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O Valioso território do Brasil

 

A ordem global que manteve o fluxo de energia, as cadeias de suprimentos funcionando a pleno vapor, e os preços das commodities estáveis ​​por três décadas está se desfazendo. Podemos ver isso nas rotas marítimas que são constantemente interrompidas. Nos preços do petróleo que disparam sempre que um estreito ou um oleoduto é ameaçado. Nas proibições de exportação de minerais críticos que se multiplicam a cada ano. Nos orçamentos de defesa que crescem exponencialmente em todos os continentes. Nos preços dos alimentos que nunca chegam a baixar. A arquitetura da globalização foi construída sobre a premissa de que os recursos críticos estariam sempre disponíveis para quem pudesse pagar o preço de mercado. Essa premissa está sendo exposta, crise após crise, como uma fantasia.

A pergunta que todo gestor sério deveria estar fazendo não é ‘quando as coisas vão se estabilizar?’. Elas não vão se estabilizar. A pergunta é: ‘onde estão os recursos indispensáveis ​​para o mundo, e quem os controla?’.

A resposta, mais do que a de qualquer outro país do planeta, é o Brasil.

Em algum lugar no Hemisfério Sul, longe dos estreitos disputados e das alianças fragmentadas, encontra-se uma democracia do tamanho de um continente, com mais terras aráveis ​​do que qualquer outro país do planeta, 12% da água doce do mundo, a matriz energética mais limpa entre as principais economias, um quase monopólio sobre minerais críticos sem os quais o mundo não pode funcionar, e milhões de barris de petróleo por dia que não precisam passar por nenhum ponto de estrangulamento controlado por uma potência hostil.

Imagine que você pudesse voltar a 1870, e comprar terras agrícolas americanas. Não porque você previu a ferrovia, o dólar ou a Constituição, mas porque você compreendeu que uma democracia do tamanho de um continente, com o solo mais fértil da Terra, mais água doce do que jamais poderia usar, e uma população jovem ávida por construir, se tornaria, ao longo do tempo, o território mais valioso da história da humanidade. Você não precisaria prever nada sobre políticas. Bastaria compreender a física da abundância desses recursos.

Essa é a posição que o Brasil ocupa hoje. E a fragmentação da velha ordem mundial está comprimindo uma tese que poderia ter se desenvolvido ao longo de vinte anos em algo que exige atenção imediata.

Este não é um argumento otimista baseado em projeções de PIB, otimismo em relação a reformas ou resultados eleitorais. Esses são ruídos. Este argumento se baseia em geologia, hidrologia, biologia e demografia. Forças que operam em escalas de tempo medidas em décadas e séculos, não em mandatos congressuais e reuniões do banco central. A tese é simples: o Brasil possui uma combinação de vantagens naturais insubstituíveis que nenhuma outra nação na Terra pode replicar, e essas vantagens estão sendo dramaticamente subestimadas por uma comunidade global de investimentos que está superexposta a um punhado de operações saturadas e estruturalmente alheia ao Hemisfério Sul.

Se você trabalha com gestão de capital, este documento tem um único objetivo: fazer com que você se sinta desconfortável com o que possui e o que não possui. 

I.            O solo sob tudo

Comecemos pelo número mais importante da economia, embora ninguém em Wall Street fale sobre ele: calorias por hectare. A civilização humana depende de alimentos. Dez bilhões de pessoas habitarão este planeta até 2050. A quantidade de terras aráveis ​​não está aumentando. Pelo contrário, está diminuindo a cada ano devido à urbanização, desertificação, salinização, e erosão do solo superficial. Os países que conseguirem produzir alimentos em larga escala serão os territórios mais valiosos estrategicamente do planeta. Não os países com os melhores aplicativos. Não os países com o maior número de doutores. Os países com o melhor solo.

O Brasil possui mais terras aráveis ​​não utilizadas do que qualquer outro país do planeta. Essa frase por si só deveria fazer qualquer gestor de alocação de terras parar. Significa que o Brasil pode praticamente dobrar sua área total cultivada, sem tocar em um único hectare da Amazônia, simplesmente convertendo pastagens degradadas no Cerrado, e em outros biomas, em terras agrícolas produtivas, utilizando tecnologia já existente.

Nenhuma outra superpotência agrícola possui essa margem de manobra. Os Estados Unidos estão com suas terras totalmente utilizadas. A China está perdendo terras agrícolas para a urbanização a um ritmo que deveria assustar seus planejadores centrais. Os ganhos de produtividade agrícola da Índia estão enfrentando retornos decrescentes diante do estresse hídrico, e da degradação do solo. A Europa está limitada pela geografia e pela regulamentação. A África Subsaariana tem potencial teórico, mas carece de estradas, portos, estruturas legais, e capital para explorá-lo em uma geração.

O Brasil já é o maior exportador líquido de alimentos do mundo. Lidera a produção mundial de soja, café, açúcar, suco de laranja, carne bovina, e aves. É o segundo maior exportador de milho, algodão, carne suína e etanol. O agronegócio gera aproximadamente 25% do PIB e mais de 40% da receita de exportação. E o setor agrícola vem crescendo em produtividade a uma taxa de 3-4% ao ano há duas décadas consecutivas, impulsionado pela ciência do solo tropical da Embrapa, pela agricultura de precisão guiada por satélite, e pela industrialização das cadeias de suprimento de proteína que se estendem dos confinamentos no Mato Grosso às mesas de jantar em Xangai.

Uma única fazenda no Mato Grosso pode ser maior que o estado de Rhode Island. Isso não é uma metáfora. É um fato literal. O Grupo Bom Futuro cultiva aproximadamente 400.000 hectares (cerca de 1.500 milhas quadradas) de soja, milho e algodão. Trata-se de uma agricultura em uma escala que investidores americanos e europeus não conseguem facilmente conceber, operando com máquinas guiadas por GPS, monitoramento por drones, e análises de solo que rivalizam com qualquer coisa em Iowa, mas em uma área que a supera em muito.

Quando dez bilhões de pessoas precisam ser alimentadas, e as terras aráveis ​​do mundo estão diminuindo, você quer ser dono do país que tem mais solo fértil não utilizado do que qualquer outro no planeta. Isso não é uma troca. É uma posição que você mantém para o resto da vida. 

II.            Água Sobre a Qual Ninguém Fala

Todo analista geopolítico sério dirá que a água é o petróleo do século 21. As guerras das próximas décadas não serão travadas por petróleo, mas sim por aquíferos. O Rio Colorado está secando. O Aquífero Ogallala, que irriga o celeiro dos Estados Unidos, está sendo esgotado a taxas que garantem uma crise em poucas décadas. O Punjab indiano, que alimenta 1,4 bilhão de pessoas, está bombeando água subterrânea tão rapidamente que os satélites da NASA conseguem medir o afundamento do solo a partir da órbita. O norte da China está construindo o maior projeto de desvio de água do mundo porque seus rios não conseguem mais sustentar sua agricultura.

O Brasil detém 12% da água doce renovável do mundo. Abriga a bacia Amazônica, que transporta aproximadamente 20% de toda a água fluvial que corre na superfície da Terra. O Aquífero Guarani, uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta, está localizado sob o Sul e o Centro-Oeste do Brasil. E, diferentemente da Califórnia, da Índia, ou da China, a agricultura brasileira depende em grande parte da chuva. Não depende dos sistemas de irrigação cada vez mais sobrecarregados que sustentam seus concorrentes. Quando esses sistemas falharem (e eles falharão), a vantagem hídrica do Brasil não apenas se mantém, como se multiplica.

A água também impulsiona a economia diretamente. A energia hidrelétrica brasileira gera aproximadamente 65% da eletricidade do país, conferindo-lhe uma das redes elétricas mais limpas do planeta. Essa base hidrelétrica, alimentada por rios que não estão secando, abastece as siderúrgicas, fábricas de celulose, fundições de alumínio, e centros de dados que constituem a economia industrial do Brasil, a um custo por quilowatt-hora que os fabricantes com alto consumo de energia na Alemanha, no Japão ou na Califórnia não conseguem igualar.

Pense no que isso significa no geral. Um país que pode produzir alimentos em quantidade ilimitada, com água em quantidade ilimitada, em terras que estão se expandindo em vez de se contraindo, em um clima que permite estações de cultivo durante todo o ano. Não existe outra grande economia no mundo com esse perfil. Nenhuma. E em um mundo onde a escassez de água já está alimentando conflitos do Tigre ao Colorado, onde o Oriente Médio está literalmente em chamas por recursos que o Brasil possui em abundância, essa vantagem não é estática. Ela está se valorizando. 

III.            A Economia Pesada Mais Limpa do Mundo

A maioria dos investidores, quando pensa em energia limpa, imagina parques eólicos escandinavos, ou painéis solares da Califórnia. Eles estão olhando para o hemisfério errado. A matriz energética do Brasil é a mais limpa do que a de qualquer grande economia industrial do mundo, e por uma larga margem.

Fontes renováveis representam cerca de 87% da geração de eletricidade do Brasil e, aproximadamente, 50% de seu suprimento total de energia primária. Para produzir um megawatt-hora de eletricidade, o setor elétrico brasileiro emite aproximadamente 60 quilogramas de CO² equivalente. Os Estados Unidos emitem 400. A China emite 650. A média da OCDE europeia é de 350. O Brasil emite menos por megawatt-hora do que qualquer nação do G20, exceto aquelas pequenas demais para terem indústria pesada.

o    87% Eletricidade de fontes renováveis

o    60 kg CO² por MWh (contra 400 nos EUA)

o    50% Fornecimento total de energia de fontes renováveis

Eis por que isso é tão importante para os investidores: o mundo está caminhando, lenta, mas irreversivelmente, rumo à precificação do carbono. O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da UE já está em vigor. Outros seguirão. Cada tonelada de CO² incorporada em um produto manufaturado acabará por ter um custo. Quando esse dia chegar, e ele chegará, cada fábrica, cada usina, cada fundição no Brasil obterá imediatamente uma vantagem competitiva sobre sua contraparte na China, Índia ou Estados Unidos, não por uma escolha política, mas por causa da geografia. Uma viga de aço produzida no Paraná com energia hidrelétrica é estruturalmente mais barata sob a precificação do carbono do que a mesma viga produzida em Hebei com carvão. Uma tonelada de celulose de Santa Catarina, gerada por cogeração de biomassa, atende a qualquer padrão europeu de sustentabilidade sem modificação. Isso não é teatro ESG. É arbitragem de custos que se ampliará por décadas.

E depois há o petróleo. O Brasil não é apenas uma história de energia limpa. É também uma história de petróleo, e essa combinação é o que a torna singular.

Os campos descobertos em 2006 sob as bacias de Santos e Campos contêm reservas estimadas entre 30 e 40 bilhões de barris de óleo equivalente. A Petrobras está investindo mais de US$ 100 bilhões nesta década para aumentar a produção, e se tornar a quarta maior produtora de petróleo do mundo, com uma produção já próxima de 4 milhões de barris por dia, e reservas comprovadas crescendo mais rápido do que a extração. E esse petróleo está entre os mais limpos do planeta. O petróleo bruto do pré-sal emite até 70% menos CO² por barril do que a média global, porque é leve, tem baixo teor de enxofre, e é extraído usando tecnologia eficiente em águas profundas.

A maioria dos países são líderes em energia limpa, ou produtores de combustíveis fósseis. O Brasil é ambos. Ele pode vender com credibilidade eletricidade limpa, biocombustíveis, e créditos de carbono, para o mundo, enquanto simultaneamente exporta milhões de barris por dia de petróleo bruto premium. E aqui está o detalhe que mais importa em um mundo de pontos de estrangulamento disputados: as exportações de petróleo do Brasil transitam pelo Oceano Atlântico. Elas não passam pelo Estreito de Ormuz, pelo Bab el-Mandeb, ou pelo Canal de Suez. Cada vez que uma crise interrompe essas vias navegáveis, e isso continua acontecendo, o petróleo bruto brasileiro se torna relativamente mais valioso porque chega aos seus clientes por meio de águas abertas que nenhum beligerante controla. Esse fato logístico vale bilhões em preços ajustados ao risco, e se valoriza a cada nova interrupção. 

IV.            O Arsenal Mineral

Existe um mapa que todo alocador deveria ter em sua parede, mas quase nenhum tem. Ele mostra, país por país, as reservas dos minerais sem os quais o mundo moderno literalmente não pode funcionar: o lítio na bateria do seu carro, o nióbio no motor do seu jato, o grafite no seu telefone, os elementos de terras raras na sua turbina eólica, o manganês no seu aço, o níquel no armazenamento da sua rede elétrica. Quando você estuda esse mapa, um país aparece entre os dez primeiros para quase todos esses minerais. Não é a China. Não é a Austrália. É o Brasil.

O Brasil controla aproximadamente 90% do fornecimento mundial de nióbio. O nióbio é um mineral crítico usado para fortalecer o aço de alto desempenho para oleodutos, automóveis, pontes, motores a jato, e foguetes. É essencial para superligas na indústria aeroespacial, supercondutores em máquinas de ressonância magnética e, cada vez mais, para ânodos de baterias de última geração em veículos elétricos. Uma única empresa, a CBMM, pertencente à família Moreira Salles (a mesma família que controla o Itaú Unibanco, o maior banco privado da América Latina), produz mais de 80% do nióbio mundial a partir de uma única mina em Araxá, Minas Gerais. A União Europeia obtém 92% do seu nióbio do Brasil. Os Estados Unidos não têm produção doméstica significativa de nióbio desde 1959. Isso não é domínio de mercado. É um quase monopólio de um mineral sem o qual o mundo moderno não pode funcionar.

Mas o nióbio é apenas a manchete. Por trás dele, encontra-se um portfólio de reservas de minerais críticos que fariam qualquer estrategista de recursos repensar suas suposições sobre o Brasil. De acordo com dados do Wilson Center e da AIE (Agência Internacional de Energia), o Brasil detém a segunda maior reserva global de níquel e grafite (em pé de igualdade com a Austrália). É o terceiro maior produtor de grafite, e está a caminho de se tornar o terceiro maior fornecedor de elementos de terras raras, e o primeiro fora da Ásia.

O Brasil produz 14% do lítio mundial e abriga um emergente ‘Vale do Lítio’ em Minas Gerais, com 11 projetos ativos. Possui a terceira maior reserva de manganês. Está entre os dez maiores produtores de cobre. Detém reservas estimadas em 21 milhões de toneladas de terras raras, 74 milhões de toneladas de grafite, e 16 milhões de toneladas cada de nióbio e níquel. Menos de 50% do território brasileiro foi mapeado geologicamente.

Leia a última frase novamente. O país que já está entre os cinco maiores produtores globais de quase todos os minerais críticos ainda não mapeou metade de seu próprio território. O potencial de crescimento não está precificado porque ainda não foi mensurado.

Isso importa enormemente agora por causa de uma palavra: China. A China domina atualmente o refino de quase todos os minerais necessários para a transição energética: 65% do refino de lítio, 91% do processamento de grafite, 97% do refino de elementos de terras raras, 70% do processamento de níquel, e 90% do processamento de manganês. A China também começou a impor restrições à exportação de grafite e terras raras. Para qualquer governo ou corporação ocidental que tente construir cadeias de suprimentos fora do controle chinês, o Brasil não é apenas mais uma opção. É a alternativa mais importante do planeta.

O desenvolvimento está se acelerando. O Brasil lançou uma Política Nacional de Minerais Estratégicos, com dezenas de bilhões de dólares em investimentos em mineração projetados para a próxima década. A CBMM está investindo em uma planta de refino de óxido de nióbio para aplicações em baterias com a Toshiba e a Volkswagen, testando ânodos à base de nióbio que carregam mais rápido, duram de três a cinco vezes mais, e são mais seguros do que as células de íon-lítio convencionais. A CBMM projeta que um quarto de sua receita virá de materiais para baterias até o final da década. Em escala comercial, o Brasil estará no centro tanto da economia dos combustíveis fósseis quanto da economia dos veículos elétricos simultaneamente.

Se o controle do petróleo pela OPEP definiu a geopolítica do século 20, o controle dos minerais críticos pelo Brasil, juntamente com seu domínio no minério de ferro por meio da Vale, sua crescente produção de lítio, suas reservas inexploradas de terras raras, e seus depósitos de grafite e manganês, o posiciona como a superpotência dos minerais críticos do século 21. E, ao contrário do petróleo do Oriente Médio, que depende de estreitos disputados e corredores instáveis, os minerais do Brasil são acessíveis, em uma democracia estável, com portos de águas profundas voltados para o Atlântico. 

V.            215 milhões de pessoas que estão apenas começando

Há um gráfico que todo investidor em mercados emergentes já viu, mas poucos realmente internalizaram. Ele mostra o PIB per capita em relação à população. Revela que o Brasil, com 215 milhões de habitantes, e um PIB per capita de aproximadamente US$ 10.000, está no mesmo ponto de inflexão que a Coreia do Sul atravessou na década de 1980, que a China alcançou no início dos anos 2000, e que os Estados Unidos atravessaram no início do século 20. É o momento em que uma população grande, jovem, e urbanizada, começa a formalizar sua economia, construir sua infraestrutura financeira, e gerar a demanda do consumidor que impulsiona décadas de crescimento exponencial.

As evidências já são visíveis. O Nubank, fundado em 2013, agora atende a mais de 100 milhões de clientes, tornando-se um dos maiores bancos digitais do mundo, construído em um país onde o oligopólio bancário tradicional manteve dezenas de milhões de pessoas sem acesso a serviços bancários, ou com acesso limitado a eles por gerações. A XP Investimentos democratizou o acesso aos mercados de capitais para uma classe média que havia sido excluída. A Creditas está construindo a maior plataforma de empréstimos garantidos da América Latina. A Stone e a PagSeguro revolucionaram os pagamentos. A Contabilizei automatizou a contabilidade para milhões de pequenas empresas. Isto não é uma bolha tecnológica. É o que acontece quando se pega 215 milhões de pessoas, dá a eles smartphones, e se eliminam os intermediários que vinham extraindo rendas de cada transação financeira há décadas. A formalização e a digitalização da economia brasileira são um processo estrutural que continuará por vinte anos, independentemente de quem seja o presidente, porque o fator determinante não é a política. É a tecnologia atendendo a uma demanda não satisfeita em larga escala.

Para cada investidor americano com alocação de capital acima da média em tecnologia dos EU, e que se pergunta de onde virá a próxima onda de crescimento do setor fintech voltado para o consumidor: ela vem do Hemisfério Sul. Vem das dezenas de milhões de brasileiros que abriram sua primeira conta bancária digital apenas nos últimos anos. Vem das centenas de bilhões de reais em FIDCs (fundos de investimento em direitos de crédito) que representam um mercado de capitais cuja existência a maioria dos investidores americanos sequer conhece. Vem de um país onde o volume de negócios de private equity continua batendo recordes, em um mercado que ainda é dramaticamente subpenetrado pelos padrões globais. 

VI.            A Balança de Carbono

Esta é a vantagem que definirá o valor estratégico do Brasil na segunda metade deste século. Hoje é especulativa. Em vinte anos, será óbvia.

A floresta amazônica armazena cerca de 150 a 200 bilhões de toneladas métricas de carbono. Aos preços atuais do mercado voluntário, aproximadamente de US$ 5 a US$ 15 por tonelada, esse carbono ‘vale’ talvez de US$ 1 a US$ 3 trilhões. Aos preços que os mercados de carbono regulamentados eventualmente atingirão, digamos, de US$ 50 a US$ 150 por tonelada, onde o EU ETS já opera, esse mesmo carbono passa a valer de US$ 7,5 a US$ 30 trilhões. Trinta trilhões de dólares em capital natural em território soberano brasileiro, atualmente avaliados em aproximadamente zero em qualquer balanço institucional do mundo.

O debate global está mudando. As conferências climáticas se concentram cada vez mais na Amazônia. O Brasil está se posicionando para responder à pergunta que importa: quem paga para manter as florestas em pé? O país está propondo mecanismos, incluindo fundos internacionais multibilionários, nos quais o mundo desenvolvido compensa o Brasil pelos serviços ecossistêmicos que suas florestas fornecem. O sucesso de um mecanismo específico é menos importante do que a direção da tendência.

O sucesso desse mecanismo específico é menos importante do que a direção da tendência. Os mercados de carbono estão se expandindo. Os pagamentos por serviços ecossistêmicos estão crescendo. Créditos de biodiversidade estão surgindo. Cada uma dessas tendências aumenta o valor econômico do capital natural do Brasil. Um investidor que aloca capital no Brasil hoje está comprando uma opção sobre a reprecificação do maior balanço patrimonial natural do planeta.

A Amazônia sozinha armazena carbono suficiente para que, a preços de mercado regulamentados, valesse mais do que o PIB de todos os países da América do Sul juntos. Esse ativo está atualmente precificado em zero. Esta é a maior assimetria de precificação da história do capital natural. 

VII.            A Necessidade Geopolítica

Isso não é mais um argumento teórico. O Oriente Médio continua em chamas. Os gargalos de energia continuam sendo interrompidos.

Os orçamentos continuam a subir. As proibições de exportação de minerais críticos continuam a se multiplicar. As tropas americanas continuam a ser destacadas para proteger rotas de abastecimento que as gerações anteriores consideravam garantidas. O custo de manter a velha ordem, em dólares, em atenção, em risco geopolítico, está a aumentar todos os anos. E cada vez que aumenta, o valor estratégico de um país que tem o que o mundo precisa, e pode entregá-lo sem depender de corredores contestados, torna-se mais óbvio.

Este é o mundo sobre o qual os teóricos da ‘quarta virada’ alertaram. A ordem pós-Guerra Fria, construída sobre a hegemonia militar americana, rotas marítimas abertas, e a suposição de que os recursos críticos fluiriam livremente, está a ser testada até à destruição. A relação EU-China está a se fragmentar. As cadeias de abastecimento estão a se reestruturar. As palavras ‘friend-shoring’ e ‘nearshoring’ aparecem agora em todas as apresentações de estratégia corporativa, e em todas as cartas anuais dos fundos soberanos. O capital norte-americano procura aliados: nações grandes, democráticas e ricas em recursos, onde se possa investir sem o risco geopolítico de depender de adversários, ou de corredores instáveis.

A lista de países que atendem a esses critérios é dolorosamente curta. A Índia preenche alguns requisitos, mas tem sua própria complexidade geopolítica, não possui excedente de alimentos ou água para exportação, e o refino de minerais críticos ainda depende fortemente do processamento chinês. A Indonésia é promissora, mas pequena em termos econômicos e institucionalmente jovem. O México é o candidato óbvio próximo, mas carece de recursos naturais. Nenhum deles pode alimentar o mundo, gerar energia limpa, fornecer minerais críticos independentemente da China E exportar petróleo por águas não contestadas.

O Brasil é a única grande democracia no mundo que é simultaneamente uma superpotência alimentar, uma superpotência hídrica, uma superpotência energética, uma superpotência mineral e uma superpotência de carbono, com rotas de exportação que não dependem de nenhum estreito ou ponto de estrangulamento contestado. Em um mundo onde as antigas suposições sobre segurança de recursos estão sendo destruídas em tempo real, essa combinação não é apenas atraente. É insubstituível. E o capital que flui para o Brasil para construir essa relação estratégica em infraestrutura, agricultura, energia e minerais, gerará retornos que são cumulativos, tanto financeira quanto geopoliticamente.

Os Riscos, sinceramente...

Nada disso significa que o Brasil seja fácil. Não é. A burocracia é enlouquecedora. A ‘custodia do Brasil’ adiciona camadas de custo e atraso a cada transação. O sistema político oscila entre populismo de esquerda e populismo de direita com alarmante regularidade, e cada ciclo eleitoral testa as instituições novamente. A corrupção, embora tenha diminuído desde a Lava Jato, é estrutural. A volatilidade cambial pode apagar retornos em dólares em episódios brutais que duram um trimestre. As lacunas de infraestrutura, particularmente na logística, onde transportar soja do Mato Grosso para o porto custa mais do que enviá-la do porto para Xangai, são reais e persistentes. A desigualdade é profunda, e gera atritos sociais que afetam todos os investimentos.

Esses riscos são reais. Merecem respeito. Eles também são a razão pela qual esta oportunidade existe.

Se o Brasil fosse fácil, teria preços eficientes. Se tivesse as instituições da Suíça, e a governança de Singapura, suas terras agrícolas seriam negociadas a múltiplos de Iowa, suas empresas a avaliações da S&P, e sua infraestrutura a retornos de primeiro mundo. O fato de isso não acontecer, o fato de os ativos brasileiros serem negociados com grandes descontos em relação a ativos comparáveis em qualquer outro lugar do mundo, não é um erro. É exatamente esse o objetivo. Está sendo pago um prêmio para tolerar a disfunção, em um país cuja riqueza física é incomparável. Essa é a definição de uma aposta assimétrica.

E considere o seguinte: cada um desses riscos diz respeito a instituições humanas: política, burocracia, governança. Cada uma das vantagens diz respeito à realidade física: solo, água, luz solar, minerais, carbono, geografia. As instituições mudam. A física não. Em um horizonte de cinquenta anos, o que você acha que vence? 

O que tudo isso significa para o seu portfólio?

Se você é um alocador institucional dos EU, um CIO de um fundo patrimonial, um diretor de um family office, ou um estrategista de um fundo de pensão, pergunte a si mesmo honestamente: qual é a sua alocação atual para o Brasil?

Para a maioria, a resposta está entre 0% e insignificante. Talvez haja exposição passiva a ações de mercados emergentes por meio de um fundo de índice que detém 5% em ações brasileiras listadas. Talvez haja uma pequena alocação em um fundo de private equity latino-americano que tenha feito um único negócio em São Paulo. Mais provavelmente, não há nada. Apenas a vaga sensação de que o Brasil é ‘complicado’ e a familiaridade confortável da mesma carteira com forte presença nos EU que todos os outros possuem.

Agora, faça a si mesmo uma segunda pergunta: em um mundo com 10 bilhões de pessoas, escassez de água, restrições de carbono, insegurança alimentar, competição por minerais críticos, e a reestruturação das cadeias de suprimentos globais, essa alocação faz sentido?

O S&P 500 está precificado com múltiplos elevados, concentrado em um punhado de empresas de tecnologia, em um país cuja terra arável e está totalmente explorada, cujos recursos de água doce estão diminuindo, cujos custos de transição energética são medidos em trilhões, e cujo exército está perpetuamente mobilizado para manter o fluxo de petróleo através de estreitos do outro lado do planeta. Você está pagando preços altíssimos por uma exposição altíssima, a uma única economia com capital natural decrescente e obrigações geopolíticas crescentes. Enquanto isso, a oitava maior economia do mundo, aquela com mais terras agrícolas, mais água, a energia mais limpa, o monopólio de minerais críticos, e o maior sumidouro de carbono, está disponível por uma fração da avaliação, com rotas de exportação voltadas para o Atlântico aberto.

Os alocadores que observam esse cenário e agem construirão posições que se multiplicarão por décadas. Aqueles que esperam que o Brasil ‘se organize’ comprarão os mesmos ativos por três vezes o preço depois que todos os outros chegarem.

Existem dois tipos de investidores: aqueles que compraram terras agrícolas americanas em 1870 porque entenderam a dotação, e aqueles que as compraram em 1920, depois que as ferrovias comprovaram a tese. Ambos ganharam dinheiro. Mas, um deles construiu riqueza geracional. A verdadeira oportunidade não está no Bovespa, que é dominado por algumas poucas megacaps bem cobertas, e já precificadas de forma eficiente. A verdadeira oportunidade está no mercado intermediário: empresas industriais familiares, cooperativas agrícolas, concessões de infraestrutura, projetos de energia, e empresas de tecnologia que são pequenas demais para os bancos de investimento globais, e complexas demais para índices passivos. São empresas com ativos reais, fluxo de caixa real e vantagens competitivas reais, administradas por operadores que vêm construindo seu sucesso silenciosamente ao longo de décadas, superando ciclos políticos, e crises cambiais. Elas não precisam de um mercado em alta para prosperar. Precisam de capital, governança e acesso a mercados internacionais.

Encontrá-las exige estar em campo, falar a língua, e construir relacionamentos que nenhum terminal da Bloomberg pode replicar. Exige entender a diferença entre uma empresa familiar no Paraná, que precisa de um sócio investidor em crescimento, e de uma ação listada em São Paulo que precisa de uma análise macroeconômica. Exige estar entre dois mundos e tornar cada um compreensível para o outro.

O Brasil não precisa se tornar um país diferente para ser a maior oportunidade de investimento dos próximos cinquenta anos. Ele precisa apenas permanecer o que já é: a grande democracia mais rica em recursos naturais do planeta, enquanto o resto do mundo lentamente percebe o valor dessa riqueza. A questão não é se essa reprecificação acontecerá. A questão é se você estará posicionado para ela quando acontecer. 


Fonte: Drew Crawford – The Case of Brazil The Greatest Bet on Earth

(JA, Abr26)

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