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Eu, Improvável

Maio a setembro de 1918 Gus Dewar não se adaptou com facilidade à vida militar. Era um homem alto, desengonçado, e achava difícil marchar, prestar continência e bater com os pés no chão à moda do Exército. Quanto aos exercícios físicos, não praticava nenhum desde os tempos da escola. Seus amigos, que conheciam sua predileção por flores sobre a mesa de jantar e lençóis de linho na cama, haviam pensado que o exército seria um choque terrível para ele. Chuck Dixon, que foi seu companheiro de treinamento de oficiais comentou: -       Gus, em casa você não prepara nem o seu próprio banho. Mas Gus sobreviveu. Aos 11 anos, tinha sido mandado para um internato, de modo que não era novidade para ele ser importunado por valentões e receber ordens de superiores estúpidos. Foi alvo de alguma zombaria por causa de suas origens abastadas e de seus modos impecáveis, porém suportou tudo com paciência. Nos exercícios mais vigorosos, comentou Chuck com surpresa, a silhueta ...

Superação

Gilberto era um senhor com cerca de 40 anos. Era casado, com dois filhos em idade escolar. Tinha uma bela casa e dois carros seminovos. Até há dois anos atrás tinha um bom emprego, e um salário bem superior à média. Devido à reestruturação ocorrida na sua empresa, de repente, se viu desempregado. A única coisa de bom no que aconteceu é que fez um acordo muito satisfatório, considerando as circunstâncias de mercado, etc. e com o dinheiro recebido estava garantindo a sua subsistência e da sua família, até agora. No início, estava confiante que iria arrumar uma recolocação num curto prazo de tempo. Afinal, era um executivo experiente, bem formado, com ótimos contatos. Não havia como duvidar que tudo daria certo. Fez uma lista de todos os seus contatos. Falou com cada um contando sua história recente, a sua necessidade, e se colocando à disposição. Todos foram muito simpáticos e ficaram de ver o que conseguiam. O tempo foi passando, e nada de definitivo, que fosse a solução, a...

Aquele olhar

Um casal de jovens tinham o mesmo círculo de amizades, e, nesse grupo convivam normalmente. Num determinado dia, ele a olhou, e algo nela o atraiu de uma maneira significativa – ele nunca antes se sentira tão atraído assim por alguém. Ela, se sentindo observada, olhou para ele, e, surpreendentemente, sentiu a mesma coisa.  Ambos, sem entender o que havia acontecido, disfarçaram e continuaram a fazer o que estavam fazendo. A partir daí, continuaram a se relacionar como antes, embora, agora, prestassem mais atenção um no outro. Com o passar do tempo, os colegas comuns intuíram que, independente da negativa de ambos, havia algum futuro comum para os dois. E, começaram a promover encontros, a deixarem os dois sozinhos para conversarem, etc. A coisa foi indo até que, naturalmente, ele declarou seu amor  por ela, e ela respondeu que aquele amor era correspondido. Após um namoro demorado, afinal ambos eram jovens, veio o noivado, e acabaram se casando. Na festa, alguns...

Existência Contínua

Werner Zöllner tinha uma vida normal, em 2032, numa tranquila cidade do Sul da Alemanha. Era um jovem advogado, solteiro, trabalhando  há cerca de um ano   num renomado escritório de advocacia. Tinha diante de si a perspectiva bem definida de sucesso. Sua realização pessoal, profissional   e financeira, só dependia dele mesmo, do seu desempenho.   Estava noivo. Ele só estavam esperando sua situação financeira se consolidar, para pedi-la em casamento,   e poder realizar aquilo que era seu grande sonho: ter a própria família. Entretanto, essa normalidade foi alterada.   Num dia qualquer, indo almoçar, estava caminhando na rua, quando   se viu numa outra condição. Ele era agora era um jovem, num país diferente do seu, numa outra época. Estava em uma lanchonete, com um grupo de outros jovens. Ele tinha consciência de quem ele era então,   quem eram os demais jovens – seus colegas de faculdade, o   que estavam fazendo ali, o que teri...

Cidadania

“O historiador José Murilo de Carvalho é   um intelectual de qualidade, com respeitável obra. Num de seus livros, "Cidadania no Brasil", Carvalho toma como referência básica a linha de pensamento de T. H. Marshall , para quem a construção da cidadania se baseia na afirmação de três categorias de direitos: 1.         Civis, 2.         Políticos e 3.           Sociais. Para ser cidadão pleno, é preciso ser titular dos três direitos. Direitos civis são os fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: garantia de ir e vir, escolher o trabalho, manifestar o pensamento, organizar-se, ter respeitada a inviolabilidade do lar e da correspondência, não ser preso exceto pela autoridade competente e segundo as leis, não ser condenado sem processo legal regular. Em outras palavras, liberdade individual. Direitos político...

Família Ideal

Luis e Cláudia eram dois jovens quando se conheceram.  Participavam de diferentes grupos de amigos no Colégio, e disputavam a atenção dos demais colegas em todos os eventos. Muitas vezes criticavam um ao outro, e raramente se confraternizavam - estavam sempre em campos opostos. Passaram-se os anos, e, oportunamente se reencontraram.  Agora não eram mais aqueles jovens do passado. Ambos haviam se formado, trabalhavam como executivos bem sucedidos em grandes empresas,  e tinham  constituído família. Conversaram e ficaram sabendo que ambos haviam se separado de seus cônjuges recentemente, e que cada um havia ficado com a guarda de seus filhos adolescentes – ele com três e ela com dois. Contaram suas histórias um para o outro e, surpreendentemente, notaram que aquele antagonismo do passado não mais existia. Muito pelo contrário. Comentaram um com o outro sobre o relacionamento anterior e, coincidentemente, ambos pretendiam realizar uma ‘Mudança’ em suas vidas...

Discordância Responsável

“A ideia de democracia se baseia no reconhecimento do outro. Nada tão antidemocrático como querer desqualificá-lo. Isso vale sobretudo para aquele outro que é mais diferente de mim, mais contrário, aquele que defende ideias que eu detesto. O direito democrático é, antes de tudo, o direito do outro. É celebre a tirada de que "o inferno são os outros". Ao criá-la, Sartre nos lembrou que o outro está sempre − e inevitavelmente − a nos frustrar, e que isso ocorre exatamente por causa de sua alteridade: ele é aquele que nos dá limites. Mas é por isso mesmo − ou seja, por nos impedir de bancar os totalitários − que ele nos faz bem e que essa interação é salutar. O regime democrático alimenta sua legitimidade na deliberação e no debate. Para que esse processo seja autêntico, é necessário que os atores sociais em cena participem com mente aberta, ou seja, estejam dispostos a rever suas opiniões a partir do momento em que escutam os pontos de vista dos demais, notadamente os ...