Pular para o conteúdo principal

Candidatos à Presidência do Brasil 2018 e a Moda


Roland Barthes (*)  disse que a roupa tem três funções: resguardar o pudor; proteger o corpo; portar adornos. Por dizer algo novo sobre a sociedade, toda moda nascente é uma revolta contra o vestuário em vigor.

E no Brasil? Como as três funções da moda estão em vigor, ela muda com lerdeza agoniante. Aguardou-se durante anos o novo, a moda que se insurgisse contra a mesmice. Em vão. É o que se vê no grande desfile de meia estação, o de modelos postulantes ao Planalto. 

  1. O pretinho básico de Ciro Gomes denota seriedade. A gravata vermelha lhe dá um toque de Trump à esquerda. Contra a loquacidade estouvada das camisas coloridas do passado, agora mostra previsibilidade
  2. Guilherme Boulos pensa como a esquerda clássica: a moda não significa, o que vale é a política. Devagarinho, porém, tem trocado camisetas por colarinhos. Detalhe: usa as camisas fora da calça, como nos Jardins. O PSOL debaterá se ele deve ir de terno aos debates na tevê.
  3. Marina Silva tem inspiração étnico-natureba: tons foscos, xales, túnicas desestruturadas, estampados, batom cor de amora. O coque com presilha lembra o de Frida Kahlo.
  4. Jair Bolsonaro deixa o cabelo tingido cair na testa, o que lhe confere frescura à figura sessentona. A indumentária uniforme realça o gestual bélico-buliçoso. Gargalha, bate a mão na mesa, aponta os braços como se portasse um fuzil fálico.
  5. Manuela D'Ávila é puro arejamento visual. Seu cabelo está com a cor natural, repicado e curto atrás. Ela tem umas dez tatuagens, mas não as ostenta. Usa as bijuterias e lenços mais charmosos da campanha.
  6. Geraldo Alckmin herdou o guarda-roupa de Campos Salles. São paletós lúgubres, camisas imaculadas, calças com vinco. Ele não afrouxa o nó da gravata nem para trocar dous dedos de prosa. Para não pegar friagem, porá ceroulas no inverno —como recomendava tia Maricota, lá de Pinda.
  7. Henrique Meirelles tem uma fortuna de R$ 960 milhões e os ternos mais mal cortados da República.
  8. Lula está solto nas imagens de Ricardo Stuckert, seu fotógrafo oficial. Nelas, as partes brancas ganham detalhes e as sombras são atenuadas. Velhinhas beijam, crianças apalpam, multidões cercam o patriarca messiânico, que se sacrifica e é venerado.






Imagem: Bruna Barros

Fonte:  Mario Sergio Conti   |   FSP





   
‘Sistema da Moda’, de Roland Barthes, Editora Martins Fontes

 (*)  Em 'O sistema da moda', Roland Barthes elabora uma análise semântica do vestuário a partir de artigos da imprensa, examinando a estrutura e o significado do discurso sobre a moda. Barthes desvenda um sistema de significações e a submete pela primeira vez a uma verdadeira análise semântica: como os seres humanos constroem sentido com o vestuário e a fala?   Este livro, que se tornou um clássico, é um dos exemplos mais brilhantes de aplicação da semiologia a um fenômeno cultural.







(JA, Mai18)

Postagens mais visitadas deste blog

100 anos do Leblon - os encantos e história do bairro mais charmoso do Rio

Cenário de inúmeras novelas e inspiração de muitos compositores, o local tem centenas de moradores famosos Quando se pensa no bairro do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, vem na mente o cenário de inúmeras novelas de Manoel Carlos e, claro, a fonte de inspiração de muitos compositores e poetas. Como defini-lo? Calmo e elegante. Ele - localizado entre Vidigal, Gávea e Ipanema - é conhecido por seus ótimos restaurantes, comércio forte, vida noturna agitada, e pelos famosos que circulam por lá, e pelo seu cartão-postal: o mar e o Morro Dois Irmãos. A beleza natural juntamente com outros atributos fazem da localidade uma das mais cobiçadas da cidade e um dos bairros mais caros do país. No último dia 26 de julho, o Leblon completou 100 anos de histórias. Francisca Ornellas Teles e Charles Le Blond Charles Le Blond, 1804-1880, chegou ao Rio de Janeiro em 1830, proveniente de Marselha fundando a empresa ‘Navegação Aliança’ com a finalidade de explor...

Petit, o Menino do Rio

  Petit, na verdade José Artur Machado foi o surfista talentoso de espírito livre que nunca cresceu. Com seus 1,80 de altura, loiro de pele bronzeada e olhos verdes,  tornou-se muito conhecido pelos frequentadores da praia do Pier e Ipanema. Principalmente pelas jovens, que o apelidaram de Mel. Seu jeito de viver a vida livremente inspirou Caetano que depois de horas de conversa com Petit escreveu a música eternizada na voz de Baby. Petit representou como ninguém a geração saúde, termo que aliás não existia. Praticante de jiu-jitsu, cuidadoso com seu corpo, surfista e modelo free lancer.   O triste fim de Petit Apesar de ter sido personagem de uma música tão famosa ele não mudou seu comportamento. Levava a vida com naturalidade. Por algum motivo começou a usar drogas, talvez pelas influências ou por própria escolha. Isso quebraria um pouco de seu encanto sobre os frequentadores das praias cariocas? Não podemos afirmar. Mas um trágico acidente de moto oc...

Família Jafet, 133 anos em São Paulo

Residência família Jafet, 730 A Família Jafet é uma família de origem libanesa radicada na cidade de São Paulo ao final do século XIX . Pioneiros da industrialização paulistana, seus membros criaram um dos maiores grupos empresariais familiares do Brasil, com empreendimentos no ramo têxtil, mineração, metalurgia, siderurgia, serviços financeiros e navegação. Dedicaram-se ativamente à filantropia, tendo liderado a fundação de instituições como o Hospital Sírio-Libanês, o Clube Atlético Monte Líbano, o Clube Atlético Ypiranga e o Esporte Clube Sírio. Contribuíram com doações significativas para o Hospital Leão XIII (hoje São Camilo) , o Museu de Arte de São Paulo, e a Universidade de São Paulo. Os Jafet foram responsáveis pela urbanização do histórico bairro do Ipiranga, onde instalaram suas primeiras unidades fabris, realizaram obras de infraestrutura e construíram palacetes de grande valor arquitetônico, diversos deles hoje tombados. ‘Os Jafets todos são bons, t...