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Doutrina Monroe

 A Doutrina Monroe foi instituída pelo presidente norte-americano James Monroe, em 1823, e definiu a política dos Estados Unidos contra a interferência europeia na América.

 

James Monroe, 1758-1831 - 5º Presidente NA.

A Doutrina Monroe foi estabelecida pelo presidente norte-americano James Monroe em discurso proferido no Congresso dos Estados Unidos, em 1823. Ele definiu as ações que seu governo tomaria para impedir que a Europa interferisse no processo de independência na América, especialmente na América Latina.

Essa doutrina foi definida com o seguinte lema: ‘América para os americanos’. Sem a interferência europeia, os Estados Unidos poderiam exercer sua influência sobre as nações independentes em continente europeu.

Contexto

Para compreender o contexto histórico da Doutrina Monroe, é preciso observar os acontecimentos ocorridos tanto na América quanto na Europa. No começo do século 19, Europa e América estavam passando por grandes mudanças.

No Velho Mundo, a Era Napoleônica teve fim em 1825, e as monarquias que foram destituídas após as invasões de Napoleão Bonaparte se reuniram em Viena, Suíça, para um congresso que discutiu o destino do continente após esse período tão turbulento, que começou em 1789 com a Revolução Francesa. A restauração desses reinos modificou o mapa político da Europa.

O domínio francês sobre a Europa alcançou os reinos da Península Ibérica. Tanto portugueses quanto espanhóis estiveram sob julgo napoleônico. Essa modificação dentro da política de Portugal e Espanha teve consequência em suas colônias na América. Os ideais iluministas antiabsolutistas, e a força revolucionária de liberdade, fraternidade e igualdade, somados à ausência de um monarca absolutista, fizeram com que os colonos latino-americanos lutassem pelas suas independências.

As nações europeias, dominadas por Napoleão Bonaparte, não puderam coibir essas manifestações libertárias em suas colônias. Entretanto, logo após a queda do imperador francês, além de restaurarem a ordem anterior à Revolução Francesa, essas monarquias tentaram impedir as independências coloniais.

Os Estados Unidos havia se tornado independente em 1776, e despontaram como referência a outras colônias latino-americanas que pretendiam seguir o mesmo caminho, em direção à independência. Os estadunidenses avançaram territorialmente para o oeste, mas não queriam perder de vista os acontecimentos na Europa e na América Latina.

Nesse contexto, as antigas Treze Colônias inglesas passaram a juntar forças para evitar que a restauração das monarquias absolutistas na Europa voltasse a interferir no rumo das nações latino-americanas que se tornavam independentes.

Destino Manifesto 

Algum tempo depois de conquistar sua independência, os Estados Unidos começaram a investir em sua expansão territorial. Assim, os norte-americanos trataram de conquistar novas terras para o oeste, em direção ao oceano Pacífico. Novamente, é necessário destacar que os eventos ocorridos na Europa auxiliam na compreensão da expansão territorial empreendida pelos Estados Unidos.

Essa expansão não se baseou apenas em conquista territorial e busca por novas riquezas. Outros elementos também se tornaram motivadores para que se povoasse as novas terras conquistadas. A religião e a cultura se tornaram peças fundamentais na expansão norte-americana. A justificativa para isso foi chamada de Destino Manifesto, ou seja, a crença de que os Estados Unidos tinham a missão de levar para os povos, tanto para os indígenas que estavam em suas terras a oeste, quanto para os latino-americanos que conquistavam suas independências, a civilização, a democracia, e a garantia de liberdade.

Os Estados Unidos, que já eram uma referência no processo de emancipação política, impunham sua força na América contra qualquer tentativa de inferência vinda da Europa. Essa suposta missão norte-americana de disseminar o progresso, a civilização, e o cristianismo, não se restringiu apenas aos indígenas, que tiveram suas terras tomadas pelos Estados Unidos durante sua marcha para o oeste, já que ela afetou toda a América Latina.

As antigas colônias europeias se tornaram independentes nas duas primeiras décadas do século 19 no âmbito político. Economicamente, as novas nações latino-americanas apenas mudaram a dependência das monarquias portuguesa e espanhola para os Estados Unidos.

Proposta da doutrina de Monroe

James Monroe foi o quinto presidente dos Estados Unidos e governou o país entre 1817 e 1825. Ele é considerado um dos pais fundadores da nação, e teve um papel importante no processo de independência das Treze Colônias. Monroe governou os Estados Unidos no período inicial de expansão territorial para o oeste.

Em 2 de dezembro de 1825, ele fez um discurso no Congresso norte-americano estabelecendo os princípios daquilo que seria chamado de Doutrina Monroe. Esses princípios tinham como norteadores a liberdade de todos os americanos, e a não interferência europeia no continente.

Com esse propósito, a Doutrina Monroe reforçou o poder dos Estados Unidos sobre a América ao conquistar novos territórios a oeste, e expandir suas fronteiras para a costa do Pacífico. Além disso, por meio dessa doutrina, os norte-americanos evitaram que as monarquias europeias, que restauraram seus territórios após o fim da Era Napoleônica (1815), impedissem as independências de suas colônias na América.

Havia a clara tentativa europeia de recolonizar o continente. Por isso, a ideologia ‘América para os americanos’ se adequou ao contexto daquela época, e colocou os Estados Unidos como nação líder, e grande potência garantidora da liberdade e democracia na América.

Objetivos da Doutrina Monroe

Alguns críticos da política norte-americana de expansão territorial afirmam que a Doutrina Monroe tinha como real objetivo a garantia de que apenas os Estados Unidos deveriam exercer influência sobre as novas nações latino-americanas, seja nas questões políticas, econômicas, ou culturais. Tal doutrina garantiria a hegemonia norte-americana sobre o continente. Além disso, o lema de ‘América para os americanos’ seria uma referência apenas aos americanos residentes nos Estados Unidos.

Outro interesse advindo dessa ideologia foi a expansão territorial. Os norte-americanos se aproveitaram das mudanças ocorridas na Europa logo após o final da Era Napoleônica, para conquistar as terras até então pertencentes a nações europeias como França e Inglaterra. Além da conquista da terra, os Estados Unidos afastariam qualquer interferência da Europa em sua marcha parta o oeste.

Resumindo, pode-se afirmar que os reais objetivos da Doutrina Monroe seriam em benefício apenas dos americanos dos Estados Unidos, e não dos americanos de todo o continente.

Consequências da Doutrina Monroe

A prática da Doutrina Monroe impediu que a Europa reconquistasse suas colônias na América, justamente no momento em que as monarquias restauravam seu domínio após o fim da Era Napoleônica. Além disso, os Estados Unidos concluíram sua conquista territorial dominando os lados leste e oeste da América do Norte. Ao alcançar a Califórnia, os norte-americanos descobriram grandes minas de ouro, o que trouxe benefícios econômicos para o país.

O rápido desenvolvimento econômico dos Estados Unidos foi diretamente favorecido pela Doutrina Monroe. A crença em levar aquilo que seriam ideais civilizatórios para outros povos promoveu também a conquista de novas terras, e o desenvolvimento tecnológico na região, como a construção de linhas férreas que possibilitaram maior rapidez na comunicação.

Por meio da Doutrina Monroe, os Estados Unidos não apenas afastaram uma ameaça de interferência europeia na América, como reforçaram seu domínio sobre as nações latino-americanas recém-independentes. O lema ‘América para os americanos’ se tornou sinônimo de domínio dos Estados Unidos sobre os demais países do continente. A industrialização dos Estados Unidos ocorrida em meados do século 19 fez com que a economia da América Latina se tornasse fornecedora de matéria-prima para atender à demanda advinda desse processo.

Atualmente, os presidentes norte-americanos costumam utilizar em seus discursos ideias que fazem referência à Doutrina Monroe, pois mostram que as intervenções militares realizadas em países estrangeiros, por exemplo, são uma missão norte-americana para garantir a liberdade, a democracia e o progresso em todo o mundo. 


Fonte: Carlos César Higa | A História do Mundo 



Doutrina Monroe expõe suas limitações em ação de Trump na Venezuela 

o   Trocar dominação americana do hemisfério ocidental por dominação chinesa do Leste Asiático seria negócio do século, mas para a China.

o   Ordem mundial construída em torno de esferas de influência das grandes potências é uma receita para instabilidade e conflito

 

‘A Doutrina Monroe é um grande negócio, mas nós a superamos muito, realmente muito. Agora eles a chamam de Doutrina Donroe'. Assim disse Donald Trump, algumas horas depois que as forças americanas derrubaram Nicolás Maduro na Venezuela.

A operação venezuelana é uma demonstração dramática da determinação do governo Trump em estabelecer a hegemonia americana no hemisfério ocidental. Essa ideia foi central para a estratégia de segurança nacional dos EU publicada no mês passado. O evidente deleite do presidente dos EU com o sucesso inicial da operação venezuelana sugere que ele pode desenvolver um gosto por intervenções no ‘quintal’ americano, definido de forma expansiva.

Mas as implicações da mudança de regime na Venezuela são verdadeiramente globais. A proclamação de uma Doutrina Donroe - combinada com os movimentos de Trump em direção à reaproximação com Rússia e China— sugere que ele esteja atraído por uma ordem mundial organizada em torno de esferas de influência das grandes potências.

Tanto a Rússia quanto a China condenaram a destituição de Maduro. Mas Xi Jinping sacrificaria alegremente a influência chinesa na Venezuela se isso significasse que Pequim teria mão livre sobre Taiwan. A Rússia faria o mesmo acordo em relação à Ucrânia. Em 2019, Fiona Hill, parte do primeiro governo Trump, disse ao Congresso que o governo russo estava ‘sinalizando muito fortemente que queria de alguma forma fazer um acordo de troca muito estranho entre Venezuela e Ucrânia’.

Por enquanto, no entanto, o foco estará em se, e como, os EU podem ‘administrar’ a Venezuela - como Trump prometeu. No interesse de estabelecer estabilidade - e obter acesso rápido às vastas reservas de petróleo do país -, o governo Trump está claramente indicando que pretende fazer um acordo com os remanescentes do regime Maduro, em vez de apoiar a oposição democrática no exílio.

O sucesso ou fracasso dessa estratégia pode então ditar quão ambiciosos os EU serão ao impor sua força no resto do hemisfério ocidental. Uma lista potencial de alvos já está emergindo. Em comentários feitos após a captura de Maduro, Trump emitiu advertências veladas à Colômbia e ao México. Ele disse que o presidente colombiano, Gustavo Petro, está ‘produzindo cocaína... e então ele precisa tomar cuidado’.

Ele elogiou Claudia Sheinbaum, a presidente do México, mas disse que os cartéis de drogas estão ‘controlando o México’. Há muito tempo existe debate nos círculos trumpistas sobre se os EU deveriam usar força contra os cartéis mexicanos, dentro do próprio México. Até agora, a cautela prevaleceu. Mas a emoção de derrubar Maduro pode mudar o cálculo de Trump.

O regime comunista em Cuba - que foi alvo de várias tentativas americanas fracassadas de derrubá-lo nos anos 1960 - também está de volta na mira de Washington. Marco Rubio, o secretário de Estado americano, cujos pais deixaram Cuba para viver nos EU, já colocou Havana em alerta, dizendo que o regime é um ‘enorme problema’, acrescentando de forma ominosa: ‘Acho que eles estão em grandes apuros... Não vou falar sobre quais serão nossos próximos passos’. A queda de Maduro certamente causará problemas para os cubanos, que passaram a depender do petróleo, e dos subsídios venezuelanos. 

E então há a Groenlândia. Trump acabou de reenfatizar seu desejo de assumir a ilha - que é uma parte autônoma da Dinamarca. Pouco depois da operação venezuelana, Katie Miller, esposa de Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto de Trump, postou um mapa da Groenlândia coberto pela bandeira americana — e a palavra ‘soon’ (em breve) acima dele.

EU x Venezuela

Anexar parte do território de um aliado da OTAN seria um passo muito mais radical do que derrubar um líder autoritário latino-americano. Mas o governo Trump tem preparado o terreno retórico para uma ação na Groenlândia há algum tempo, acusando os dinamarqueses de terem fracassado lá. Dado o desprezo aberto do governo por seus aliados europeus, um esforço americano de anexação não pode ser descartado.

Tudo isso será observado com fascínio em Pequim e Moscou. Um mundo em que Estados poderosos e governantes autoritários podem fazer mais ou menos o que quiserem em suas vizinhanças imediatas, seria muito conveniente para Rússia e China. O próprio Trump pode acreditar que dividir o mundo em esferas de influência informais poderia ser um caminho para a ‘estabilidade estratégica’ com a Rússia e a China, que os EU, de acordo com a sua recente estratégia segurança nacional, estabeleceu como prioridade.

A ideia de que esferas de influência para grandes potências criam estabilidade pode parecer superficialmente plausível. Mas, ignora as visões e interesses de países menores, considerados insignificantes demais para decidir seus próprios destinos. E esses países têm autonomia - e às vezes podem lutar, como a Ucrânia demonstrou.

Mesmo quando apenas os interesses das chamadas grandes potências são levados em consideração, esferas de influência têm tanta probabilidade de criar atrito quanto estabilidade. Isso porque um país como os EU continuará a ter interesses globais. A China, por exemplo, considera Taiwan parte de seu território, e um interesse nacional central. Mas os EU acreditam que sua própria segurança nacional seria prejudicada se a indústria de semicondutores taiwanesa caísse nas mãos da China - ou se Pequim controlasse o transporte marítimo que passa pelo mar do Sul da China.

Trocar a dominação americana do hemisfério ocidental pela dominação chinesa do Leste Asiático, seria o negócio do século. Para a China.  

Fonte: Gideon Rachman, Colunista-chefe de relações exteriores do jornal Financial Times | FSP.

(JA, Jan26)

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