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Hebe Camargo

História Secreta de Hebe Camargo: A Rainha da TV Que Sofreu em Silêncio 

Ela era a mulher mais poderosa da televisão brasileira. Por mais de 40 anos, sentou-se no sofá mais cobiçado do país e fez qualquer assunto parecer permitido diante das câmeras. Mas, dentro de casa, atrás da porta do próprio quarto, essa mesma mulher precisou se trancar para se proteger do próprio marido.

A rainha, que falava sem medo diante de milhões, vivia em silêncio, uma guerra que ninguém via.

Muito antes de se tornar Hebe Camargo, ela se chamava Hebe Maria Monteiro de Camargo. Nasceu em 8 de março de 1929, em Taubaté, cidade do interior paulista, no Vale do Paraíba. Era a caçula de sete irmãos, filha da dona de casa católica Ester Magalhães de Camargo, e do violinista Sigisfredo Monteiro de Camargo, conhecido na cidade como Fego.

Ele tocava na orquestra do cinema local, na época ainda do cinema mudo, ganhando a vida com o próprio violino. A infância foi humilde. Quando o cinema falado chegou. e as orquestras de cinema perderam a função, Fego perdeu o emprego. e a pobreza bateu mais forte na casa dos Camargo.

Ainda assim, era uma casa cheia de música. O pai costumava acordar a filha tocando violino perto da porta do quarto. E, desde pequena, Hebe o acompanhava em apresentações da igreja, casamentos, e festas de salão. Foi ali, ao lado dele, que nasceu o gosto pelo palco e pelo microfone. Aos 13 anos, Hebe já trabalhava como doméstica, na casa de uma tia, para ajudar no orçamento da família.

Um ano depois, em 1943, os Camargo deixaram Taubaté rumo à capital paulista, atrás de uma vida melhor. Foi em São Paulo que a menina do interior, criada entre dificuldades financeiras e violino, encontrou o caminho que mudaria sua história. Aos 15 anos, em 1944, Hebe estreou como cantora contratada da rádio Tupi de São Paulo, ganhando 340 cruzeiros por mês.

Uma fortuna para quem, um ano antes trabalhava como empregada doméstica. Formou com a irmã e duas primas o quarteto ‘Dé Mifá’, cantando Sucessos das Andrew Sisters em boates da cidade, e viajou o país inteiro inaugurando emissoras de rádio ligadas aos diários associados de Assis Chateubriand. Ainda adolescente, seguiu carreira solo, e ganhou os apelidos de ‘Estrelinha do Samba’, e mais tarde a ‘Estrela de São Paulo’.

A garota que crescera ouvindo o pai tocar na porta do quarto, agora tinha voz própria, e o Brasil inteiro começava a prestar atenção. O sucesso na música logo a levou ao cinema. Ainda como cantora, participou dos filmes ‘Chuva de Estrelas’, em 1948, e ‘Quase no Céu’, no ano seguinte - ambos dirigidos por Odvaldo Viana, e mais tarde contracenou em produções do comediante Mazaropi.

 Em março de 1950, esteve entre o grupo que recebeu no porto de Santos os equipamentos vindos dos Estados Unidos para a estreia da TV Tupi, a primeira emissora de televisão da América do Sul. Semanas depois, em 15 de maio daquele mesmo ano, gravou seu primeiro disco pela gravadora Odeon, com os sambas ‘Ou José’ e ‘Quem foi que Disse’.

Convidada para cantar o hino da televisão brasileira na noite de inauguração, Hebe preferiu acompanhar o namorado da época a um compromisso no teatro, e alegou um problema na garganta para escapar do convite. Isso fez com que a amiga Lolita Rodriguez entrasse para a história, como a primeira pessoa a aparecer cantando numa tela de televisão no Brasil.

Ainda assim Hebe não ficaria de fora. Gravou para aquela mesma TV Tupi uma gravação musical, especialmente produzida para a televisão brasileira, ao lado do cantor Ivon Curi. Antes de se tornar esposa e mãe, porém, Hebe viveu um romance que marcou seu gosto por joias para o resto da vida. Ainda jovem cantora em ascensão, namorou Pepino Matarazo, herdeiro de uma das maiores fortunas industriais do Brasil, a família Matarazo.

Pepino a cobria de joias e rosas vermelhas, dando início à coleção que Hebe manteria e ampliaria pelas décadas seguintes. O relacionamento terminou quando o empresário Décio Capuano começou a se interessar por ela, e Hebe, com o mesmo orgulho que marcaria toda sua trajetória, devolveu a Pepino cada joia recebida, acompanhada de um recibo formal, encerrando o romance sem levar consigo nada que não fosse dela por direito.

Aos 35 anos, Hebe interrompeu a carreira para se casar. Em 14 de julho de 1964, vestida de rosa, porque considerava branco cafona para uma noiva que já não era virgem, ela se casou no civil e na igreja com o empresário Décio Capuano. No mesmo dia, descobriu que estava grávida, depois de duas gestações anteriores terminadas em aborto espontâneo.

13 anos após a Morte de Hebe Camargo, o filho, Marcello, quebra o silêncio e revela os segredos obscuros, as dores ocultas, e a verdadeira face da rainha da televisão, que o Brasil nunca conheceu. O que ficou escondido durante décadas, atrás dos holofotes e das joias de luxo, finalmente vem a público.

Ela parecia ter tudo: fama, dinheiro, respeito e o carinho de um país inteiro. Mas o que quase ninguém imaginava é que, por detrás do sorriso mais famoso da televisão brasileira, existia uma mulher que guardava dores, mágoas, e segredos que nunca teve coragem de contar ao vivo.

E, talvez, o mais chocante de tudo seja que estas verdades só começaram a aparecer agora, 13 anos depois da sua morte. Sim, estamos falando de Hebe Camargo, uma mulher que dominou a televisão há mais de seis décadas.

‘Desde março de 1986, estou nessa casa que tantas alegrias me trouxe. Foram quase 25 anos juntos. Fora das câmaras, ela viveu relações difíceis, decisões dolorosas e momentos que poderiam ter destruído qualquer pessoa’.

E quem está revelando tudo isto é precisamente quem mais conviveu com ela, o seu único filho, Marcello Camargo. Em entrevistas recentes, abriu o coração como nunca antes, e trouxe à tona histórias que mudam completamente a forma como víamos a rainha da TV brasileira.

Mas afinal, quem era Hebe Camargo longe dos holofotes? E que segredos ela levou consigo sem nunca o revelar ao público?

Antes de se tornar a mulher mais poderosa da televisão brasileira, antes das joias, dos sofás luxuosos, e dos convidados internacionais, existia apenas uma menina simples, sonhando com algo que nem ela própria sabia explicar.

Hebe Camargo nasceu no dia 8 de março de 1929 em Taubaté, no interior de São Paulo. Era a mais nova de sete irmãos, numa casa onde o dinheiro era pouco, mas a música nunca faltava. O pai, Fego Camargo, era violinista e cantor. E foi ali, naquele ambiente simples, que a pequena Hebe começou a compreender que a sua vida estaria ligada à arte.

Mas ninguém imaginava que aquela menina do campo estava prestes a ficar para a história. Aos 14 anos, a família se mudou para São Paulo, e foi como se o destino tivesse finalmente encontrado o caminho dela. No meio do barulho da grande cidade, Hebe encontrou o palco que tanto procurava, e não demorou. Com apenas 15 anos, já estava cantando na rádio Tupi.

E não era só talento, era presença, era carisma, era algo difícil de explicar. Bastava ela entrar no estúdio que tudo parecia rodar em volta dela. O público percebeu isto muito rápido, e os apelidos começaram a surgir. ‘Estrelinha do Samba’, ‘Estrela de São Paulo’. Mas o que ninguém sabia é que o momento que iria mudar tudo ainda estava para chegando.

Em 1950, num porto aparentemente comum na cidade de Santos, Hebe estava ajudando descarregar equipamentos. Um trabalho simples, quase insignificante, mas que escondia algo gigantesco. Aqueles equipamentos eram da primeira estação de televisão do Brasil. E foi ali, no meio daquele cenário improvável, que ela atravessou o caminho de Assis Chateubriand.

Ele olhou para a Hebe, e viu algo que todo o país ainda não tinha visto. Sem testes, sem preparação, sem guião, ele simplesmente fez um convite que mudaria tudo - participar na primeira transmissão direta da televisão brasileira. E assim, quase por acaso, Hebe Camargo entrou para a história, ainda antes de perceber o tamanho do que estava acontecendo.

Era como se ela não tivesse escolhido a televisão. E sim que a televisão é que a tivesse escolhido; e aquilo era apenas o início. Depois daquele início quase improvável, Hebe Camargo não só entrou para a televisão, mas, praticamente, ajudou a construir o que a televisão brasileira viria a ser. Entretanto, o que pouca gente sabe é que o sucesso dela não foi imediato, nem fácil.

Em 1955, ela quebrou padrão existente apresentando o primeiro programa feminino da TV brasileira, O ‘Mundo é das Mulheres’. Como é que os programas eram realizados? Existia alguma equipe que preparava as perguntas para ela? Hebe já mostrava algo que mais ninguém tinha - uma ligação direta com o público.

Mas, só anos mais tarde, em 1966, ao ingressar à TV Record, que tudo mudou de verdade. Nascia aí o programa que marcaria gerações, o sofá, o microfone, a forma única de entrevistar e, principalmente, a capacidade de fazer qualquer pessoa, famosa ou não, sentir-se completamente à vontade.

Não era apenas um programa, era um fenómeno. Presidentes da República, artistas internacionais, cantores, atores, todos queriam se sentar ali. Nomes como Neil Armstrong, Edith Piaf e Júlio Iglesias, passaram por aquele sofá. Mas o mais impressionante não eram os convidados, era ela. Hebe entrevistava, envolvia, ela provocava, ela arrancava coisas que mais ninguém conseguia.

E é aqui que muita gente começa a se perguntar como uma mulher, com tanto poder, tanto carisma, conseguiu manter tudo isto por mais de 40 anos? A resposta pode surpreender, porque por detrás daquela imagem impecável existia uma personalidade forte, intensa, e completamente imprevisível. Em 1985, por exemplo, durante uma transmissão ao vivo, Hebe simplesmente perdeu a paciência, sem aviso, sem filtro.

Ela atirou o microfone para o chão em rede nacional, revoltada com o descaso da emissora com o seu programa. Imagine isso hoje. Uma das maiores estrelas do país quebrando o protocolo ao vivo, e não parou por aí. Em 1994, em plena crise política no Brasil, Hebe fez algo que poucos artistas teriam coragem.

Perante as câmaras, sugeriu o encerramento do Congresso Nacional. E, num momento em que a população implorava por segurança. O mais curioso disto tudo é que ela nunca voltou atrás, nunca pediu desculpa, nunca suavizou o que disse, porque essa era a verdadeira Hebe, que o público só via de vez em quando. Uma mulher que falava o que pensava, sem medo das consequências. E talvez seja isso mesmo que explica por que ela foi tão amada e, ao mesmo tempo, tão incompreendida.

Mas enquanto o Brasil via esta mulher forte, poderosa e inabalável, dentro de portas a história era bem diferente. E é aqui que começam os segredos mais profundos da vida de Hebe Camargo.

Enquanto o Brasil via Hebe Camargo como uma mulher poderosa, elegante, e sempre com tudo sob controle, a realidade por detrás das câmaras era muito mais complexa. E, em muitos momentos dolorosa.

Ainda antes de se casar, Hebe viveu um relacionamento longo com o empresário Luís Ramos - uma história que durou cerca de 8 anos, marcada por traições constantes e silenciosas.

Ela sofria, mas não se expunha, guardava para si. E talvez aí tenha começado um padrão que a acompanharia durante uma boa parte da vida. Sorrir em público e lidar com a dor em silêncio.

Em 1964, ela decidiu recomeçar e se casou com Décio Capuano, um comerciante de automóveis importados. No ano seguinte, em 20 de setembro de 1965, nasceu o seu único filho, Marcello Camargo.

Para o público, aquele parecia o retrato de uma vida perfeita. Carreira consolidada, casamento estável, um filho. Mas o que acontecia dentro de casa era completamente diferente do que aparecia nas revistas e na televisão. Décio era ciumento, controlador, e não aceitava a carreira da esposa.

Em determinado momento, exigiu que Hebe deixasse de trabalhar para se dedicar exclusivamente à família. E aqui entra um dos maiores conflitos da vida dela, escolher entre o papel de mãe e esposa, ou a carreira que ela tinha construído com tanto esforço desde a adolescência. Hebe tentou ceder, tentou manter a paz, mas aquilo começou sufocar quem ela realmente era.

As discussões se tornaram constantes, vieram as humilhações, as traições, e o ambiente dentro de casa passou a ser insustentável. Até que, em 1971, aconteceu algo que mudaria completamente o rumo da vida dela. Sem fazer escândalo, sem entrevistas, sem transformar aquilo num espetáculo. Hebe tomou uma decisão silenciosa, mas extremamente corajosa.

Pegou no filho no colo e foi embora. Nesse mesmo ano veio o divórcio e aí, longe das câmaras, a rainha da TV mostrava uma força que talvez ainda fosse maior do que a que o público conhecia.

Marcelo cresceu vivendo entre dois mundos completamente diferentes. De um lado, a mãe que todo o Brasil via - glamurosa, poderosa, sempre sorridente. Do outro, a mãe dentro de casa, presente, carinhosa, e surpreendentemente simples. Em entrevistas recentes, contou algo que pouca gente imaginava:

-  ‘Hebe nunca impôs caminhos, nunca controlou as suas escolhas, nunca quis moldar quem ele deveria ser. Pelo contrário, deu liberdade. Deixou que ele fosse quem quisesse ser’.

A Hebe mãe era completamente diferente da Hebe da televisão.

Em 1973, um novo capítulo começou quando ela iniciou o relacionamento com o empresário Lélio Ravaniani. Anos mais tarde, em 1979, passaram a viver juntos, formando uma nova família. E, desta vez, tudo parecia diferente. Lélio assumiu naturalmente o papel de pai na vida dos Marcello, criando com ele uma relação de verdadeiro afeto.

Para o menino, era ele quem ocupava esse lugar. Foi um período de estabilidade, de reconstrução, algo que Hebe talvez precisasse mais do que nunca depois de tudo o que viveu. Mas, mesmo nesse momento mais tranquilo, havia algo que nunca mudava. Ela continuava a ser duas pessoas numa só. A mulher forte, decidida e inabalável que o Brasil via na televisão. E a mulher que, longe dos holofotes, carregava marcas, recordações, e dores, que quase ninguém conheceu por completo.

E talvez seja exatamente isso que torna esta história ainda mais impactante. Porque, enquanto milhões de pessoas a assistiam sorrindo, entrevistando, fazendo piadas, e encantando todo o país, ninguém fazia ideia do que ela precisava enfrentar quando as câmaras eram desligadas.

Enquanto a sua vida pessoal passava por reviravoltas intensas, a carreira de Hebe Camargo atingia um nível que poucos artistas na América Latina conseguiram alcançar. Entre os anos 1980 e 2000, ela não era apenas uma apresentadora, era praticamente uma instituição. O seu nome valia ouro, literalmente.

Hebe chegou a receber cerca de 1,5 milhão de dólares por mês, tornando-se uma das artistas mais bem pagas do continente, e seu estilo de vida acompanhava este sucesso. Mansões luxuosas, uma impressionante coleção de automóveis da marca Mercedes-Benz, avaliada em milhões, e um acervo de joias tão grandioso que só perdia para o de uma das maiores bilionárias do país.

Apenas um conjunto de esmeraldas que ela possuía estava avaliado em mais de 4 milhões de dólares. Em 2012, a sua fortuna rondava os 180 milhões de dólares. Mas, o mais curioso, é que mesmo rodeada de tanto luxo, Hebe nunca foi uma figura previsível.

Pelo contrário, ela parecia viver constantemente no limite, entre o glamour e a explosão. Não tinha medo de desagradar, de se posicionar, de bater de frente com quem quer que fosse. Aquela imagem de rainha elegante escondia uma mulher de opiniões fortes, que não aceitava ser controlada - nem por emissoras, nem por políticos, nem por ninguém.

E, talvez seja por isso que, ao longo da carreira, ela acumulou não só fãs, mas também momentos extremamente polêmicos. Só que entre todo este brilho e essas controvérsias, houve um episódio que mudou completamente a forma como ela via a própria vida.

Em agosto de 1981, Hebe embarcou num avião ao lado do seu marido, Lélio Ravani, e mais alguns amigos.

Era para ser apenas mais uma viagem tranquila, como tantas outras que ela já havia feito ao longo da carreira. Mas, em pleno voo, algo saiu errado. A aeronave sofreu uma pane inesperada. E, em questão de segundos, o que era rotina se transformou em desespero.

Pouca gente sabe disto. O avião caiu. Não foi uma turbulência, não foi um susto ligeiro, foi uma queda real. E, nesse momento, Hebe encarou algo que poucos conseguem descrever - a sensação de que tudo poderia acabar ali. Não havia câmaras, não havia público, não havia controle, apenas o silêncio do medo, e a consciência de que a vida poderia mudar num instante.

Contra todas as expectativas, ela sobreviveu. Depois do acidente, ainda abalada, Hebe disse uma frase que marcaria a sua trajetória dali em diante: ‘Vi a morte de perto’.

E talvez o mais impressionante seja o que veio depois disso. Às 23h30, toca o telefone, o filho atende a sua mãe: ‘Você está bem, filho? O nosso avião caiu’.

Ela continuou, voltou aos palcos, voltou à televisão, voltou a sorrir como se nada tivesse acontecido. Mas, será que realmente nada mudou? Ou será que a partir daquele momento ela passou a ver a vida de uma forma completamente diferente? Porque, quando alguém chega tão perto do fim, sempre algo muda por dentro.

E, no caso de Hebe Camargo, isso ainda ficaria mais evidente nos anos seguintes, principalmente quando ela teve que enfrentar o maior desafio da sua vida. A relação entre Hebe Camargo e Silvio Santos sempre foi muito mais do que profissional. Durante décadas, a SBT não foi apenas uma estação para Hebe - de certa forma era a casa dela.

Existia ali uma mistura de admiração, respeito e uma amizade que parecia inabalável. Marcello Camargo chegou a contar que a mãe tinha um carinho tão grande pelo Sílvio que, num dos momentos mais difíceis da sua vida, durante uma sessão de quimioterapia, recebeu uma chamada dele e, tomada pela emoção, simplesmente arrancou os fios do braço para atender.

Era esse o nível da ligação entre os dois. Mas nem toda a relação resiste ao tempo, sobretudo quando o dinheiro, as decisões empresariais, e orgulho, entram em cena. A partir de 2008, algo começou a mudar. O SBT passou a propor reduções no salário de Hebe, primeiro uma, depois outra, até que, em 2010, surgiu uma proposta que muitos consideraram desrespeitosa para com alguém do tamanho dela. Foi proposto cerca de R$ 250.000 mensais, muito abaixo do que ela estava habituada a receber. Para qualquer outro artista seria ainda uma fortuna, mas para Hebe aquilo representava muito mais do que dinheiro. Era reconhecimento, era valor, era história. E ela não aceitou.

No dia 13 de dezembro de 2010, no final da gravação de um especial de passagem de ano, Hebe fez algo que ninguém esperava.

Em vez de uma despedida comum, ela pegou uma carta escrita pelo seu próprio punho, e leu ao vivo diante do Brasil inteiro. Ali, sem cortes, sem ensaio, ela anunciou a sua saída da SBT, ao fim de 24 anos. Foi um choque. Silvio Santos não esperava por aquilo. O público não entendeu completamente. E, como Marcello revelaria anos depois, havia ali algo que nunca foi totalmente resolvido.

Mágoas silenciosas, sentimentos guardados, coisas que ficaram no ar. Hebe seguiu para a Rede TV, assinando um contrato de R$ 500.000 mensais. Parecia um novo começo, mas, na prática, não foi bem assim. A estrutura da estação era diferente. Os salários começaram a atrasar, aos poucos a equipe foi sendo desmontada.

E, para alguém que tinha passado décadas no topo, aquilo foi um baque profundo. Mas, o pior ainda estava para vir.

Em 2010, a Hebe recebeu um diagnóstico que mudaria tudo - um tumor raro no peritoneu, a membrana que envolve os órgãos do sistema digestivo. Vieram cirurgias, sessões de quimioterapia e, por momentos, a esperança.

Em abril desse mesmo ano, ela recebeu a notícia de que estava curada. Era como se tivesse ganho mais uma batalha, mas a vida ainda não tinha terminado de testar a sua força.

Em janeiro de 2012, novos exames trouxeram a pior notícia possível. O cancro havia voltado, e desta vez mais agressivo.

Mesmo hospitalizada, ainda encontrava forças para se conectar com aquilo que sempre foi a sua essência, a televisão.

Em julho de 2012, internada, ligou para a SBT para participar de uma votação num programa, e aproveitou aquele momento para elogiar Silvio Santos, alguém que respeita os seus empregados.

Uma frase que para muitos carregava muito mais sentimento do que parecia. E talvez fosse mesmo, porque nos bastidores algo surpreendente estava acontecendo.

Mesmo depois de tudo, Sílvio queria que Hebe voltasse, e ela também queria voltar. Era como se, no fim de tudo, ela quisesse encerrar a sua história exatamente onde começou a se sentir em casa.

No dia 26 de setembro de 2012, ela assinou a rescisão com a Rede TV. No dia seguinte, a SBT anunciou oficialmente o seu regresso, e poucos dias antes de morrer, Hebe assinou novamente contrato com a emissora.

Marcello revelou depois algo que dá um peso ainda maior a este momento. Para a sua mãe, era importante partir estando empregada, mesmo que simbolicamente, mas principalmente estando no lugar que ela mais amava. E depois, veio o silêncio. Na madrugada do no dia 29 de setembro de 2012, enquanto dormia, Hebe sofreu uma parada cardiorrespiratória.

Hebe Camargo tinha 83 anos, enfrentava problemas de saúde, estava lutando contra um cancro, teve uma parada cardiorrespiratória. O Brasil acordava sem a sua rainha. A morte de Hebe Camargo não foi apenas a despedida de uma artista, foi como se o Brasil perdesse uma parte da sua própria história.

No dia do velório, realizado no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo, milhares de pessoas passaram por ali em silêncio, umas chorando, outras apenas observando, como se ainda tentassem compreender que aquela voz, aquele riso, e aquela presença, já não estariam ali. Mas, foi nesse momento diante do caixão que algo inesperado aconteceu.

Anos depois, a empresária e amiga íntima de Hebe revelou um pormenor que ninguém sabia. Sílvio Santos se aproximou, olhou para Hebe durante alguns segundos e, em silêncio, fez algo que carrega um peso enorme. Ele pediu perdão. Disse que se arrependia de ter deixado que ela saísse da estação, que talvez pudesse ter sido diferente.

E, depois, o empresário e apresentador que veio com a mulher Iris Abravanel, num último gesto de carinho, deu-lhe um selinho, um momento íntimo, silencioso, mas que dizia tudo. Para muitos aquilo foi mais do que uma despedida. Foi um encerramento, uma reconciliação tardia, que só aconteceu quando já não havia mais tempo para palavras.

E, talvez seja precisamente isso que torna esta história tão marcante, porque algumas coisas só são ditas tarde demais.

13 anos depois, quem carrega esta história viva é Marcello Camargo. Em entrevistas recentes, ele revelou algo que tocou profundamente o público. Ele sonha com a mãe quase todas as noites. No início, eram sonhos carregados de saudade, de ausência, daquela dor difícil de explicar.

Mas, com o tempo. algo mudou. Nos sonhos, Hebe aparece o abraçando, como se ainda estivesse ali, como se nunca tivesse ido embora. E, talvez para ele, ela realmente nunca tenha ido. Marcello também abriu pormenores sobre os últimos dias da mãe, sobre o que sentiu nesse período, e sobre como lidou com tudo depois da partida.

Falou sobre a herança, sobre as decisões difíceis. Revelou que o patrimônio foi dividido com o primo que cuidava da administração, que bens como a famosa mansão, e as joias. Tudo foi vendido exceto um dos carros da mãe. Não pelo valor, mas pela história. Mas entre todas as revelações, existe uma que chama a atenção, de uma forma diferente, um sonho que Hebe nunca conseguiu realizar.

Ela queria, mais do que tudo, ter um programa de televisão em Portugal. Chegou a receber uma proposta histórica com um salário que seria o maior já pago alguma vez na televisão portuguesa. Era a hipótese de expandir a sua história para outro país, de recomeçar mais uma vez. Mas a doença não permitiu, e este sonho ficou talvez como um lembrete de que, por maior que seja uma trajetória, há sempre capítulos que nunca chegam a ser escritos.

Ainda assim, o legado que Hebe Camargo deixou é impossível de apagar. Ela começou quando a televisão ainda nem sabia no que estava se tornando. Entrevistou nomes históricos, enfrentou crises, doenças, perdas, e construiu uma fortuna gigantesca. Mas, no fim, não foram as joias, não foram as mansões, não foi o dinheiro, foi a forma como ela fazia as pessoas se sentirem, foi o sorriso, foi a coragem, foi a autenticidade.

E foi exatamente isso que fez com que, mesmo passados ​​13 anos, o Brasil ainda sinta que ela nunca se foi embora de verdade.

 

Fonte: O que Restou de Nós (1), Lições da Jornada (2)

(JA, Ago26)

 

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