Relação com João, são Pedro e santo Antônio
Padroeiros da Igreja Católica foram a
inspiração para os festejos que acontecem neste mês
Nem só de maçã do amor e pamonha é feita uma festa junina. Há muita cultura envolvida nesta celebração, a começar justamente pelo cardápio de gostosuras servidas nas barracas, que foi criado para homenagear a culinária caipira, com derivados do milho. A música escolhida para animar as festividades também tem a mesma origem na tradição dos caipiras, vindos de lugares como o interior de São Paulo e de Minas Gerais
Além de tudo isso, você sabia
que as festas juninas - que chegaram ao Brasil trazidas pelos costumes dos
portugueses - têm uma relação profunda com a Igreja Católica? Por isso elas
também são chamadas de ‘festas de São João’, já que a data em que costumam
acontecer é sempre próxima do Dia de São João (24 de junho), comemorado pelo
catolicismo.
São João é tido como um dos
padroeiros das festas juninas brasileiras, junto de santo Antônio e são Pedro.
Padroeiros são santos escolhidos como protetores de um lugar, de uma profissão
ou até mesmo de um país inteiro. Para saber mais sobre a história destes três
santos católicos, conversamos com padre
Rodrigo Pires Vilela da Silva, doutor em teologia e professor da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.
‘A festa junina é uma riqueza do nosso patrimônio cultural, uma festa que reflete não só a vida de três grandes homens, mas também a capacidade do nosso povo de ler a realidade com muita sensibilidade’, afirma. Para ele, comemorar as festas juninas é uma forma de preservar a memória cultural brasileira.
A seguir, o que ele diz a respeito de são João, santo Antônio e são Pedro.
São João
Escultura que representa são João e Jesus Cristo feita
por Aleijadinho...
No Brasil, principalmente na época dos nossos antepassados de 200 ou 300 anos atrás, os primeiros grupos que tentaram se estabelecer como comunidades viam em são João uma figura que carregava muitos símbolos que faziam sentido naquela época. Homem e Mulher de 300 anos atrás tinham como orientador da vida o ritmo do céu. Eles conheciam praticamente todas as estrelas e planetas numa noite escura.
A noite era vista de forma
diferente. Os antigos sabiam, inclusive, que os dias e noites tinham tamanhos
diferentes ao longo do ano. No Brasil a noite mais escura do ano era a de 24 de junho, Dia
de São João. No imaginário daquelas pessoas, são João era tão poderoso que
evitava que a escuridão que crescia até aquele dia passasse a dominar o mundo.
Devido ao fato de são João
estar associado ao fortalecimento da presença da luz no mundo escuro, é muito
comum e fácil de entender por que ele é o único santo de quem a chegada é
celebrada com a formação de uma fogueira à noite.
Santo Antônio
Havia um costume muito comum na Idade Média, que era de retratar muitos santos com Jesus Cristo pequeno no colo. Isso simbolizava que eles levam Jesus para as pessoas. São Cristóvão é outro exemplo.
Santo Antônio também acabou
levando a fama de casamenteiro. Isso acontece porque, em seu contexto, ele
ajudou a acabar com a regra de que uma pessoa só poderia se casar se pudesse
pagar pelo consentimento de outra - é o que geralmente se entende pela regra do
‘dote’.
O fato de santo Antônio lutar
contra essas regras, que amarravam casamento a dinheiro, passou a mostrar para
as pessoas que casamento é mais do que um contrato, é um vínculo de amor e
compromisso.
Santo Antônio também era
conhecido pela sua capacidade de encantar as pessoas pela fala. A sua pregação
atraía multidões. O milagre mais simbólico na vida do santo é a lenda na qual
ele fala aos peixes: quando as pessoas de um determinado lugar passaram a
recusar a sua pregação, ele foi até o lago, e pregou aos peixes.
Simbolicamente, isso significa que a força de sua fala estava ligada ao
evangelho, e não ao valor da sua audiência.
São Pedro
São Pedro, que foi anunciado por Jesus Cristo como o líder dos apóstolos após a sua partida, recebeu do próprio Cristo as ‘chaves do reino dos céus’. Essa passagem bíblica inspirou a mentalidade popular de que são Pedro teria a chave do céu, e por isso seria, não só uma espécie de ‘porteiro celeste’, recebendo as pessoas depois que elas morrem, mas, por tabela, ele teria o controle dos eventos climáticos como um dos seus ofícios.
Após a ressurreição de
Cristo, ele teria recebido a responsabilidade de liderar a Igreja, o que passou
a ser tarefa de todos aqueles que ocuparam o mesmo papel que ele diante da
comunidade cristã.
O fato mais marcante na vida
de Pedro é a tentativa dele de andar sobre as águas, pedindo a Jesus que isso
também lhe fosse possível. Ele teve medo quando um vento bateu, e então,
afundou como uma pedra. Mas esse fato não termina em tragédia, porque Jesus
socorre Pedro.
A beleza é o pedido de
socorro atendido prontamente por Cristo, que não abandonou Pedro à própria
sorte e com medo.
Imagem em Destaque: Pintura
Militão dos Santos.
Fonte: Marcella Franco | FSP
(JA, Jun26)



