
Muitas vezes, imagens ganham papel fundamental para a
construção da memória coletiva e nacional. E neste ano de 2022 vale a pena
lembrar da tela de Pedro Américo, que teve a infelicidade de ter sido entregue
no fatídico ano de 1888.
A obra era o resultado de uma encomenda do conselheiro do
Império, Joaquim Inácio Ramalho, que atuava como presidente da Comissão do
Monumento do Ipiranga. Buscava elevar a memória da monarquia – que passava,
aliás, por um momento difícil e delicado.
Já Pedro Américo, contratado em 1886, comprometeu-se a
entregar a obra no máximo em 3 anos. Partiu, então, para a Europa e teve sua
pintura exposta pela 1ª vez em Florença, em 8 de abril de 1888. Três meses
depois, a pintura chegava a São Paulo. No entanto, diante da situação
periclitante da realeza, as autoridades paulistas acharam por bem adiar a
inauguração – melhor que a tela ficasse guardada no museu por alguns anos até
que os ânimos arrefecessem. Afinal, o momento estava mais para enterro da
monarquia do que para a sua exaltação.
A pintura era uma versão tropical da obra de Ernest Meissonier, realizada em homenagem a Napoleão, e claramente sacrificava a geografia (e a realidade), como até mesmo o artista concordou, em nome da pátria. Por exemplo, o lugar em que Dom Pedro recebeu as cartas de seu conselheiro José Bonifácio e de sua esposa Maria Leopoldina, avisando que o rompimento era iminente, não estava localizado numa colina elevada, como destaca a tela. Mas num terreno plano que não ajudava, porém, na elevação do herói.
Por outro lado, o príncipe não se achava paramentado, e muito
menos montado num cavalo fogoso. No caso de viagens longas, o melhor era usar
uma mula. E foi em cima de uma ‘besta baia gateada’, com uma ‘farda comum’, que
a pequena comitiva, especialmente enviada (inflacionada em seu número de
pessoas pelo artista) encontrou Dom Pedro. Dessa maneira, nem o 1º imperador do
Brasil, e muito menos a pintura encomendada em sua honra, tiveram destino
fácil.
Porém, se tudo isso é correto, o certo é que a tela ganhou
uma impressionante história própria: virou uma espécie de patrimônio biográfico
e visual da Independência. Um documento visual do evento, às margens do
Ipiranga.
Foi, sobretudo, a partir dos anos da ditadura militar que o
quadro de Américo foi virando um ‘retrato fiel’ da Independência, o que,
conforme vimos, nunca foi e nem seu autor pretendeu que fosse. Os militares
ampliaram muito o desfile do 7 de setembro em 1972, e associaram a imagem de Dom
Pedro à caserna. Foi assim que a pintura esquecida ganhou estrelato, figurando
em selos, notas, cartões postais, moedas, calendários, folhinhas, leques, e
toda uma parafernália de produtos e valores, capaz de transformá-la na última
verdade sobre a Independência. Também virou mote, durante os anos 1970, para
exaltação dos ‘aliados’ e para a construção dos ‘inimigos’: os ‘subversivos
comunistas’, verdadeiros ‘algozes da nação’. Já no caso da pintura de Américo,
os vis portugueses.
Além do mais, os militares exploraram o tope da ‘Ordem e
Progresso’ para designar a suposta modernização que estariam empreendendo – e é
sempre bom lembrar que a ditadura entregou um Estado falido, e com inflação de 3
dígitos – e a ‘ordem’ que estariam promovendo. Ordem nesse caso era ditadura,
sequestro de direitos, o uso da tortura para matar, coibir e fazer desaparecer.
Foi nessa época que os diferentes governos militares moldaram também a ideia de
que não ocorrera um ‘golpe’, a partir de 1964, mas uma ‘revolução democrática’,
um ‘golpe democrático’ – como se esses termos casados dessem conta da
contradição que anunciam.
Eis assim como uma simples tela, nascida em um péssimo
momento, virou ícone da nacionalidade. Se o filho de Dom João cumpria o papel
de ‘libertador’, o mesmo se daria com os militares, que teriam – na versão por
eles elaborada e celebrada – restituído aos brasileiros a sua autonomia e
liberdade. Também se buscou transformar o traje imaginado de Dom Pedro, numa
farda militar e assim se associou o 1º imperador com os golpistas militares.
Novos regimes, sobretudo os autoritários, costumam sequestrar
símbolos pátrios – bandeiras, cores, eventos – e conceitos e eventos. O golpe
militar nada tinha de revolução, e tampouco trazia liberdade aos brasileiros e
brasileiras. Na verdade, os tolheu de todos os direitos com a implantação
sucessiva de 17 Atos Institucionais. Enfim, muitas vezes uma tela captura uma
imaginação.
Que nos seja dado nesse 7 de setembro usar a data, não como
feriado, mas como uma efeméride que vem à nossa reflexão sobre a emancipação que
queremos comemorar e projetar para o futuro.
Fonte: Lilia Schwarcz, historiadora e professora da USP (Universidade
de São Paulo). Autora de ‘Dom Pedro 2º – um monarca nos trópicos’, de 1998,
vencedor do Prêmio Jabuti de 1999; e ‘A batalha do Avaí, a beleza da barbárie:
a Guerra do Paraguai pintada por Pedro Américo’, de 2013 | Poder 360
(JA, Mai22)

