas e histórias completamente formadas em sua mente.

‘Uma vez lhe perguntei: Como vai a nova peça? Está pronta, ela me disse. Mas, quando lhe perguntei se poderia lê-la, ela respondeu com charme: Ah, eu não a escrevi. Do ponto de vista dela, a peça, do começo ao fim, já estava elaborada até o último detalhe. Escrevê-la foi apenas um trabalho físico’.

Essa avaliação foi corroborada por Allan Lane, fundador da Penguin Books, que afirmou que, em 25 anos de estreita amizade, jamais havia ‘ouvido o clique de sua máquina de escrever, apesar da quantidade e da qualidade impressionante que ela produzia constantemente’.

Ele acrescentou que, ‘enquanto Agatha Christie fazia várias coisas’ - fosse organizar as tarefas diárias de um acampamento em uma expedição ao deserto da Mesopotâmia, ou bordar à tarde -, ‘alguma nova peça, ou romance, estava sendo gestado em sua mente’.

Embora Christie acreditasse que um livro pudesse ser concluído em três meses, dizia que as peças de teatro ‘eram melhor escritas rapidamente’.

A obra mais longeva

Quando a BBC transmitiu a entrevista com Christie, em 1955, três de suas peças estavam em cartaz no West End londrino, principal circuito teatral da cidade.

‘A Ratoeira’ (The Mousetrap, em inglês) já quebrava recordes de bilheteria apenas três anos após a estreia. A peça teve origem em um radiodrama da BBC intitulado ‘Três Ratinhos Cegos’, exibido em 1947 como parte de uma noite de programação, em homenagem ao 80º aniversário da rainha Maria, bisavó do rei Charles 3º.

Segundo Christie, escrever peças de teatro era ‘muito mais divertido do que escrever livros’. ‘Você não precisa se preocupar com longas descrições de lugares e pessoas, nem com a forma de distribuir o material. E é preciso escrever muito rápido para manter o tom, e fazer com que o diálogo flua com naturalidade’.

Em 1973, Christie compareceu à comemoração dos 21 anos de ‘A Ratoeira’, no Hotel Savoy, em Londres.

Também esteve presente o protagonista original da peça, Richard Attenborough, que previu que o espetáculo ‘poderia permanecer em cartaz por mais 21 anos’.

Acrescentou: ‘Não a compararia à Catedral de São Paulo (St. Paul's Cathedral), mas os americanos certamente acham que a melhor coisa a fazer, se vierem a Londres, é assistir A Ratoeira'.

A peça se tornou a mais longeva em cartaz no Reino Unido já em 1957, e só foi interrompida pela pandemia de covid-19, em 2020. Em março de 2025, alcançou a marca de 30 mil apresentações, e segue em cartaz.

Attenborough também foi entrevistado no programa da BBC de 1955 e afirmou que Christie era ‘praticamente a última pessoa do mundo que alguém associaria ao crime, à violência, ou a qualquer coisa assustadora ou dramática’.

‘Não conseguíamos conciliar o fato de que uma mulher tão tranquila, precisa, e digna, pudesse arrepiar e fascinar pessoas do mundo inteiro com seu domínio do suspense, e seu talento para criar, no palco e na tela, uma atmosfera de terror tão intensa’.

Embora a entrevista de Christie à BBC ofereça uma visão fascinante de seus métodos de escrita - a ausência de uma técnica rígida, a confiança na imaginação, o prazer em arquitetar tramas -, o enigma da mulher por trás da obra permanece vivo. 

Fonte: Greg McKevitt | BBC Culture, FSP

(JA, Mar26)

 

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