Avenida que nasceu como bulevar afrancesado,
renasce como corredor cultural
Avenida Paulista,1902 |
Em uma definição que se tornou célebre, o historiador da arquitetura Benedito Lima de Toledo (1934-2019) disse que São Paulo é como ‘um palimpsesto —um imenso pergaminho cuja escrita é raspada de tempos em tempos, para receber outra nova, de qualidade literária inferior, no geral’.
Não é à toa que a avenida Paulista, inaugurada em 8 de dezembro de 1891, o
antigo endereço dos barões do café, ‘única por sua posição na cidade e
insubstituível em sua elegância’, está no texto de Toledo entre os exemplos do
que a cidade foi capaz de criar e apagar, ‘sem remorsos’.
Em 130 anos, que completa nesta quarta (8), a avenida vem se modificando em maior ou menor
escala, mas persiste como um símbolo da capital —embora seu nome, proposto pelo
engenheiro uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, que a concebeu, fosse uma
homenagem a todos os nascidos no estado.
A primeira destruição foi a de seu nascimento, transformando
em loteamento de luxo a trilha de tropeiros no espigão do Caaguaçu, a ‘mata
grande’, da qual só sobrou o parque em frente ao Masp —nascido como Villon em 1892, um ano depois da avenida, e hoje batizado Tenente
Siqueira Campos, mas conhecido mesmo como Trianon, nome que ganhou ao ser
remodelado em 1911.
Os dois lados do amplo bulevar afrancesado que ali surgiu se
encheram de palacetes, primeiro de barões do café, depois de imigrantes
endinheirados.
Se a arquitetura eclética paulistana é até hoje tão admirada,
isso se dá em parte por ela ser o registro material da época em que a cidade ia
cunhando para si a ideia de locomotiva do desenvolvimento do país. Esse mesmo
fausto, porém, arrasaria com as mansões da Paulista.
A expansão residencial do centro rumo ao sudoeste deu à
avenida seus primeiros edifícios. O pioneiro surgiu em 1936, na esquina da Frei
Caneca.
Em pouco tempo o predinho que custou à via três casas, com
seis andares de apartamentos para locação, ficaria pequeno no panorama —até ele
próprio ceder, nos anos 1970, abrindo espaço para o edifício Sul América
Seguros, projeto de Maurício Kogan.
Um a um foram ruindo os casarões senhoriais, sob as bolas de demolição, para dar lugar às sedes do capital semeado lá atrás, como café e indústria.
Alguns palacetes ainda estão lá, como o último a ser construído. Desenhado por Ramos de Azevedo para sua filha Lúcia e inaugurado em 1935, é hoje a Casa das Rosas.
Atualmente talvez fosse mais difícil levar ao chão essas
construções; entre os anos 1970 e 1980, quando a verticalização se incrementou na avenida,
os órgãos de patrimônio tinham atuação menos consolidada.
Ainda em 1996 a mansão da
família Matarazzo, que tinha seu tombamento discutido, virou pó em uma noite.
Por anos o terreno foi um estacionamento; hoje é o shopping Cidade de São Paulo, avistado das generosas varandas do edifício Saint-Honoré, bem em frente, projeto de Artacho Jurado, um dos arquitetos empreendedores que melhor exploraram a necessidade de acomodar a classe média no bem servido cetro expandido.
Mas, se os testemunhos daquela primeira época se apagaram, não é possível lamentar por completo seu desaparecimento, considerando o que veio depois –não necessariamente a literatura inferior aludida por Toledo.
A enorme propriedade projetada por Victor Dubugras para Horácio Sabino –um dos sócios da Companhia City, que urbanizou bairros como o Pacaembu–, por exemplo, deu lugar ao Conjunto Nacional.
Empreendimento visionário de Jose Tjurs, que selecionou em
concurso a ideia e um jovem David Libeskind, erguido entre 1954 e 1959, se mantém
como um dos pontos mais vibrantes e frequentados da avenida.
O belvedere do Trianon também projetado por Ramos de Azevedo
foi demolido, ou melhor, transfigurado no vão-livre do Masp.
Pelo gênio de Lina Bo Bardi, há pouco mais de 50 anos o espaço de chás e festas finas firmou-se como ágora das manifestações que adotaram a via como palco principal, valendo-se de sua centralidade, facilidade de acesso e de seu ar de passarela, longa e plana.
Cartão-postal dentro do cartão-postal, o Masp, aliás, é o vermelho coração no centro da vocação última da avenida, a de corredor cultural. A atividade se exacerbou nos últimos tempos, conforme o sangue financeiro foi bombeado mais para o sul, rumo à Faria Lima e à Berrini.
De ponta a ponta, começando no belo prédio do Instituto Moreira Salles, projeto da dupla Andrade Morettin, até a Casa das Rosas, passando pelo Centro Cultural da Fiesp, pelo Sesc Paulista, renovado pelo escritório Königsberger Vannucchi —com um mirante do qual se desfruta da vista da avenida— e pelo Itaú Cultural, há opções gratuitas ou a preços populares de teatro, cinema, cursos e exposições.
As calçadas amplas, tornadas acessíveis em 2007 com a retirada das pedras portuguesas de outros tempos, e a ciclovia central convidam ao passeio —a elas se soma todo o resto da avenida se a visita for num domingo, quando o barulho dos carros e ônibus é substituído por grupos musicais de todo gênero.
Barulhenta ela é, sim, sempre —morar na Paulista é como estar
com um aspirador ligado o dia todo, mostrou um estudo. É cinza, mas também
colorida pelo caleidoscópio dos passantes. Diversa e desigual.
Morrendo e nascendo um pouco a cada dia, a Paulista é a
síntese da cidade que, em 1990, às vésperas
de seu centenário, a escolheu numa enquete como sua imagem. O resultado foi
oficializado em uma lei, hoje revogada. Sua história de ruína e reconstrução,
porém, mostra que a escolha era acertada.
Fonte: Francesca Angiolillo | FSP
(JA, Dez21)