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Lembranças



A. é uma senhora entre quarenta e cinquenta anos. Há 30 dias está internada na UTI de um hospital, em coma, devido a uma disfunção cerebral.
Ela não tem parentes e nem amigos próximos. Quando adoeceu, foi socorrida pelos funcionários do prédio onde mora há muitos anos.  A única visita que tem recebido regularmente no hospital é da Zeladora do prédio. Essa senhora a vem ajudando nos últimos meses, dentro de suas possibilidades. Quando visita A., embora não seja muito conveniente por se tratar de um hospital, tem trazido a gata de A., imaginando que faria bem pois ambas eram muito apegadas entre si.  Nessas ocasiões, a gata sobe no leito, põe as  suas duas patinhas dianteiras em torno do pescoço de A., acomoda-se, e fica assim durante toda a visita.
Os médicos sabem o que ela teve. Entretanto, desconhecem a causa, e o motivo dela ainda estar em coma. Os exames mostram que ela  superou o trauma, sem sequelas, e que, aparentemente, está saudável.
Num determinado dia, assim do nada, ela começou a sair do coma. A enfermeira responsável ficou junto dela, acompanhando o processo. Foi acordando aos poucos, começando a se movimentar, abrindo dos olhos, e demonstrando estar estranhando tudo.
Assim que se recompôs, meio agitada, contou para a enfermeira que havia sido visitada por um anjo, por várias vezes, durante o seu ‘sono’. Ele a abraçava carinhosamente e lhe sussurrava coisas junto ao seu ouvido.  A. não se lembrava de tudo do que ele lhe havia dito, mas uma parte ficou bem registrada. O anjo lhe disse que, para viver, ela precisaria produzir e guardar novas e boas lembranças; as que ela tinha eram muito antigas, vencidas, quase esquecidas.
As lembranças, disse ele, têm papel importante na nossa vida. De certa forma, nós somos o que somos devido a elas. Elas entram na nossa realidade passada, que por sua vez influência a presente,  e naturalmente, a futura.
As boas lembranças antigas perdem a sua energia e já não trazem mais aquelas sensações de prazer, de bem estar, com a mesma intensidade de antes. Pelo contrário, a intensidade vai diminuindo, diminuindo, até se esgotar. É a isso que se chama de lembrança vencida.
Com as lembranças vencidas, o nosso presente e o nosso futuro ficam prejudicados, e não conseguem ser o que deveriam, poderiam ser.   
Mais tarde, A. refletindo sobre o que o anjo lhe havia dito, teve que reconhecer que ele estava certo. Realmente, após o falecimento do seu marido, há uns dez anos atrás, ela havia parado no tempo. Não tinha vontade de se relacionar com ninguém, nem interesses pessoais, nada.  
Por que será que ela ficou nesse estado? Afinal, seu casamento, especialmente nos últimos anos, não havia sido uma maravilha. Era um relacionamento quase de conveniência. Sem afeto genuíno, sem amor, sem paixão.
Só então ela percebeu que o que aconteceu com ela, vinha acontecendo desde há muito mais tempo. Ela havia se acomodado naquela rotina que viveu por tantos anos. Viveu?  Concluiu que então apenas respirava; vivia sim, mas apenas fisicamente.  Nada a encantava, despertava o seu interesse, a motivava. E foi isso que acabou por trazê-la a este hospital. Ela não não tinha boas lembranças recentes porque não as criava.
Assim que recebeu alta, voltou para casa, determinada a dar um jeito, a dar um novo rumo para a sua vida.
Pensou em tudo que alguma vez havia despertado o seu interesse. E, lá do fundo do baú, lembrou que, numa determinada época, quando ainda era jovem, havia feito um curso de artes plásticas, e que até já havia pintado alguns quadros, que já nem sabia onde estavam.
Oportunamente, se matriculou numa escola de artes, tradicional na cidade, para se atualizar na matéria. Conheceu novas técnicas, fez amizades e, logo logo, estava produzindo.  Seus mestres reconheceram nela um talento que ela nem suspeitava ter.
Participou de algumas exposições na cidade onde vivia, em outras cidades e, mais tarde, também, em outros países.
Atualmente, não pode ainda se considerar famosa, mas consegue auferir uma boa renda com a venda de suas obras, especialmente numa galeria onde expõe regularmente.  Isso lhe permitiu mudar para um apartamento maior, numa outra cidade, onde a cultura é mais valorizada, onde os eventos artísticos são frequentes.
Afinal, deu uma repaginada na sua vida. Em suas viagens pelo exterior descobriu que conhecer outras culturas e a história de outros povos, é muito interessante. E passou a se dedicar a isso também.
Agora, ela não se lembra mais das suas boas lembranças vencidas - afinal elas estavam vencidas -; e quase não tem espaço para guardar as novas, que se acumulam cada vez mais. Quase não tem tempo de lembrá-las pois, na maior parte do tempo, está vivendo.
É, as boas lembranças são assim; só nos lembramos delas quando deixamos de produzir novas e melhores. E, como uma lembrança puxa a outra...

"Para viver é preciso mais do que existir. E preciso que tenhamos alguma ficção a nosso respeito, é preciso ter histórias. E, quando o círculo de cada história se fechar, que se encerre ali, pois algo que se tinha a dizer foi dito. Enfim, tem que haver um desfecho da trama cujas sementes foram plantadas inicialmente, foram cultivadas no entretanto e, finalmente, frutificaram, resultaram num enredo interessante, no qual fomos os protagonistas."



(JA, Jan15)


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